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Campo Grande

03/04/2026 11:30

Mesmo com laudos, professora tem readaptação negada pela Semed: 'perícia da morte'

Sofrendo de crises de ansiedade e burnout, educadora teme voltar para a sala de aula

Uma professora de 49 anos, lotada em uma Emei (Escola Municipal de Educação Infantil) em Campo Grande, enfrenta um verdadeiro drama envolvendo a saúde mental dos educadores da Capital. Sem condições psicológicas para retornar à sala de aula, a professora teve o pedido de readaptação negado pela Semed (Secretaria Municipal de Educação). 

Funcionária da prefeitura há 20 anos, a professora, que preferiu não se identificar, relatou que passa por crises de ansiedade severa e burnout [um tipo de distúrbio emocional causado pela exaustão extrema] agravado pela pandemia, em que os educadores sofreram com uma pesada sobrecarga de trabalho. 

"Eu já consultei dois especialistas, que emitiram laudos claros recomendando afastamento de atividades em sala. Meu psicólogo acompanha semanalmente, mas a perícia ignora tudo isso e diz que eu 'posso trabalhar'. Como vou lidar com crianças de 2 a 5 anos nesse estado?", desabafou a docente.

A profissional já passou por dois psiquiatras e mantém acompanhamento contínuo com psicólogo há mais de um ano. Sem as condições necessárias para voltar a dar aulas, ela realizou pedido de readaptação funcional junto à Semed, porém foi negado pela perícia médica da pasta. Segundo ela, muitos professores estão tendo pedidos de readaptação negados, o que joga luz à crise que afeta a área educacional da prefeitura, em que a gestão obriga professores doentes a voltarem à sala de aula por falta de pessoal. 

Vítima de negligência

O caso da professora é semelhante ao da tragédia que tirou a vida do professor Tiago Bianchi, morte em março de 2023, após ter um pedido de afastamento médico por questões psicológicas negado pela rede municipal. 

Na época, o professor de artes havia pedido o afastamento das funções e já tinha passado pela perícia mais de uma vez no IMPCG (Instituto Municipal de Previdência de Campo Grande).

Em nota, a Semed informou que o professor não atendia aos “critérios técnicos” para a readaptação. Bianchi, também de Campo Grande, faleceu por complicações de saúde mental não atendidas, o que provocou protestos massivos e investigações. "Não queremos repetir aquela história. Ela precisa de apoio, não de burocracia", diz a professora. 

Dias depois da morte de Tiago, o secretário de Educação, Lucas Bitencourt, prometeu que a pasta estaria mais ‘atenta’ a casos envolvendo a saúde mental dos educadores, criando inclusive uma comissão para reforçar o atendimento à categoria. 

"Estamos buscando intensificar mais ainda esse apoio. Nós, da educação, vamos dar apoio emocional, criar um olhar diferenciado. Pastas serão unidas para atender melhor e acompanhar esses servidores para unir forças e buscar possíveis soluções", afirmou o secretário. Entretanto, a situação ainda não mudou, segundo os próprios educadores. 

"Saúde mental não é luxo!" e "Perícia falha, vidas em risco!" afirmou o advogado da família da professora, que já está em fase final de entrar judicialmente contra a perícia médica da prefeitura e pressiona por revisão do processo e critérios mais humanizados na perícia.

Especialistas em saúde mental alertam: casos como esse expõem falhas sistêmicas. "Laudos privados e públicos precisam dialogar melhor. Negar readaptação a quem já tem diagnóstico comprovado é colocar vidas em risco", opina o psicólogo da professora.

A reportagem entrou em contato com a Semed e aguarda retorno. O espaço segue aberto para futuras manifestações. 

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