Foi um curso técnico que apresentou a Jordan Cristaldo de Oliveira um mercado de trabalho que ele até então não conhecia. Engenheiro de Produção, aos 33 anos ele concluiu, em junho de 2024, a formação como técnico florestal pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar). Vieram depois as auditorias de qualidade, o acompanhamento do preparo do solo à colheita, o monitoramento de pragas e doenças e a experiência nas áreas florestais de Ribas do Rio Pardo.
Dois anos e meio depois de entrar no setor, Jordan trabalha diretamente na Bracell MS Florestal, em Nova Alvorada do Sul. “Foi ele que me apresentou esse universo e, por meio dele, consegui me inserir no mercado de trabalho, um mercado que está em constante crescimento aqui no Estado”, afirma, ao lembrar a importância do curso técnico para a trajetória profissional.
Histórias como a dele ajudam a dimensionar um dos desafios colocados diante do governo de Eduardo Riedel (Progressistas), candidato à reeleição: fazer com que a industrialização de Mato Grosso do Sul produza não apenas grandes fábricas, mas formação profissional, empregos duradouros e oportunidades para quem vive nos municípios que recebem esses investimentos.
Em poucos lugares essa transformação aparece de forma tão visível quanto em Ribas do Rio Pardo. No auge da construção da fábrica da Suzano, mais de 10 mil trabalhadores passaram pelo canteiro de obras. Com a unidade em operação desde julho de 2024, esse contingente temporário deu lugar a cerca de 3 mil pessoas nas atividades industriais, florestais e logísticas.
A mudança é particularmente significativa em uma cidade com população estimada em 24,1 mil habitantes. Em poucos anos, o crescimento alcançou o mercado de trabalho, os imóveis, o comércio, as escolas, a saúde, o trânsito e o planejamento urbano.
O emprego depois do canteiro de obra
Em 2025, a indústria registrou saldo de 1.120 novas vagas, quinto melhor resultado entre os municípios de Mato Grosso do Sul. Considerando toda a economia local, o saldo líquido foi de 875 empregos formais.
A diferença entre os dois números revela uma cidade em adaptação. Enquanto a indústria permanente continuou contratando, setores que haviam crescido para atender à presença extraordinária de milhares de trabalhadores da obra precisaram se ajustar. Hotéis, restaurantes, transportadoras, imóveis e prestadores de serviços passaram a operar em uma realidade diferente daquela do auge da construção.
Ao mesmo tempo, a cadeia industrial ganhou peso. Somente em 2025, a operação da Suzano movimentou R$ 2 bilhões em negócios com 503 empresas fornecedoras de serviços que vão de transporte e manutenção a alimentação, pavimentação, equipamentos e recursos humanos.
Uma cidade que precisou crescer junto
A chegada de milhares de trabalhadores pressionou o mercado imobiliário. Para acomodar empregados ligados à operação industrial, florestal e logística da Suzano, foram construídas 954 moradias. A iniciativa ajudou a organizar essa nova população, mas não solucionou a demanda habitacional das famílias sem vínculo com a empresa.
Em julho de 2025, Governo do Estado e prefeitura iniciaram a construção de outras 100 casas populares no Jardim das Acácias. O Estado assumiu 60% do investimento e o município, além de fornecer os terrenos, ficou responsável pelos 40% restantes.
São respostas para problemas diferentes: de um lado, a instalação dos trabalhadores diretamente associados ao empreendimento; de outro, a necessidade de evitar que o crescimento econômico torne a moradia ainda mais difícil para famílias de menor renda.
A pressão chegou também às escolas. O Governo Riedel anunciou uma nova unidade da Escola Estadual Maria Ramos, com 20 salas e capacidade para atender mais de 2 mil estudantes nos três turnos. A obra integra um pacote de investimentos próximo de R$ 50 milhões que inclui também habitação e a pavimentação de três quilômetros da MS-340.
Na saúde, o Hospital Municipal registrou 11.603 atendimentos entre maio e agosto de 2025. A unidade foi ampliada para receber novos leitos clínicos e de terapia intensiva e passou a integrar a rede estadual de atendimento em trauma ortopédico.
Para o governador, esses efeitos mostram por que uma política de atração de investimentos precisa avançar para além da fábrica.
“Os números mostram que crescimento econômico não reduz automaticamente a pressão sobre os serviços públicos. Empregos e investimentos atraem moradores, aumentam matrículas, movimentam o trânsito e ampliam a procura por atendimento médico”, afirma Riedel.
Formar moradores para as novas vagas
Se a primeira corrida de Ribas foi para receber a indústria, outra começou quando ficou evidente que parte das novas ocupações exigia conhecimentos técnicos que nem sempre estavam disponíveis entre os trabalhadores locais.
