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Três anos após quase perder a perna, Héracles tenta retomada na carreira

Revelado no Atlético-PR, lateral-esquerdo relembra lesão que quase o tirou dos gramados, momentos de desespero e dor, e foca em recomeço. 'Estou preparado'

13 NOV 2016
Globo Esporte
08h27min
Foto: Monique Silva

Héracles abre o celular e passeia pelas fotos que traduzem o pior momento de sua vida. O semblante não se altera, não há reação. De fala calma, ele explica cada etapa de sua recuperação. Da lesão à cirurgia, do desespero à angústia, da dor à glória. A vitória de dobrar o joelho, de colocá-lo no chão, de voltar a andar, correr, chutar. Coisas simples, segundo ele, que valeriam a pena após tanto sacrifício. Não apagou nenhuma imagem, deixou todas lá, arquivadas. O que sente ao vê-las? Recordação.

- Às vezes tem gente que pede porque acaba virando um exemplo de superação. Tenho guardado todas as fases, do início até o final. Não sou de ficar vendo, mas não é algo que me traz muita emoção.

A dor, que tanto o acompanhou em nove meses de readaptação, ficou para trás. Restou apenas a cicatriz de aproximadamente um palmo, a única marca que hoje carrega na pele como lembrança do episódio mais traumático em seus 24 anos.

A noite de 25 de outubro de 2013 ainda está bem viva na cabeça do jogador. O lance do meio-campo, no começo do segundo tempo, freava a sua melhor fase na carreira. O Avaí vencia o Bragantino por 3 a 0 na Ressacada na 32ª rodada da Série B do Campeonato Brasileiro, resultado que recolocava o time catarinense no G-4. A fase do time era boa. De Héracles, então, nem se fala. O menino nascido em Caucaia, na região metropolitana de Fortaleza, vivia grande momento no time catarinense. Tudo ia dando certo os 20 minutos do segundo tempo, quando o meia Graxa, do Braga, deu uma entrada dura no joelho esquerdo do lateral (veja o vídeo abaixo).

- Ele entrou com uma força desproporcional. Eu nunca tinha machucado sério, o máximo que fiquei foi dois meses fora. Na hora da pancada senti que o joelho saiu e voltou. Lembrei até do Ronaldo (Fenômeno) na hora. Apertei o joelho, vi que a patela estava no lugar, mas senti aquela dor de desmaio. Subi na maca, e conforme o carrinho balançava a dor aumentava. Não tinha noção da gravidade, eu perguntava para os médicos e ninguém dizia muita coisa. Pensei, deve ter sido só uma entorse, próximo jogo estou de volta. Mas o pessoal já falava que não era por aí, eles viram que era sério. Fui medicado, sentia muita dor. Fui para casa, mas não dormi nada naquela noite - relembrou em entrevista ao GloboEsporte.com.

Após a partida, o técnico Hemerson Maria, na entrevista coletiva, lamentou a gravidade da lesão de Héracles e revelou que o time faria um pacto pelo acesso para homenagear o jogador. 

- O nosso grupo era muito bom, o ambiente, o astral. O time estava encaixado. O meu momento também era muito bom, eu estava recuperando o meu espaço e tudo foi interrompido. O grupo sentiu muito. Na minha despedida todo mundo estava bastante emocionado. E aí eles tiveram essa decisão, mas infelizmente o time não subiu.

A grave lesão resultou em três dos quatro ligamentos do joelho rompidos - só não rompeu o colateral lateral, que estirou e não precisou ser reconstruído. Caso uma das artérias que passam atrás do joelho tivesse se rompido, Héracles teria que passar por uma cirurgia de emergência, com o risco de amputar a perna.

- Achei que foi imprudente, falei isso a ele. Ele e o pai me ligaram antes da cirurgia. Nunca tive mágoa, mas ele usou de uma força desnecessária. Falei 'pô, somos companheiros de profissão, dali a pouco podíamos jogar no mesmo time'. A bola estava no chão, lance no meio do campo, e ele veio com o pé na altura do joelho. E o juiz não deu nem falta. Ele pediu desculpas, e eu disse para que ele aprendesse com aquilo. E espero que tenha aprendido - diz.

