O Fomts (Fórum Municipal dos Trabalhadores em Saúde de Campo Grande) enviou, nesta terça-feira (20), um ofício ao Conselho Municipal de Saúde manifestando repúdio às declarações do secretário municipal de Saúde, Marcelo Vilela, direcionadas aos servidores da rede pública.
De acordo com o documento, durante reunião com a Mesa Diretora do Conselho Municipal de Saúde, o secretário teria afirmado que “50% dos trabalhadores da saúde não gostam de trabalhar”. Para o Fórum, a fala é considerada grave, ofensiva e inaceitável, por generalizar e desqualificar profissionais que atuam diariamente no SUS (Sistema Único de Saúde), mesmo em meio à falta de recursos, sobrecarga de trabalho e precarização das condições nas unidades.
O Fomts também critica o fato de que esse discurso vem sendo repetido pelo secretário em reuniões internas e entrevistas à imprensa, acompanhado do anúncio de medidas punitivas, questionamentos sobre atestados médicos e suspeitas generalizadas contra os servidores da saúde.
Outro ponto citado no ofício é a declaração de que haveria medicamentos disponíveis na rede municipal e que o desabastecimento ocorreria porque médicos estariam prescrevendo justamente itens que estariam em falta. Segundo o Fórum, esse tipo de afirmação transfere de forma indevida aos profissionais de saúde a responsabilidade por falhas no fornecimento de medicamentos, atribuição que, conforme o SUS, é de competência exclusiva da gestão.
Para os trabalhadores, esse discurso desvia o foco dos problemas estruturais enfrentados pela saúde pública municipal, como falta de financiamento, planejamento inadequado, deficiência no abastecimento de insumos, infraestrutura precária e carência de pessoal. O Fórum reforça que os servidores não são responsáveis por processos de compra, controle de estoques, manutenção das unidades ou definição das políticas de saúde.
Na prática, segundo o documento, o que se observa nas unidades é o esforço contínuo dos profissionais para manter o atendimento à população, mesmo diante da ausência de medicamentos, prédios deteriorados e equipes reduzidas. Em muitos casos, afirmam, trabalhadores chegam a utilizar recursos próprios para garantir o atendimento, demonstrando compromisso com o serviço público e com o SUS.
O Fomts avalia que discursos institucionais que culpabilizam os trabalhadores e anunciam punições genéricas não contribuem para a melhoria da gestão nem para a solução dos problemas da saúde, mas acabam aprofundando conflitos e fragilizando as relações institucionais.
Diante do cenário, o Fórum solicita que o Conselho Municipal de Saúde registre formalmente a manifestação de repúdio, avalie a emissão de uma nota pública em defesa dos trabalhadores e reforce a necessidade de respeito institucional e diálogo. Também pede que seja analisada a possibilidade de solicitar uma retratação pública do secretário municipal de Saúde.
“O problema da saúde pública não são os trabalhadores. Eles são parte essencial da sustentação do sistema e vítimas diretas da precarização das condições de trabalho”, afirma o documento.
O ofício é assinado por diversas entidades sindicais e conselhos profissionais, entre eles o SinMed-MS (Sindicato dos Médicos de Mato Grosso do Sul), Sioms (Sindicato dos Odontologistas de Mato Grosso do Sul), CRP 14ª Região/MS (Conselho Regional de Psicologia), CRESS/MS (Conselho Regional de Serviço Social), SISEM (Sindicato dos Funcionários e Servidores Municipais de Campo Grande), CRMV/MS (Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado de Mato Grosso do Sul), CRO/MS (Conselho Regional de Odontologia de Mato Grosso do Sul), Sindicato dos Trabalhadores de Enfermagem de Campo Grande, SINTE/PMCG (Sindicato dos Trabalhadores Públicos da Saúde no Município de Campo Grande), ABCD/MS (Associação Brasileira de Cirurgiões-Dentistas – Seção Mato Grosso do Sul), FNO (Federação Nacional dos Odontologistas), FIO (Federação Interestadual dos Odontologistas), ASL (ADM Saúde na Luta), SINDCONAM/MS (Sindicato dos Condutores de Ambulância do Mato Grosso do Sul).







