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Psicose pós-parto: 'eu sempre tive medo de ficar louca, e fiquei após meu bebê nascer'

Ela tinha um bom emprego, estava feliz em seu casamento casada e havia acabado de dar à luz um menino; mas, então, as coisas começaram a dar errado

18 JUN 2019
Da redação/Portal R7
11h05min
Foto: Reprodução/Portal R7

Jen Wight vivia com medo de ter problemas mentais depois de sua irmã mais velha, Jo, ser internada por este motivo quando eram adolescentes. Mas, aos 36 anos, ela tinha um bom emprego, estava feliz em seu casamento e havia acabado de dar à luz um bebê saudável. Parecia que ela se preocupava sem motivo. Leia o seu depoimento:

As pessoas sempre diziam que eu e minha irmã éramos muito parecidas, a ponto de virem me cumprimentar na rua como se eu fosse ela. Há uma diferença de três anos entre nós, mas sempre fomos muito próximas. Mesmo quando éramos adolescentes, Jo sempre me levava junto quando saía com seus amigos.

Tivemos uma infância muito estável e feliz em Stamford Hill, no norte de Londres. Não havia um histórico de doença mental em nossa família, por isso, quando Jo adoeceu aos 18 anos, foi um choque.

Na primeira vez que ela foi para o hospital, ficou internada por nove meses. Eu ia visitá-la na enfermaria psiquiátrica do Hospital Homerton, mas uma combinação de medicação muito forte e a própria doença apagaram completamente sua personalidade. Minha irmã linda, gentil, amorosa e criativa se foi.

Fiquei na minha e fiz questão de não causar mais problemas para nossos pais. Eles fizeram o máximo que puderam para me apoiar e me proteger do que estava acontecendo com a Jo, mas foi muito, muito difícil. Senti muita falta dela. Sempre tinha uma caixa de lenços ao lado da minha cama, porque chorava à noite.

De alguma forma, cheguei à conclusão de que, por ter uma irmã esquizofrênica, também acabaria tendo esse problema - Jo e eu éramos tão parecidas que eu estava convencida de que aquilo também devia existir em mim. Então, no dia 15 de março de 1993, três anos depois de Jo ter sido internada, passei o dia inteiro na cama chorando na minha casa de estudantes na cidade de Brighton, no sul da Inglaterra, esperando que isso acontecesse comigo.

Tinha 18 anos, como Jo ao ser internada, e me senti muito triste. O engraçado é que sou uma pessoa racional - estava fazendo uma faculdade de ciências -, mas estava completamente convencida de que iria enlouquecer naquele dia, assim como Jo. Mas nada aconteceu - e, com o passar do tempo, meu medo de enlouquecer desapareceu.

Quando tinha 29 anos, estava morando em Londres. Havia tido vários namorados, mas ninguém com quem quisesse me casar, então, disse a todos os meus amigos que estava pronta para conhecer alguém e minha amiga Harriet disse: 'Conheço o cara certo!'. Kai era bonito, inteligente e gentil. Nós fomos morar juntos depois de um ano.

Ao contrário de mim, ele sempre quis ter filhos e, aos poucos, topei a ideia. Eu queria muito ficar com ele e, à medida que nossos amigos iam tendo filhos, me surpreendia com o amor que sentia pelas crianças. No final de 2008, deixamos nossos empregos em Londres e nos mudamos para a Austrália. Morávamos em Sydney quando nosso filho nasceu, em janeiro de 2012.

Naquelas primeiras semanas loucas após o parto, estava incrivelmente feliz. Realmente não tinha nenhuma experiência em cuidar de um bebê, mas, antes do nascimento, tinha lido um livro fantástico, escrito por uma parteira, que falava sobre tudo. Havia um pouco sobre depressão pós-parto que lembro de ter lido e pensado: 'Isso não vai acontecer comigo - já passei por momentos difíceis e fiquei muito triste, mas nunca fiquei deprimido'.

Mas, na minha terceira noite no hospital depois de ter meu filho, estava tão exausta que não conseguia dormir, e as coisas começaram a se desenrolar na minha mente. Meus pensamentos estavam acelerados, meu coração batia rápido demais, e comecei a entrar em pânico achando que estaria enlouquecendo. No meio da noite, depois de horas paranoica e chorando, finalmente pedi ajuda.