No dia seguinte, uma ligação de Mario Celso Petraglia, presidente do Atlético-PR, clube que revelou o lateral, trouxe um pouco de tranquilidade ao jogador. No contato, o mandatário avisava que o lateral deixaria Florianópolis imediatamente e viria a Curitiba para iniciar o processo de pré-operatório.

- Ele disse que eu ia operar com o melhor, o doutor. Rene Abdalla, que virou meu amigo. Fui para Curitiba de ambulância no dia seguinte ao jogo, mas só fui operar quase 20 dias depois do lance porque o joelho tinha que desinchar. Depois da cirurgia, fiquei uns 15 dias em São Paulo porque não podia viajar de avião, tinha o risco de trombose. Só tenho que agradecer ao Atlético-PR, operei com um dos melhores especialistas em joelho e a recuperação foi muito boa.

Dor, choro, desespero e apoio incondicional da esposa

Foram longos nove meses dedicados à fisioterapia, cuidado extremo e avaliação com os  médicos do Furacão no CT do Caju, que acabou virando sua segunda casa. Depois das sessões diárias no clube, Héracles ainda passava por uma espécie de "terceiro turno" com a ajuda da esposa Luana, que virou "fisioterapeuta, enfermeira, motorista e psicóloga", em suas palavras.

- Quando você convive com uma dor todo dia, aquilo acaba te estressando. Eu fiquei incapacitado de fazer qualquer coisa sozinho. Não conseguia tomar banho, não fazia nada sem a ajuda dela, que segurou uma barra muito grande, mas sempre acreditou que o esforço ia dar resultado - relembra orgulhoso.

Em sua dura rotina, a tarefa principal do jogador se concentrava em dobrar o joelho repetidas vezes, o que lhe causava muitas dores. E foi nesse momento que o lateral caiu no desespero, quando acabou apresentando um quadro de fibrose - formação de excesso de tecido conjuntivo fibroso em um órgão ou tecido, que ocorre através de um processo reparador ou reativo, ocasionado geralmente após um trauma, cirurgia ou esforço repetitivo com impacto. O pensamento era apenas um só: voltar a ter uma vida normal.

- A dor era enorme, eu chorava de dor praticamente todos os dias. Eram dois médicos me segurando, e outro empurrando a perna. Chegou num ponto que o joelho ficou em 90 graus e não passava disso, ele "fibrosou". Foi um momento muito difícil. Eu não pensava mais em voltar a jogar, eu só queria ter uma vida normal, andar e correr com meus filhos quando fosse pai. Como eu ia correr andar, pular? Foi o pior momento, ali vi que era sério. Eu não tinha condições de pensar em algo maior. Mas a partir do momento que via evolução eu fui me motivando em pensar de novo no futebol. Pensei em desistir... mas no fundo pensava ao mesmo tempo, 'não vou'.

Com o quadro, Héracles retornou a São Paulo e passou por uma cirurgia para "limpar" o joelho. Segundo o jogador, os médicos "dobraram a perna na marra". Dedicado, o jogador voltou aos treinos em julho, nove meses após a lesão e, contrariando a previsão dos médicos, que estimavam o retorno em um ano.

- Tive algumas dificuldades. Por exemplo, toda vez que eu chutava o meu joelho dava um choque. Então comecei a chutar bola em um paredão lá no CT e foi diminuindo a intensidade, até sumir completamente. Fui pegando confiança e o joelho ficou bom.

Em todo o processo de recuperação, uma ajuda em especial traz boas lembranças ao jogador - a do lateral-esquerdo Marcelo Oliveira, atualmente no Grêmio, que também passou pelo Furacão em 2011.

