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Delator recebia até R$ 200 mil por mês para intermediar propinas

Ivanildo começou a operar para Puccinelli em 2006, recebendo valores de quatro frigoríficos

15 NOV 2017
Diana Christie
07h00min
Foto: Reprodução

Delator na Operação Lama Asfáltica, o empresário Ivanildo Cunha Mirando, conhecido como Ivanildo Cervejeiro, começou a trabalhar como ‘colaborador’ do ex-governador André Puccinelli em 2006, durante a campanha eleitoral. Pelo menos é o que ele alega no acordo de delação premiada homologado pela Justiça Federal.

Ivanildo afirma que começou ajudando a recolher doações de campanha não oficiais dos frigoríficos Bertin, Independência, JBS e Marfrig, que compõem a ABIEC (Associação Brasileira de Indústrias Exportadoras de Carne), e se transformou ‘operador de propinas’ quando Puccinelli foi eleito e lhe delegou o papel de “mensageiro”.

Ele conta que sempre passava no apartamento do ex-governador entre os dias 8 e 10 de cada mês, recebia uma lista de nomes de beneficiários e recolhia o dinheiro dos frigoríficos Mafrig, Bertin, JBS e Independência. Pelo serviço, recebia entre R$ 60 e R$ 100 mil, valores que oscilavam conforme determinação do ex-governador.

Como os pagamentos eram realizados principalmente em dinheiro e a JBS começou a reclamar da dificuldade de entregar valores em espécie, solicitando contas bancárias para depósito, Puccinelli teria passado a entregar contas do Instituto Ícone, Gráfica Alvorada, Ibope e outras empresas para o frigorífico pagar.

Ivanildo afirma que, até então, não sabia que se tratava de pagamento de propinas em troca de benefícios fiscais, mas eventualmente acabou descobrindo o motivo. Ele também incluía entre as contas a serem pagas pela JBS, dívidas dele para recuperar empréstimo de R$ 1 milhão realizado para a campanha de Puccinelli.

No grupo Bertin, os pagamentos eram realizados por Natalino Bertin, através de dinheiro em espécie armazenado em mochilas ou pastas executivas. Já no Independência, quem fazia as entregas era Miguel Russo Neto, e na Mafrig, o empresário Marcos Antônio Molina, sempre em caixas de papelão ou sacolas.

Eventualmente, o grupo da JBS comprou os outros frigoríficos, o que complicou o recebimento. Como a empresa era ‘difícil’, sempre exigente e com controle rigoroso da entrada e saída, o ‘cachê’ de Ivanildo teria aumentado nessa época, passando para cerca de R$ 200 mil mensais.

A prática criminosa teria continuado até mesmo após Puccinelli sair do governo, com lavagem de dinheiro através de várias empresas. O depoimento faz parte de uma série de documentos levantados pela PF (Polícia Federal) durante as investigações da Operação Lama Asfáltica, que deflagrou nesta terça-feira (14), a fase Papiros de Lama.

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