A enfermeira disse: 'Isso é totalmente normal. Quase todas as mulheres passam por isso depois que o bebê nasce. Você está exausta, e seus níveis hormonais estão despencando, você só precisa de um bom choro'. Fui tomada por um grande alívio. Chorei por horas a fio. Parecia que minhas lágrimas estavam lavando meu pior medo, que me perseguiu por mais de 20 anos. Cheguei o mais perto possível da loucura e não tinha enlouquecido.

Quando saímos do hospital, parecia que era o começo de uma nova vida com meu bebê e meu marido. Estávamos morando em um apartamento à beira-mar e, por um tempo, tudo pareceu maravilhoso. Sentia-me leve e livre e bastante eufórica. Parecia que a parte do meu cérebro que tinha sido inconscientemente tomada pela preocupação de enlouquecer por todos aqueles anos agora estava livre e disponível para outras coisas.

Escrevi listas de tudo o que queria, planejei viagens para o exterior e passei horas navegando na internet, embora a maioria das pessoas com um recém-nascido não tivesse tempo para essas coisas. Nenhum de nós percebeu que algo estava errado. Em algum momento, Kai disse a um de seus amigos que ele estava um pouco preocupado, porque eu estava agindo de forma um pouco louca, mas seu amigo apenas disse: 'Com a minha esposa, foi exatamente assim, todas elas ficam um pouco loucas quando o bebê chega'.

À medida que as semanas passavam, dormia cada vez menos e, à medida que os meus bons momentos iam se intensificando, os ruins também começavam a aparecer. Passei a discutir com Kai até ficarmos exaustos. Estava me sentindo muito irritada e ansiosa, e tinha problemas para amamentar. Realmente queria fazer isso, mas, na quinta semana, estava retirando leite e dando a ele com uma mamadeira, porque a dor havia se tornado insuportável.

O 22º aniversário da crise de Jo estava se aproximando quando a psicose me atingiu. Kai e eu levamos nosso filho ao médico para os exames de seis semanas e, enquanto folheava uma revista na sala de espera, me convenci de que era a atriz Cameron Diaz e havia me mudado secretamente para a Austrália para ter meu bebê.

Logo depois, em um grupo de mães, uma enfermeira ficou alarmada com meu comportamento. Estava rindo descontroladamente e disse a ela que estava excitada demais para dormir, com minhas palavras se embolando umas nas outras. No final da sessão, quando Kai chegou para buscar a mim e a nosso filho, a enfermeira pediu que ele ligasse para a equipe de saúde mental imediatamente.

Estava com medo de que eles me internassem. Perguntaram como estava me sentindo e se tinha alguma pretensão de machucar meu filho ou a mim mesma. Então, me prescreveram um sedativo para me ajudar a dormir.

Depois, ligaram para Kai, dizendo-lhe para não me deixar sozinha, com ou sem meu filho. Algumas pessoas ficariam apavoradas se alguém dissesse isso sobre sua mulher, mas Kai nunca me deixou perceber nada. Simplesmente continuou cuidando de nós. Mas quando ele me disse, algum tempo depois, que acharam que eu poderia machucar nosso filho, fiquei completamente arrasada.

Eu estava tendo pensamentos cada vez mais estranhos, assim como períodos de euforia seguidos de ansiedade esmagadora. Começaram a falar sobre psicose pós-parto e me deram em medicamento antipsicótico - o mesmo que Jo tomou quando ficou doente pela primeira vez. Fiquei assustada e desconsolada. Estava um passo mais perto de estar tão doente quanto ela.

Os delírios iam e vinham: eu encontraria uma cura para a paralisia cerebral; Barack Obama estava vindo para a Austrália para discutir como pegar pedófilos comigo; podia controlar cães com a mente. Estava tão envolvida no que estava acontecendo na minha cabeça que realmente não percebi o que Kai estava enfrentando. Ele fazia todas as refeições do nosso filho, trocava as fraldas e cuidava de meu filho e de mim, sem ajuda da família.

Ele se sentava em nosso quarto e me ouvia andar pelo apartamento no meio da noite, exausto e com medo do que eu poderia fazer. Às vezes, ele me encontrava no quarto do nosso filho com as luzes acesas, olhando para o bebê ou levantando-o da cama, depois de ele passar horas fazendo ele dormir.