- Ele passou por uma situação complicada no joelho, quando fez uma cirurgia e acabou pegando uma infecção. Ficou em 90 graus também. Ele foi me passando mais calma. O Nei (lateral-direito) e o Maikon Leite (atacante, ambos ex-Atlético-PR) também me deram força.

De todo o processo que passou até voltar a jogar, Héracles hoje se vê mais maduro e confiante. O aprendizado, segundo ele, foi passar a viver de forma mais intensa e valorizar mais os momentos, principalmente os mais simples da vida.

- Vi que a gente não tem controle de nada, em um segundo tudo pode mudar. Aprendi a viver intensamente o hoje, porque entre hoje e amanhã é muito distante. Hoje valorizo mais os momentos, o fato de poder correr, treinar, descer uma escada. Eu não conseguia sequer sair de uma cadeira sozinho, tomar um banho. Quando o momento é bom, tem muita gente ao seu redor. O meu telefone não tocava, não chegava mensagem. Eu vi realmente quem era de verdade, quem estava comigo, com quem podia contar. Amadureci muito. Mas é melhor ter um grupo seleto do que muita gente. Quem está sempre do meu lado não me faz lembrar de quem não está - diz.

Pneumonia na chegada ao Furacão e pronto para novos desafios

Héracles começou a jogar futebol com nove anos na escolinha do Fortaleza, onde conciliava os estudos com os treinos, além da prática de futsal à noite. Aos 13 anos foi federado no Uniclinic, time cearense que firmou parceria com o Atlético-PR, onde chegou em 2006. A chegada a Curitiba foi "traumática" para o jogador, que parou até no hospital.

- Eu era o mais novo dos atletas. Estava muito quente em Fortaleza, eu cheguei aqui em abril e estava o maior frio. Acabei pegando uma pneumonia e cheguei a ficar uns dias internado. Foi um baque. Mas aí você chega, vê a estrutura do Atlético-PR, e supera qualquer coisa para realizar seu sonho. Foi isso que me deu forças, mesmo longe da família, doente, praticamente uma criança.

O lateral-esquerdo passou por todas as categorias de base, desde o infantil, até chegar ao profissional do Furacão. Sua estreia no profissional foi aos 17 anos, no Campeonato Paranaense de 2010, sob o comando do técnico Antônio Lopes. No ano seguinte, disputou o primeiro Brasileirão, com Paulo César Carpegiani, e anotou seu primeiro gol diante do Flamengo, na vitória por 2 a 1 no estádio Cláudio Moacyr, em Macaé. Em 2013, fez parte do lançamento do time sub-23 do Furacão, mas viveu à sombra de Pedro Botelho, titular. Sem espaço, foi emprestado ao Avaí depois da disputa do estadual. No total, o lateral tem 85 jogos disputados pelo Rubro-Negro paranaense.

No ano passado, Héracles foi negociado com o Joinville, onde disputou apenas quatro jogos - um deles em 2016, pelo Catarinense. A jornada foi interrompida por uma fratura no tornozelo, que impediu o jogador de ter sequência. Teve o contrato rescindido em agosto e ficou sem clube.

Sem clube, o lateral voltou a entrar em contato com o Atlético-PR e pediu para utilizar o CT para readquirir a forma física e se manter em ação. A dura rotina de fisioterapia de anos anteriores deu espaço ao treinamento diário com o sub-23.

- De imediato eles liberaram e abriram as portas para eu me preparar. Treino todos os dias, de segunda a sexta, normalmente em dois períodos. E também faço um trabalho à parte para aproveitar a estrutura do clube. Daqui a pouco todos estão formando os times para os estaduais e tenho que estar preparado.

Totalmente recuperado e com fome de bola, Héracles hoje só pensa em voltar a jogar.

- Estou reabilitado. O meu único pensamento agora é retomar a minha carreira. Eu superei tudo. Nós né, não posso ser singular nesse momento, muitas pessoas me ajudaram. Agora é voltar a jogar, retornar ao mercado. Claro que vou sentir ritmo de jogo, mas estou preparado para esse recomeço.

 

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