Amigos, familiares e profissionais da imprensa se reuniram na tarde desta quinta-feira (12), em frente ao Fórum de Campo Grande, pedindo por justiça e esclarecimentos no caso de feminicídio da jornalista Vanessa Ricarte, morta pelo ex-companheiro Caio César Nascimento Pereira, no dia 12 de fevereiro de 2025.
O ato público foi realizado no dia em que o crime completa um ano, e pede urgência da Justiça na tramitação do processo. Vanessa atuava há 15 anos no jornalismo sul-mato-grossense e exercia a chefia da Assessoria de Comunicação do MPTMS (Ministério Público do Trabalho em Mato Grosso do Sul) quando o crime ocorreu. Ao longo de sua carreira, desempenhou importantes atividades na área, especialmente em órgãos vinculados à administração municipal de Campo Grande, além do Sebrae/MS e do Sicredi/MS.
O irmão da vítima, Walker Diógenes Ricarte, denuncia que a justiça é muito branda em casos de feminicídio, que é preciso penas maiores para que o crime fosse evitado, além de uma remodelação em estruturas da sociedade.
“Estamos olhando para os crimes em si, mas a esfera disso vai muito mais longe. Acredito que cabe uma análise hoje em todo o sistema da sociedade, nas escolas, nas comunidades, dentro das religiões. O que está acontecendo hoje, que estamos criando homens que se acham no direito de ser donos, de serem possessivos?”, questiona.
“Chamo a sociedade a se debruçar em tudo que envolve o feminicídio, na educação, todas as esfere precisam ser observadas, para que a gente possa elucidar isso e minimizar esses casos; zerar não conseguiremos”, complementa.
Durante a manifestação, foram levantados dados sobre as condições do jornalismo em Campo Grande: 51,3% dos profissionais jornalistas são mulheres e destas, 40% ja relataram ter sofrido algum tipo de violência (sexual, psicologica, fisica, moral); desse total 15,5% ja denunciaram o caso na polícia e 12,4% ja precisaram passar por atendimento na Deam (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher), entretanto ainda há casos subnotificados desses crimes.
O crime
No dia 12 de fevereiro do ano passado, data do crime, Vanessa buscou atendimento por duas vezes na Deam. Na primeira ocasião, relatou ameaças e a exposição indevida de imagens nas redes sociais, incluindo a divulgação de fotos íntimas, atribuídas ao réu.
No retorno à unidade, detalhou episódios de violência psicológica e informou ter sido mantida em cárcere privado, impedida por dias de manter contato com familiares e amigos. Mesmo após a concessão de medida protetiva, ao retornar à residência acompanhada de um amigo, a jornalista foi atacada pelo ex- companheiro. Socorrida e encaminhada à Santa Casa de Campo Grande, não resistiu aos ferimentos.
O assassinato de Vanessa Ricarte repercutiu amplamente na imprensa regional e nacional. No entanto, passados doze meses, o acusado ainda não foi submetido a julgamento. A morosidade no andamento do processo tem gerado indignação entre familiares, amigos e colegas de profissão, sobretudo diante de relatos sobre reiteradas situações de violência doméstica atribuídas ao réu.
“Essa mobilização é uma forma de homenagear nossa amiga, que completaria aniversário no dia 16 de fevereiro, e de pedir que a Justiça seja mais ágil em responsabilizar o culpado. Os pais e o irmão da Vanessa estão emocionalmente devastados, e nós, enquanto amigos dela, acompanhamos com impotência a lentidão do processo”, afirma Fabrício Bazé, amigo da jornalista.
Caio César Nascimento Pereira, ex-noivo e responsável pelo feminicídio da jornalista Vanessa Ricarte, passou por audiência no dia 9 de março de 2026, com a oitiva de uma vítima e o interrogatório do réu.
O processo está em andamento na 1ª Vara do Tribunal do Júri, conforme esclareceu o juiz titular, Carlos Alberto Garcete. Desde fevereiro de 2025, o processo teria passado por diversas etapas, previstas em lei, como apresentação de defesa, realização de audiências e análise de pedidos feitos pelas partes. Ao longo desse período, foram interpostos vários recursos, o que acabou prolongando a tramitação do processo.
Ainda conforme o juiz, por norma, processos de feminicídio têm tramitação mais rápida e recebem tratamento prioritário no Judiciário. "No entanto, este caso específico se tornou uma exceção, em razão do grande volume de recursos e incidentes processuais, que precisaram ser analisados tanto pelo juízo de primeiro grau quanto pelo Tribunal", disse Garcete em nota.