Finalmente, eu fui longe demais. No meio de uma de nossas discussões, abri a porta da frente do nosso apartamento, fui para o corredor - a cinco andares de altura - e passei a perna por cima do batente. Kai gritou e me puxou para longe da borda.

O que é a psicose pós-parto

- A psicose pós-parto é uma doença de saúde mental rara, mas grave, que pode afetar uma mulher logo após o parto.

- Os sintomas geralmente começam repentinamente nas primeiras duas semanas após o parto, mas podem levar várias semanas para se manifestar.

- Podem incluir: alucinações; delírios (pensamentos ou crenças que dificilmente são verdadeiros); um estado de humor maníaco (falar e pensar muito ou muito depressa); sentir-se "no topo do mundo"; baixas de humor; ficar reclusa ou chorosa; falta de energia; perda de apetite; ansiedade ou dificuldade em dormir; perda de inibições; sentir-se desconfiada ou com medo; inquietação; sentir-se muito confusa; se comportar forma anormal.

- A maioria das mulheres com psicose pós-parto precisa ser tratada no hospital.

Não me lembro disso. Kai só me contou quando eu estava bem melhor. Ele ficou horrorizado e furioso, mas isso o fez perceber que eu tinha de ir para o hospital. No carro, estava com medo. Imaginei celas acolchoadas e camisas de força, eletrodos sendo presos à minha cabeça, choques elétricos sendo enviados ao meu cérebro.

Felizmente Kai e meu filho foram autorizados a ficar comigo, mas, depois de uma semana, eu melhorei. Os delírios pareciam ter passado e só queria chegar em casa e tentar me acostumar a ser mãe novamente. Mas eu havia saído do hospital há apenas uma semana quando a depressão chegou.

O médico nos disse que é muito comum sentir depressão depois de um período de manias e delírios, mas isso foi o começo de meses de sofrimento. A dor era tão ruim que, em meus piores dias, eu considerava o suicídio como uma saída. Pensamentos terríveis davam voltas em minha cabeça.

"Não posso lidar com essa dor, tenho de fazer alguma coisa, essa é a única coisa que posso fazer, não posso fazer isso, não posso lidar com essa dor..." A única coisa que me impedia de agir era a dor que causaria a Kai, meu filho e minha família. Mas, então, me senti muito culpada de pensar em ser capaz de fazer isso com meu filho.

O progresso foi lento e doloroso, mas, aos poucos, quando estava tomando uma dose eficaz de antidepressivos, senti como se estivesse voltando ao normal. A melhor coisa foi quando percebi que comecei a realmente gostar de estar com meu filho, em vez de ter medo de cuidar dele.

Um efeito positivo de estar doente é que isso me ajudou a entender a experiência de Jo. Ela tem 46 anos agora e tem uma vida própria - cozinha, cultiva coisas em seu jardim e faz cartões para as lojas de caridade locais. Ela adora meu filho e lhe envia pequenos presentes e quadros para ele, mas sua doença é um fardo enorme para ela, e a vida é muito difícil.

Fiz meu melhor quando tinha depressão, mas não era a mãe que eu teria sido - não ria e, embora tentasse cantar, era muito difícil. Fiquei preocupada que minha falta de amor e cuidado naqueles primeiros dias pudesse de alguma forma prejudicar o desenvolvimento do meu filho, mas uma psicóloga infantil disse que nosso vínculo era bom e que talvez o principal prejuízo causado por minha doença era ter minado minha confiança enquanto mãe.

Eu me esforcei muito e, agora, meu relacionamento com meu filho é muito melhor. Nós dois mudamos, ele e eu. Ele tem sete anos, e eu sou muito feliz por estar com ele. Quando você sente a dor extrema da depressão grave, se sente suicida e passa por tudo isso, a vida normal e as pequenas coisas parecem ser maravilhosas. Para mim, ser mãe é cada vez melhor.

Kai e eu passamos por uma experiência terrível juntos, mas sobrevivemos, e isso nos fortaleceu. Mas não teria mais filhos, principalmente porque quero minimizar o risco de passar por isso novamente. Nós somos realmente muito, muito felizes - amamos ser uma família de três pessoas.

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