Saúde

há 2 horas

Com dores há 4 meses, caseiro espera cirurgia e expõe 'limbo' da fila ortopédica em Campo Grande

Situações como a de Valdeir foram expostas após a Defensoria Pública ajuizar ações civis públicas para garantir atendimento a pacientes que aguardam procedimentos ortopédicos e cardiológicos

29/06/2026 às 07:00 | Atualizado 29/06/2026 às 07:10 Brenda Souza
Reprodução

A espera de meses por uma cirurgia ortopédica enfrentada pelo caseiro Valdeir Ortega de Souza, de 34 anos, não é um caso isolado. O drama vivido pelo trabalhador se encaixa em um cenário que a Defensoria Pública de Mato Grosso do Sul classifica como um "limbo" da regulação da saúde, onde pacientes acabam presos em filas de espera invisíveis, sem previsão de atendimento e, muitas vezes, fora do radar do sistema.

Há cerca de quatro meses afastado do trabalho, Valdeir convive diariamente com dores intensas após sofrer um acidente em fevereiro, enquanto trabalhava em uma fazenda na região de Aquidauana. Segundo ele, a única solução apontada pelos médicos é uma cirurgia no tornozelo direito, mas o procedimento ainda não foi realizado pelo SUS (Sistema Único de Saúde).

"Estou com muita dor. O médico particular falou que meu caso só vai resolver com cirurgia", relata.

Desde o acidente, ele passou por diferentes unidades de saúde e especialistas, mas afirma que continua aguardando uma vaga. "Fica um empurrando para o outro. Os dias estão passando e nada. Estou com dor, não estou dormindo e nem conseguindo comer direito", desabafa.

Enquanto espera, as crises de dor o levam com frequência às unidades de urgência, onde recebe apenas medicamentos para aliviar os sintomas.

"Vou ao hospital 24 horas e só passam dipirona e injeção para dor. Ajuda só na hora, mas o médico disse que só a cirurgia resolve."

Filas que desaparecem do sistema

Situações como a de Valdeir ganharam destaque após a Defensoria Pública ajuizar ações civis públicas para obrigar o município e os demais responsáveis pela rede pública a garantir atendimento a pacientes que aguardam procedimentos ortopédicos e cardiológicos.

Conforme o já divulgado pelo TopMídiaNews, o NAS (Núcleo de Atenção à Saúde) detalhou que existe uma demanda considerada "invisível". São pacientes que recebem indicação médica para cirurgia, mas permanecem internados ou aguardando indefinidamente sem que seus casos retornem à Central de Regulação para serem encaminhados a outra unidade quando o hospital não consegue realizar o procedimento.

Na avaliação da Defensoria, essas pessoas acabam "desaparecendo" do sistema, sem previsão de cirurgia, de transferência ou de continuidade do tratamento.

Entre os casos acompanhados estão crianças que aguardam a retirada de pinos e hastes ortopédicas há mais de dois anos, além de idosos e pacientes cardíacos que permanecem internados por semanas à espera de materiais e equipamentos.

Dor, desemprego e contas acumuladas

Embora não esteja internado, Valdeir enfrenta outra consequência da demora: a impossibilidade de voltar ao trabalho. Sem conseguir exercer a função de caseiro desde fevereiro, ele afirma que a empresa informou que não arcaria com os custos da cirurgia, considerados elevados, orientando que buscasse seus direitos junto ao INSS.

Um orçamento apresentado pelo trabalhador aponta que apenas os honorários médicos chegam a R$ 14,8 mil. Somados os custos hospitalares e dos materiais cirúrgicos, como placa para fixação da fíbula e instrumentais, o procedimento ultrapassa R$ 22 mil.

"Quero voltar à minha rotina. Quero trabalhar, tenho uma filha para sustentar e contas para pagar."

Defensoria aponta problema estrutural

Para a Defensoria Pública, os casos revelam uma falha estrutural na rede de saúde pública.

A instituição afirma que tentou resolver a situação por meio de reuniões com gestores, envio de ofícios e discussões no Comitê Estadual de Saúde, mas sem avanços concretos. Diante disso, recorreu à Justiça para exigir medidas emergenciais que garantam a continuidade do atendimento aos pacientes que aguardam procedimentos.

Uma das ações já foi reconhecida como processo estrutural pelo Judiciário, que marcou audiência entre os órgãos envolvidos para discutir soluções para o problema.

A reportagem procurou a Sesau (Secretaria Municipal de Saúde) para saber qual a situação de Valdeir na fila de espera por cirurgia ortopédica, se existe previsão para o procedimento e quais medidas podem ser adotadas diante do quadro relatado. Até a publicação desta matéria, não houve resposta. O espaço permanece aberto para manifestação.