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Campo Grande

Na Vila Nasser, moradores não deixam barracos temendo perder lotes

Ex-Cidade de Deus

28 março 2016 - 19h01Por Izabela Sanchez

Realocados em bairros da capital após o processo de reintegração de posse da Prefeitura Municipal na ocupação Cidade de Deus, os moradores tentam construir uma nova vida. Em meio a esperança de um lugar que eles chamam de “nosso”, e sobrevivendo às condições precárias enquanto as casas não ficam prontas, muitos são tratados com descaso pela administração municipal e reclamam da confusão que permeia o processo de “transferência” dos ocupantes da Cidade de Deus.

No Vespasiano Martins, um dos locais onde, agora, algumas famílias da Cidade de Deus vivem, o único sinal da presença da administração municipal é uma base improvisada da Guarda Civil Municipal, mostrando a vigilância sobre o local. Algumas famílias ganharam lonas da prefeitura, outras trouxeram os próprios materiais, e “reconstruíram” as antigas moradias.

Jaqueline lavava roupa nesta segunda-feira (28). Ela vive com o marido e os filhos no barraco, que agora incide em um terreno próprio. “Não é nada diferente do que vivíamos, pra falar a verdade as condições foram as mesmas”. Ainda assim, a moradora explica que “não tem como reclamar”, já que o local, para ela, é o símbolo de uma moradia cuja palavra “propriedade” sinaliza que ninguém irá tentar tirá-los de lá novamente.

As famílias esperam o processo lento, entre ajuda da administração municipal, e recursos próprios, que deverá culminar em casas com estrutura melhor. Durante esse tempo, ainda assim, as chuvas e intempéries deterioram o pouco que possuem.

Leni Santana tem 41 anos, morava na Cidade de Deus com o marido, que está viajando a trabalho. Todo o processo de transição ela fez sozinha, já que o companheiro está fora desde dezembro do último ano. Ela não reclama, e afirma que a família está feliz. A irmã, no entanto, ficou para trás, na Cidade de Deus, processo que têm acontecido com muitas famílias, que estão separadas, realocadas em locais distantes uns dos outros. “Felicidade completa é a hora que ela tiver o lugarzinho dela”, explica.

                          (Trabalho de bordado, feito por Leni / foto: Izabela Sanchez)

“Mas para onde ela for dou um jeito”, explica, contando que todos os moradores costumam deslocarem-se de bicicleta pela cidade. Leni é artesã, e faz trabalhos com bordados, que vende por encomendas e nas feiras na Vila Piratininga e na Vila Nhanha.


Medo de perder o terreno

Na Vila Nasser, outro ponto de transferência dos moradores da Cidade de Deus, há, para além da esperança, muitas queixas sobre o tratamento de representantes do executivo. Os moradores estão angustiados com a falta de clareza do processo. Explicam que muitos moradores antigos da Cidade de Deus, do início da ocupação, foram deixados para trás, enquanto outros “que moravam há apenas dois meses”, como explicaram, ganharam terrenos.

“O Bernal veio e falou que agora é que vai ver quem era realmente morador”, contou Natália Espíndola, que mora com a filha, se queixando da suposta pesquisa que a Emha (Agência Municipal de Habitação), alega ter feito antes de iniciar o processo de transferência.

                                                         (foto: Izabela Sanchez)

“A única coisa que deram foi lona e prego. O que a gente têm é material velho, que muitas vezes foi jogado de qualquer jeito e quebrou”, contou Natália.

A irmã de Natália, Natiele, também ganhou um terreno para viver com a filha. A mãe das duas, porém, foi deixada na Cidade de Deus, e elas alegam que não têm respostas quanto ao destino  da mãe. “Minha mãe foi uma das primeiras pessoas a ocuparem a Cidade de Deus e está lá até agora. Um vizinho que só morava há dois meses veio pra cá”, relatou Natiele.

“Tem uma mulher que vem aqui da prefeitura, que é super estúpida com a gente. Perguntamos as coisas e já vem com patadas”, afirmaram.

Carlos Henrique Nascimento, 24, é “vizinho” das irmãs. Também contou que o descaso é grande. Os moradores relataram que são “obrigados” a permanecerem todo o tempo no local. De acordo com eles, funcionários da prefeitura afirmam que se, ao chegarem no local, não encontrarem os moradores, estes perdem os terrenos”.

Já que as visitas são “surpresa”, muitos não saem para buscar emprego, temendo perder os terrenos. Na Vila Nasser, estão sobrevivendo com um “sacolão”, fornecido pela administração municipal. Enquanto permanecem nos barracos, também preferem construir as próprias estruturas, já que, segundo eles, os funcionários constroem de forma errada, e as lonas acabam voando, durante as chuvas e o vento.