Até o fim de 2025, cerca de 3,3 mil pessoas haviam participado de ações de qualificação realizadas em parceria entre prefeitura e Senai. A meta estabelecida para 2026 era alcançar outros mil moradores.
Também está em construção o Centro Integrado Sesi Senai, um complexo de 6,1 mil metros quadrados dedicado à educação e à formação profissional.
A Casa do Trabalhador tornou-se um dos pontos de encontro entre essa demanda das empresas e a procura da população por uma vaga. Em 18 meses, a unidade realizou 25.501 atendimentos, promoveu 54 feirões de emprego e fez 6.107 encaminhamentos para vagas.
Segundo o diretor de Emprego e Renda do município e gestor da unidade, Carlos Roberto Dutra, o desempenho está ligado à aproximação entre poder público, trabalhadores e empresas.
Essa ponte tornou-se ainda mais necessária porque, atualmente, a Casa do Trabalhador oferece em média de 320 a 350 vagas por mês. Aproximadamente 90% delas estão relacionadas à cadeia da Suzano, além das oportunidades abertas diretamente pela indústria.
A procura por profissionais já ultrapassa, inclusive, os limites de Ribas. Empresas recorrem a trabalhadores de outros municípios para preencher postos que exigem formação específica. Entre as carências identificadas estão motoristas com habilitação nas categorias D e E.
Em parceria com a Funtrab, o Governo do Estado e o Senai, o município mantém ainda um contrato próximo de R$ 5 milhões para cursos profissionalizantes. Em 2025, 660 alunos concluíram capacitações, enquanto programas como o MS Qualifica formaram trabalhadores em áreas como mecânica agrícola e operações ligadas à cadeia da celulose.
O próximo passo será medir não apenas quantas pessoas entram nos cursos, mas quantas concluem a formação, conseguem emprego, em quais funções são contratadas e com que remuneração.
Infraestrutura para sustentar o crescimento
A estratégia estadual para Ribas passou, assim, a reunir áreas que antes poderiam parecer separadas: estrada, escola, hospital, habitação e formação profissional.
Além da participação nas 100 casas populares e na nova escola estadual, o Governo do Estado atua na pavimentação da MS-340, em intervenções de drenagem e no acesso ao polo industrial.
Em julho de 2025, Eduardo Riedel assinou a ordem de serviço para pavimentação e drenagem do acesso ao polo. O projeto, estimado em aproximadamente R$ 27 milhões, deve atender tanto às empresas instaladas na região quanto aos moradores que utilizam o trecho.
“A política industrial não termina no incentivo fiscal ou na atração da fábrica. Ela precisa alcançar logística, ordenamento urbano, qualificação, educação, saúde e moradia”, afirma o governador.
A lógica é tentar impedir que a expansão econômica deixe como legado apenas uma grande unidade industrial cercada por uma cidade incapaz de acompanhar o próprio crescimento.
O avanço não encerra a conta
Ribas do Rio Pardo tem hoje mais empregos industriais, uma cadeia de fornecedores em expansão e investimentos em moradia, educação, saúde, estradas e formação profissional.
Em março, prefeitura e Suzano apresentaram um plano de desenvolvimento voltado ao crescimento urbano ordenado, à geração de empregos, à qualificação, à infraestrutura e à educação. A etapa seguinte será transformar esse planejamento em metas e indicadores capazes de mostrar, ao longo dos próximos anos, quem está se beneficiando da nova economia e onde os problemas persistem.
Para Riedel, essa é a fronteira do próximo ciclo de desenvolvimento.
“Ribas do Rio Pardo já vive uma realidade diferente daquela anterior à indústria. A questão para os próximos anos é preservar emprego, renda e oportunidades sem carregar indefinidamente os efeitos mais difíceis do crescimento, como pressão imobiliária, falta de profissionais e sobrecarga dos serviços”, afirma.
Para trabalhadores como Jordan, essa transformação assume uma forma muito concreta: uma formação que abre uma porta, uma primeira oportunidade e uma profissão que passa a fazer parte do futuro.
“A silvicultura é um setor apaixonante. Quem entra para esse segmento acaba se encantando. Hoje não me vejo fazendo outra coisa”, diz.
É nesse encontro entre o investimento bilionário e trajetórias como a dele que Ribas do Rio Pardo terá de medir o sucesso de sua industrialização: não apenas pelo que sai das linhas de produção, mas pela capacidade de fazer a riqueza criada no município permanecer, circular e ampliar as oportunidades de quem vive nele.








