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Sem medo de ser feliz, Aline recusa ideia de superação e corre em busca dos sonhos

Ela tem paralisia cerebral que limita a coordenação motora, no entanto reforça que sua vida é como a de qualquer outra pessoa

3 AGO 2019
Nathalia Pelzl
13h30min
Foto: Reprodução/Facebook

Aline Cristina Maziero, 30 anos, não aceita e nem gosta quando falam que seu exemplo é de superação. Natural de Nova Andradina, município distante a 300 quilômetros de Campo Grande, veio para Capital em busca dos seus sonhos.

Ela tem paralisia cerebral que limita a coordenação motora, no entanto, reforça que sua vida é como a de qualquer outra pessoa. Ela trabalha, estuda, tem amigos e até faz serviço voluntário.

Entre os desafios diários, ela conta como foi sair do interior para morar na Cidade Morena. "Eu queria, de algum jeito, qualquer que fosse, sair de uma cidadezinha do interior. Consegui passando no vestibular. Comecei na UFMS e eu adoro a UFMS, é meu lugar no mundo. Mas demorei para me encontrar. A gente teve uma série de problemas, pois a universidade não oferecia acessibilidade, mas eu era daquelas que batia de frente, conversas longuíssimas com a reitoria, e depois de muita briga, consegui banheiro adaptado, estava no terceiro ano do curso”, conta. 

Aline destaca que, mesmo após tanta luta, a universidade ainda possui, devido à falta de recursos e prédios antigos, uma estrutura sem muita acessibilidade

"Até hoje o laboratório de TV é descendo escadas, alguns auditórios ainda são escadaria, sem possibilidade de acesso. A UFMS, em vários níveis, ainda não possui 100% a acessibilidade, devido a antiguidade do prédio e baixo orçamento, algumas rampas são muito íngremes, tenho medo, pois são rampas perigosas. Exige força e equilíbrio, tenho medo de me ‘estabacar’ no chão", pondera.

Formada em jornalismo, ela conta que, logo após a formatura, percebeu que não era o ramo que queria seguir.

“Fiz mestrado e fui para a literatura, troquei o fato pela ficção, comecei a trabalhar com adaptação de textos literários para o áudio visual trabalho com texto do Érico Veríssimo, O Tempo e o Vento, e duas minisséries traduzidas e adaptadas do texto", pontua.

Sempre focada nos estudos e buscando mais, Aline reforça que veio a cobrança da família, em especial do irmão, para que começasse a trabalhar.  Com todo amor que tinha pela UFMS, decidiu prestar um concurso de técnico administrativo.

"Lembro que fiquei sabendo que fui aprovada para o doutorado em um dia, no dia seguinte estava fazendo a prova do concurso, três meses depois fui chamada. Então, tinha que dar conta de viajar 600 km de ida, mais 600 km de volta toda semana. E eu tinha que fazer isso com uma deficiência", fala descartando a ideia de ‘coitadinha’.

Constrangimentos

Aline explica que não lida com a doença de forma negativa, pelo contrário, prefere estar sempre em movimento, buscando e aprendendo algo novo, no entanto, alguns constrangimentos fazem parte da rotina.

“Eu tenho uma limitação. Tirando essa limitação, o que eu consigo fazer? Até onde eu posso ir? Se eu não tivesse essa ‘boa convivência com a deficiência’, acho que eu não seria uma pessoa tão bem-sucedida”, avalia.

A servidora pública conta que um dos maiores constrangimentos é quando vai comprar roupa, devido a sua limitação, a mãe a acompanha.

“Eu sou uma pessoa que trabalha, que paga suas contas e, assim, vive uma vida razoavelmente dentro dos padrões da normalidade. Eu vou comprar uma blusinha e vou pagar essa blusinha, mas quando minha mãe está me levando não é para mim que elas olham, é para minha mãe. Acham que é minha mãe que vai pagar, elas olham para cima, não olham para mim, isso me incomoda”, relata.

Ela conta ainda que o mesmo acontece quando ela vai em uma festa. Muitas pessoas questionam se ela dança ou algo tipo.

“Eu não posso sair de casa, as pessoas perguntam: 'ah, você vai nesse tipo de lugar?' Quer dizer, o que esperam que eu faça? Fique em casa chorando? Eu, Aline, posso não gostar de alguns lugares, mas isso não significa que a minha deficiência me impeça de frequentar todos ele”, conta entre risos.

Trabalho voluntário

Fazendo trabalho voluntário há quase um ano, Aline conta que a ONG onde atua, todo se vestem como super-heróis, no entanto, não se considera uma super-heroína, já que são mais de 200 pessoas e histórias que atuam e todos precisam ter o mesmo destaque.

“Todos possuem uma história e mostram disponibilidade para fazer, por isso não gosto de me colocar no papel de super heroína".

Amadurecimento

Questionada, Aline reflete que tudo é questão de amadurecimento e que está descobrindo o que quer para sua vida.

“A Aline hoje é uma pessoa que tem se aberto cada vez mais as possibilidades, sou uma pessoa bem resolvida e feliz. Acho que nunca estive tão bem. Eu tenho planos, tenho sonhos e vou me manter em busca deles”, finaliza.

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