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Arquiteto do Timão recebeu dinheiro da Odebrecht durante a obra da Arena

5 NOV 2016
Globo Esporte
12h49min
Foto: Marcos Ribolli

Um arquiteto contratado pelo Corinthians para atuar nas obras da Arena foi, simultaneamente, remunerado pela Odebrecht, empreiteira que ergueu o estádio entre 2011 e 2014. A Arena, que custou mais de R$ 1 bilhão e foi parcialmente financiada pelo BNDES, é motivo de divergências entre clube e a construtora.

Ao longo de 2012 e 2013, Jorge Borja era o representante do clube em contratos entre a Odebrecht e empresas que forneciam serviços ou produtos para a obra. O GloboEsporte.com  teve acesso a 34 desses contratos, todos com sua assinatura - ele usava um carimbo do clube, seu nome, seu RG e sua inscrição no CREA, o Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura.

Com a chancela de Borja (portanto do Corinthians), a Odebrecht contratou empresas que forneceram ar-condicionados, móveis, placas de mármore, o gramado do estádio e vários outros produtos serviços, como pintura e instalações elétricas e hidráulicas. Os contratos têm valores que variam de R$ 23 mil a R$ 36 milhões.

No dia 1º de setembro de 2013, com a obra em curso, uma empresa de Jorge Borja chamada Tecnotrade foi contratada pela Odebrecht por R$ 1,4 milhão para "elaborar o projeto executivo das instalações provisórias usadas durante a Copa".

No dia 2 de setembro, portanto um dia depois de ter sido contratado pela Odebrecht, Jorge Borja assina pelo Corinthians um contrato entre a construtora e uma empresa para "fornecimento e montagem de placas de granito para revestimento de pilares", no valor de R$ 85 mil.
Depois de ter enviado uma proposta comercial para a Odebrecht, em 4 de junho de 2013, Jorge Borja assinou pelo menos dez contratos como representante do Corinthians, nas seguintes datas, com os seguintes valores, para os seguintes serviços

10 de junho de 2013 - R$ 112.371,66 (revestimento)
14 de junho de 2013 - R$ 612.292,64 (portas)
19 de junho de 2013 - R$ 5.778.553,36 (caixilhos
26 de junho de 2013 - R$ 23.320,00 (revestimento)
6 de julho de 2013 - R$ 444.054,77 (pintura)
8 de julho de 2013 - R$ 238.128,34 (forro de gesso)
16 de julho de 2013 - R$ 755.178,80 (portas)
18 de agosto de 2013 - valor não identificado
20 de agosto de 2013 - R$ 104.027,35 (portas)
2 de setembro de 2013 - R$ 85.000 (placas de granito)

O arquiteto Jorge Borja foi procurado pelo telefone de sua empresa, por telefone celular e por e-mail, mas até a publicação desta reportagem não havia respondido. Em seu site, a Tecnotrade cita o Corinthians como cliente num trabalho de "acompanhamento de obras".

Por meio de assessoria de imprensa, o Corinthians disse não ter informações sobre os serviços que Borja prestou ao clube e nem as datas em que isso ocorreu. O clube informou que quem cuidava dos assuntos jurídicos da Arena era o advogado Ivandro Sanchez, do escritório Machado Meyer, que não trabalha mais para o clube. Procurado, Sanchez não foi encontrado pela reportagem.

O ex-vice-presidente do Corinthians Luis Paulo Rosenberg, que em 2012 estava envolvido com os assuntos relativos ao estádio, disse ao GloboEsporte.com que Jorge Borja foi contratado pelo clube para "ficar na obra e ver se tudo estava sendo feito de acordo com o contrato". Outros dirigentes do clube confirmaram esta versão. Nenhnum deles soube informar com precisão em que data Borja deixou de presetar serviços para o Corinthians. 

O engenheiro Ricardo Corrégio, da Odebrecht, que assina alguns dos contratos aos quais o GloboEsporte.com teve acesso, afirmou: 

- Nós não tínhamos relação com o Jorge diretamente, ele era o representante do clube na Arena. Era o preposto do clube para acompanhar as obras.

Questionado especificamente sobre o contrato assinado em 1ª de setembro entre a Odebrecht e a Tecnotrade, empresa de Jorge Burja, Corrégio respondeu:

- Isso aí é uma outra coisa. O Jorge tem uma empresa chamada Tecnotrade. Nessa época ele não era mais o preposto do clube - disse o diretor da Odebrecht. 

Na edição de julho/agosto de 2012 da publicação "Odebrecht Informa", disponível no site da empreiteira, o então diretor de contrato Antonio Roberto Gavioli afirma que "a proximidade entre parceiros contribui para que a construção da arena esteja em ritmo acelerado". O informativo da construtora cita Jorge Borja como representante do Corinthians na obra e lhe atribui a seguinte frase: 

- Aqui, o segredo é o envolvimento de todos, já que estamos num mesmo time, em busca de soluções.

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