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Camara Maio

Café revive gastronomia de Minas na Capital

Comida da avó

5 MAR 2014
Vanessa Ricarte
18h20min
Doces caseiros. Foto: Vanessa Ricarte

Em 1870, José Antônio Pereira escutou alguns "causos" sobre uma terra distante e muito boa para cultivo no coração do Brasil. Tomou coragem, juntou os parentes e estabeleceu seu rancho que viria a se tornar a atual Capital de Mato Grosso do Sul. Assim como o precursor e fundador de Campo Grande, outros mineiros conquistaram a região, impelidos por uma vontade de desbravar o oeste do país. Na bagagem, trouxeram uma herança gastronômica que ainda hoje faz parte dos hábitos alimentares do campo-grandense, ainda que de forma sutil e incorporada a outros costumes do local.

Pão de chipa?

A miscigenação de povos tais como índios, paraguaios, paulistas e mineiros contribuíram sobremaneira para a formação cultural do estado. Uma das curiosidades atuais é a dificuldade do campo-grandense em distinguir o sabor de um pão de queijo da chipa na maioria das cafeterias e lanchonetes da cidade. "Pra mim, a única diferença é no formato. Um é uma bolinha e o outro, uma ferradura", explica uma atendente de um movimentado café no centro da cidade que não quis se identificar.

 

Karina Beltrão, proprietária de um empório com produtos oriundos de Minas Gerais, diz que recebe inúmeros clientes que sentem "estranhamento" ao provar o pão de queijo servido pela casa. "É incrível perceber as impressões de quem experimenta um pão de queijo daqui. Quando me perguntam o que eu faço, digo que não é diferente, é mineiro. De fato, existem muitos lugares que dizem vender pão de queijo, mas na verdade é chipa ou massa industrializada. Aqui é tudo fresquinho, oriundo de Minas e o único ingrediente daqui é o ovo."

Raízes

A comida mineira é aquela conhecida como uma de "sustância", de fazenda. Ao identificar tal nicho de mercado, Karina Beltrão (38) criou a casa nomeada com seu sobrenome, autêntico mineirinho. A intenção da empresária foi proporcionar esse resgate de sabores genuínos de minas em solo campo-grandense. "Resolvi montar um cantinho de Minas aqui na cidade. Minha família toda é mineira, sou nascida aqui, mas os meus irmãos nasceram lá."

Karina conta que a saudade da comida da avó fez com que ela tomasse a iniciativa de criar a Casa Beltrão que completa um ano neste mês. "Eu me lembro que durante as minhas férias, eu ficava na casa da minha avó lá em Minas e aproveitava para fazer a compra: doces, queijos, tudo pra poder comer aqui quando chegasse. Era uma pena que durava pouco e tínhamos que ficar sem no restante do ano!", brinca Karina entre risos.

Comida colonial

Café coado no coador de pano, um pastel de angu recheado com carne e queijo, pão de queijo com doce de leite e um docinho de abóbora cristalizado para arrematar - eis um típico café da época do Brasil Colônia. Uma das bases da gastronomia é proporcionar sentimentos e sensações nos chamados “comensais”. Quem não se lembra da cena época do filme Ratatouille em que o crítico-mor, carrasco dos restaurantes franceses, que se rende, amolece e despedaça ao saborear uma comida típica de sua infância?

 

Dessa forma, mineiros e descendentes encontraram na Casa Beltrão uma forma de resgatar suas memórias gustativas. "A aceitação é excelente. Eu já sabia que havia muitos mineiros na cidade, mas depois de abrir a casa, aqui virou um ponto de encontro - gente do Triângulo, sul de Minas, Belo Horizonte acabam fazendo novas amizades aqui."

Gourmet caipira

O empório de Karina vende doces em compota, cachaças, queijos, artesanato e agora a primeira cerveja artesanal mineira que já conquistou até prêmios internacionais. "A decisão foi trazer o que há de melhor de Minas para Campo Grande. São produtos exclusivos e diferentes no mercado por causa da qualidade dos insumos com os quais são feitos."

 

Uma das iguarias que chama a atenção tanto dos mineiros quanto dos sul-mato-grossenses é o pastel de angu. Karina explica que o prato foi criado pelos escravos nas fazendas de Minas. A massa do pastel é feita com fubá, mais conhecida como angu e leva diversos recheios, doces e salgados.  

 

Karina Beltrão declara que realizou um sonho de infância. "Nós juntamos o que sabíamos, o que gostamos, fazemos tudo com muito carinho e decidimos trazer coisas especiais de Minas."

A Casa Beltrão fica na rua Cassilândia, 34. Jardim Autonomista.

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