Uma gestante de 27 anos, com 39 semanas e três dias de gravidez, denunciou o que classifica como descaso no atendimento prestado pelos principais hospitais públicos de Campo Grande.
Em meio a fortes dores, falta de ar e dificuldades até para se movimentar na cama, ela afirma ter buscado atendimento por diversas vezes no Hospital Universitário (HU) e no Hospital Cândido Mariano, mas acabou sendo liberada sem solução, mesmo com o avanço da gestação.
Segundo o relato, a gestante está há pelo menos uma semana sentindo dores intensas. Ela afirma que foi duas vezes ao Hospital Universitário, onde realizou exames, mas recebeu como resposta que “não estava na hora” do parto e acabou sendo mandada para casa. Com a persistência dos sintomas, procurou atendimento no Hospital Cândido Mariano, onde relata que sequer foi devidamente examinada.
“Eles mal me atenderam. Fiquei horas esperando e me mandaram embora de novo. Já pedi pelo menos para fazer uma cesárea, mas eles nem dão atenção”, desabafa. A mulher conta que sente dores constantes, falta de ar, náuseas e pressão intensa na parte inferior da barriga. “Não consigo me mexer direito na cama. Tudo que eu como me dá vontade de vomitar. Eu estou muito mal”, afirma.
Ainda de acordo com a gestante, o tempo de espera nas unidades de saúde é excessivo. No Hospital Cândido Mariano, ela afirma ter chegado por volta das 20h e saído apenas depois da meia-noite. Já no HU, relata ter dado entrada por volta das 15h e deixado a unidade apenas às 22h.
Outro ponto denunciado é a estrutura precária e o calor excessivo nas unidades. “Não tem ventilador, é tudo abafado. Gestante passa mal ali dentro. É desumano”, afirma. Ela também relata ter presenciado médicos conversando dentro das salas enquanto gestantes aguardavam atendimento nos corredores. “A gente fica esperando a boa vontade deles”, diz.
A gestante afirma que inicialmente desejava um parto normal, mas, diante da situação, passou a pedir uma cesárea ou, ao menos, a indução do parto. “Já passou de 39 semanas. O bebê já está formado. Pelo menos tinham que dar uma resposta: ou induz ou faz cesárea. Eu vou ficar com meu filho na barriga até quando? Até ele morrer?”, questiona, emocionada.
Em nota encaminhada à reportagem, o Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (Humap-UFMS/Ebserh) esclareceu que o atendimento a gestantes em fim de gestação ocorre tanto por demanda espontânea quanto por regulação, por meio do Pronto Atendimento Obstétrico. Segundo a instituição, todas as pacientes passam inicialmente por classificação de risco realizada por enfermeiras obstetras e, na sequência, são avaliadas pela equipe médica, que define a conduta adequada em cada caso, podendo incluir a solicitação de exames, internação ou liberação com orientações.
O hospital reforça que o tempo de gestação, por si só, não é o fator determinante para internação ou antecipação do parto. Conforme os protocolos adotados, uma gravidez pode chegar até 42 semanas sem apresentar comprometimentos, desde que não haja riscos maternos ou fetais. A decisão de manter a paciente internada está relacionada à presença de comorbidades ou situações de risco, como hipertensão, diabetes, infecções ou sinais de sofrimento do bebê.
De acordo com o Humap, a antecipação do nascimento do bebê, seja por indução do parto ou por cesariana, só ocorre quando há indicação clínica, com risco ou comprometimento à saúde da mãe ou do feto. A instituição ressalta ainda que a cesariana não é a primeira opção de via de parto, uma vez que o parto normal apresenta inúmeros benefícios materno-fetais, sendo priorizado sempre que não houver impedimento clínico. As pacientes que entram em trabalho de parto recebem explicações detalhadas da equipe médica sobre todo o processo.
Sobre o caso citado, o hospital informou que a gestante esteve na unidade nos dias 29 de dezembro e 3 de janeiro, mas destacou que, em respeito ao Código de Ética e Conduta da Ebserh e à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), não pode divulgar informações específicas sobre o estado de saúde ou critérios clínicos utilizados em avaliações individuais.
Em relação ao tempo de espera, a direção negou que tenha havido demora superior a seis horas, afirmando que o atendimento ocorreu em até quatro horas no primeiro dia e cerca de duas horas e meia no segundo. A unidade explicou que a classificação de risco é o principal instrumento para organizar o fluxo, garantindo prioridade às gestantes que necessitam de atendimento mais urgente, especialmente em períodos de maior demanda.
Quanto às reclamações sobre estrutura física, calor excessivo ou falta de ventilação, o hospital informou que não há registros formais de queixas nesse sentido. A maternidade dispõe de suítes individuais para parto normal, equipadas com ar-condicionado e banheiro amplo. Já as demais enfermarias, embora não tenham climatização, contam com corredor externo que possibilita ventilação adequada.
Por fim, o Humap destacou que adota medidas voltadas ao atendimento humanizado, com equipe treinada e capacitada para o acolhimento das gestantes. Apesar do alto fluxo de pacientes, a instituição afirma que a prioridade é sempre garantir assistência adequada e segura, especialmente às mulheres em situação de dor ou urgência obstétrica.
A reportagem procurou o Hospital Cândido Mariano para se manifestar sobre as denúncias e esclarecer os protocolos adotados para atendimento de gestantes em fim de gestação. Mas até a publicação desta matéria não teve resposta. O espaço segue aberto para manifestações futuras.







