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há 1 hora

Ilustrador de MS vive em São Paulo e faz sucesso com sua 'Capivarinha Pantaneira' nas redes

Personagem nasceu de referência regional, mas aborda temas universais 

Cria do ilustrador e animador 2D José Filho, de 34 anos, a "Capivarinha Pantaneira" é uma personagem fofa e muito consciente que vem, dia após dia, conquistando o público nas redes sociais, contando atualmente com mais de 300 mil seguidores. O artista, que é nascido e criado em Ponta Porã, na região de fronteira com o Paraguai, atualmente mora em São Paulo e falou com a equipe do TopMídiaNews sobre seu trabalho, suas raízes e influências. 

Para começar, ter nascido na região de fronteira já é algo sui generis, quando se avalia a trajetória de José por determinada perspectiva. "Nasci em Ponta Porã, na fronteira com o Paraguai, e acho que crescer nesse contexto influencia bastante a forma como eu enxergo o mundo. Você cresce em contato com diferentes culturas, sotaques, costumes e referências, e isso acaba fazendo parte de quem você é, mesmo sem perceber", conta. 

Além de toda a diversidade fronteiriça, outras características de Mato Grosso do Sul aparecem em sua produção artística, como a relação com a natureza, a biodiversidade e a presença marcante do Pantanal são algumas das referências que contribuem com a personagem, que alcança e conquista públicos variados de todo o Brasil. Mato Grosso do Sul também tem uma relação muito forte com a natureza, com o Pantanal e com os animais, e tudo isso aparece de alguma forma no meu trabalho. A Capivarinha é um exemplo muito claro disso: ela nasce de uma referência regional, mas aborda sentimentos e situações que são universais", explica.

Para o ilustrador, a possibilidade de se inspirar em suas próprias origens e construir algo que tem capacidade de ultrapassar fronteiras é uma das características mais interessantes do projeto. 

Ideia que nasceu durante a pandemia

A Capivarinha Pantaneira "nasceu" durante a pandemia de Covid-19, quando José tentava expressar ideias e explorar possibilidades por meio do desenho. Acontece que ela ganhou vida de forma espontânea e sem a menor pretensão de ser algo que repercutisse tanto. 

Aos poucos, José percebeu que a personagem poderia ser algo além de fofa e simpática: a coisa evoluiu de forma a expressar sentimentos, relacionamentos, ansiedade, contradições do dia a dia, da vida, além de questões políticas e sociais, sem deixar de lado o humor, mas com aquela pitada de ironia. 

Conforme o público se identificava com as situações e emoções retratadas, o crescimento chegava, mais e mais. "O mais interessante foi perceber que as pessoas se reconheciam na personagem. Às vezes, uma ilustração simples conseguia traduzir algo que alguém estava sentindo, mas não sabia muito bem como expressar. Acho que foi essa identificação que fez a Capivarinha crescer", avalia.

Hoje, com mais de 300 mil seguidores, a personagem se consolidou como um universo criativo próprio, com possibilidades que vão além das publicações nas redes sociais.

Humor, sensibilidade e crítica social

José conta que as situações que retrata com a Capivarinha Pantaneira são inspiradas principalmente nas próprias vivências e nas coisas que observa no dia a dia, no mundo ao redor, incluindo nessa conta as contradições da sociedade e os absurdos do cotidiano. 

Entre os temas abordados, saúde emocional, amor, trabalho, política e capitalismo são tratados de forma acessível, mas, vez por outra, com certo tom de acidez, de forma que o leitor pare, pense e estabeleça uma reflexão. "Gosto muito de trabalhar com humor porque ele permite falar de assuntos delicados ou complexos sem necessariamente tornar tudo pesado", afirma.

O ilustrador também acredita no equilíbrio do que é cômico com a sensibilidade, posto que acredita que uma ilustração pode fazer rir, mas, ao mesmo tempo, reconhecer ali uma experiência pessoal. "No fundo, acho que o segredo é observar aquilo que é muito particular na nossa experiência e perceber que, muitas vezes, outras pessoas estão sentindo exatamente a mesma coisa."

