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Professora em Campo Grande cita Bolsonaro em tema de redação e é massacrada nas redes sociais

Pais, alunos e até políticos entenderam que houve suposta doutrinação política; secretaria nega e profissional ganha apoio de colegas

03 outubro 2018 - 07h00Por Thiago de Souza

Redação sobre o movimento de mulheres, chamado ''Ele Não'', contrário ao candidato à presidência da República, Jair Bolsonaro (PSL), foi encarado por muitos usuários da internet como doutrinação política. Por esse motivo, a professora de uma escola estadual em Campo Grande virou alvo de questionamentos e até ofensas na rede social.

A atividade, segundo a Secretaria Estadual de Educação, ocorreu no dia 9 de setembro,  na Escola Estadual 11 de Outubro, no Jardim Bonança. Foi uma redação que teve como tema o movimento realizado no último sábado (29), onde mulheres foram às ruas em quase todo o país para criticar suposta postura machista e homofóbica do presidenciável.

Conforme a SED, a escola é de tempo integral, por isso reserva parte do tempo para preparar alunos para o Exame Nacional do Ensino Médio. A atividade propôs um texto dissertativo/argumentativo aos alunos sobre um assunto que tem grandes chances de ser tema da redação do exame neste ano.  

''Não foi doutrinação política, mas sim uma atividade prevista, que é de fazer a discussão de temas relevantes'', informou a comunicação da secretaria. No informe, o órgão ressalta que compreende que algumas pessoas possam encarar a atividade como questão político-partidária, já que o período é eleitoral.

Redação sobre atos contra Bolsonaro gerou polêmica no Facebook. (Foto: Reprodução Facebook)

No dia 26 de setembro, denúncia de parente de uma aluna do 1º ano do ensino médio chegou até membros do Movimento Brasil Livre MS. Na sequência, o caso foi publicado no Facebook, onde gerou polêmica.

Uma internauta postou: ''safada, Bolsonaro nela''. Outra seguiu na linha da ofensa: ''Essa comunista tem que ser punida''.

Um político local também criticou duramente a atitude da professora e, no post, prometeu investigar se os pais deram autorização para a escola fazer esse tipo de ''abordagem''. Depois de ter pego informações sobre a profissional, ele amenizou as críticas ao saber que a pessoa em questão é elogiada por diversos colegas.

Outros usuários da rede social se apressaram para recolher dados sobre a docente, como lugares em que ela trabalhou. Ela não terá o nome divulgado. Alguns prometeram denunciar o caso à escola e às autoridades, entre elas o Ministério Público Estadual, antes de ocorrer o primeiro turno das eleições.

No entanto, outros defenderam a professora e alertaram que a profissional não deveria ser exposta dessa maneira. ''...educação é feita com diálogo e não com truculência'', disse uma participante.   

''Sou colega de trabalho da professora [nome]. Trata-se de uma profissional exemplar, de conduta ilibada e sem envolvimento com questões políticas! Penso que a professora cometeu um erro ingênuo em propor uma dissertação com essa temática às vésperas do pleito presidencial, mas tenho convicção que não o fez tentando induzir ou doutrinar alunos!'', escreveu um suposto amigo de professora.

Mais críticas

Na visão de Lucas dos Santos, 20 anos, coordenador regional do MBL-MS, houve dois eventos no dia 29 de setembro: um contrário a Bolsonaro e outro a favor dele. No entanto, diz o estudante, a professora omitiu o segundo, o que denota militância política contra o candidato.

''Isso pode deixar a entender aos alunos que há apenas um lado em questão!'', destacou o dirigente, que acrescentou saber da importância dos professores na sociedade.

''Não concordamos é com professores que usam do seu público cativo para impor seus ideais políticos, religiosos e demais...sejam eles de esquerda, direita ou qualquer outro pensamento pessoal'', explicou Santos.

Outro ponto a ser destacado, diz Lucas, é o nítido engajamento da professora com o movimento #Ele Não.

''A professora em questão mistura seu [posicionamento] pessoal com o profissional, já que o face da mesma tem como tema da foto de perfil "Mulheres contra o Bolsonaro".

O MBL-MS informou que entrou em contato com a escola ao saber do caso e deve retornar a conversa nessa terça-feira (2).

Repúdio

A Paróquia da Inclusão, representante da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil no Mato Grosso do Sul, emitiu nota de repúdio contra o que chama de ''agressões verbais do MBL-MS contra a professora''.

No texto, a paróquia diz que a sala de aula ''é sim o melhor espaço para qualquer discussão política, pois, ali, o professor ou a professora tem a autoridade e a competência de promover a discussão de ideias e não de pessoas e nem de ideologias''.

Em outro trecho, a Paróquia da Inclusão diz que o movimento em MS seria a favor do conceito de ''família tradicional brasileira'', que em seu entendimento vê a mulher como objeto sujeita a todo tipo de subordinação e violência.

O MBL-MS classificou a nota como ''cômica e triste''.

A Secretaria de Educação informou que até o momento, a escola ou a secretaria, não receberam nenhuma queixa de pai de aluno ou qualquer outra pessoa. Quanto à professora, a SED disse que ela reportou incômodo ao se deparar com as críticas, mas que  o órgão dará todo suporte necessário para a realização de todas as atividades pedagógicas.