De MS para o Brasil 

Nascida de referências ligadas a MS, a Capiravinha vem conquistando pessoas de diferentes estados brasileiros, o que denota que a identificação com o animal - associado à fauna pantaneira - ajuda na aproximação do público de uma personagem que também fala de sentimentos e de questões sociais que são comuns a realidades diferentes. Isso ocorre porque a personagem traz em si uma identidade regional e sua singularidade, mas fala de questões sociais que são plurais, independentemente de localidade. 

O artista afirma que também tem vontade de ampliar essa relação entre criação artística, natureza e identidade regional por meio de novos projetos. Entre as ideias está o desenvolvimento de Guardiões dos Biomas, iniciativa voltada à fauna e à flora brasileiras, com a proposta de aproximar crianças e adolescentes da natureza por meio de personagens e conteúdos criativos." Para mim, o mais importante é que essa identidade regional continue viva, sem impedir que a Capivarinha dialogue com o mundo."

A trajetória profissional de José Filho também passou por diferentes áreas. Ele estudou arquitetura, fez formação em moda e animação 2D e experimentou linguagens distintas até compreender melhor os caminhos que desejava seguir artisticamente.

Hoje, identifica-se como artista visual e diretor criativo - tendo colaborações, inclusive, com a Sony Pictures e com a cartunista Laerte, além de ter passado pelo Instituto Sou da Paz -, com uma produção que não se limita a uma única técnica ou formato. 

Segundo ele, um dos maiores desafios de transformar a paixão pelo desenho em profissão é compreender que viver de arte exige habilidades que vão além do domínio técnico. "Você também precisa aprender a se posicionar, construir uma identidade, se comunicar, negociar seu trabalho e encontrar maneiras de transformar sua produção criativa em renda."

A mudança para São Paulo trouxe novas possibilidades de trabalho e contato com outros profissionais, mas também exigiu adaptação a um ambiente competitivo e com alto custo de vida. Construir uma rede de contatos, lidar com a instabilidade financeira e encontrar espaço no mercado estão entre os desafios enfrentados pelo artista. "A Capivarinha abriu muitas portas, mas também tenho outros projetos autorais, trabalhos de ilustração e a tatuagem, que é outra linguagem importante na minha trajetória." Além disso, desenvolvo ideias que conectam arte, sustentabilidade, educação e cultura", explica. 

O objetivo é encontrar equilíbrio entre a liberdade criativa e a construção de uma carreira que seja sustentável, mas sem deixar de experimentar novas possibilidades. 

Viver de arte: "Antes feito do que perfeito"? 

Para os jovens artistas de MS que desejam transformar a criatividade em profissão, mas ainda têm dúvidas sobre as oportunidades disponíveis, José recomenda começar a mostrar o próprio trabalho sem esperar pelo momento perfeito, já que essa espera pode adiar projetos e oportunidades.

"Também acho importante entender que não existe um único caminho para viver de arte. Você pode trabalhar com ilustração, animação, design, tatuagem, moda, projetos culturais, educação ou criar seus próprios personagens e produtos. É possível transitar entre essas áreas e construir uma trajetória que tenha a ver com quem você é", afirma.

Para José, a internet pode ser uma grande aliada para profissionais que vivem fora dos grandes centros, possibilitando que eles encontrem meios de atingir públicos de outras regiões. "Mas, além de produzir e divulgar, é importante aprender a valorizar o próprio trabalho, construir relações, buscar editais e oportunidades e entender como transformar suas ideias em projetos viáveis."

José também ressalta que deixar a cidade de origem não é uma condição para que a produção artística tenha valor. Embora tenha se mudado para São Paulo, ele mantém MS como parte de sua identidade e de suas referências criativas.

"Eu vim de Mato Grosso do Sul e levo essa história comigo para onde vou. Minhas raízes fazem parte da minha identidade artística", afirma.

Aos artistas que estão começando, ele deixa uma mensagem de incentivo à experimentação e à construção de uma linguagem própria, mesmo diante das incertezas. "Meu conselho seria experimentar, ter curiosidade, construir uma linguagem própria e continuar criando, mesmo quando as coisas ainda não estão acontecendo na velocidade que você gostaria." Você não precisa ter toda a sua trajetória resolvida para dar o próximo passo", conclui.

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