Foto: Marcos Maluf
Se no passado Mato Grosso do Sul foi estigmatizado por ser apenas um gigante agropecuário, hoje a indústria do Estado supera o estereótipo e assume a liderança nacional em sustentabilidade. Além de atrair multinacionais da celulose e energia, MS se destaca como a unidade federativa que mais transforma recicláveis em produtos, segundo a Central Brasileira de Custódia da Logística Reversa de Embalagens.
O método é simples, alguns até desacreditam, mas a modalidade de criar produtos com descarte é inovadora e promissora. Além de aquecer a economia, desenha um novo futuro para o planeta. Basicamente o sistema se utiliza dos descartes dos grandes geradores, que seriam levados ao lixo e os coloca, novamente, na cadeia produtiva, como por exemplo: garrafas plásticas, papelão, embalagens, alumínio, ferro e até estruturas metálicas.
Os bons exemplos não se limitam à Capital. No interior do Estado, gigantes como a Suzano reutilizam fibras de celulose para criar colares de proteção das mudas de eucalipto e os tubetes ecológicos. Em Campo Grande, Naviraí, Nova Andradina e Dourados as plantas da JBS foram responsáveis por reciclar 1,7 mil toneladas de plástico em 2024, transformando o descarte em novos produtos como sacos plásticos, lonas, paletes, resinas, telhas e pisos.
Números confirmam essa adesão por mais de 57,5 mil empresas cadastradas no Sisrev/MS (Sistema de Logística Reversa de Mato Grosso do Sul). Juntas, elas já reciclaram mais de 106 mil toneladas de embalagens nos últimos três anos. Levando em conta que uma pessoa produz em média 380 kg de lixo anualmente, para se ter uma ideia, esse número equivale ao volume reciclado de todo o resíduo anual da população de Dourados, a segunda maior cidade do Estado.
"Quanto mais as indústrias que colocam seus produtos em embalagens, no Estado do Mato Grosso do Sul, se cadastrarem no Sisrev/MS, maior é o volume de materiais recicláveis desviados de aterros sanitários, já que comprovadamente são enviados à reciclagem", pontua Thais Caramori, diretora de desenvolvimento do Imasul (Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul).
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Em entrevista exclusiva ao Top Mídia News, Alexandre Furlan Braz — presidente da Abelore (Associação Brasileira de Logística Reversa), confirma que o Estado tem se destacado graças à legislação que obriga os responsáveis a comprovar o retorno de, no mínimo, 22% das embalagens ao ciclo produtivo, conforme o Decreto 16.089/2023 e torna a prática obrigatória pela Lei Federal 12.305/2010.
“O trabalho de Mato Grosso do Sul é excelente. A legislação garante mais projetos e cooperativas, o que faz o sistema funcionar. Quem entrar em MS saberá que existe uma fiscalização. Isso tem impulsionado até os outros estados”, afirma Alexandre.

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Transformando lixo em valor
Foto: Marcos Maluf
Considerado como o maior vilão do meio ambiente, o plástico demora até mil anos para se decompor. Além disso, pesquisa publicada pela Revista Anais da Academia Brasileira de Ciência, realizada neste ano em Maceió (AL), identificou microplásticos em placentas e cordões umbilicais de bebês da capital alagoana. Felizmente, esse cenário de pesadelo está longe de chegar em Mato Grosso do Sul. Em Campo Grande, a empresa Berpram Ambiental mostra que a solução está na transformação, atendendo a 15 municípios e é uma das líderes de coleta no Estado.

Foto: reprodução-Berpram
"O plástico coletado em nossos clientes vêm para nossa empresa, onde passa por uma triagem e vai para o processamento de lavagem e moagem até transformar em granulado reciclado e vendido para outras indústrias de transformação. Com 80% da capacidade ativa, a Berpram processa cerca de 350 toneladas de plástico por mês — entre o de baixa e o de alta densidade", explica Fabrício Dourado Berton, diretor da Berpram Ambiental.
O escopo da Berpram não se limita ao plástico. Vidro e papelão também entram na corrente do bem. Os produtos chegam e são separados, lavados e tratados para dar origem a novos produtos. A produção responsável propicia novas oportunidades de negócio, amplia a geração de emprego e renda e se faz presente até na água utilizada no ciclo de produção, onde é 100% reaproveitada, evitando desperdício.
Quando o plástico renasce
Foto: Marcos Maluf
A jornada do lixo não para na Berpram. A poucos metros dali, a Porto Plast entra em cena para dar o ponto final nesse processo. É aqui que o plástico após o uso retorna ao ciclo produtivo ganhando novas formas e utilidades: sacos de lixo, mangueiras e até conduítes para a construção civil. Tudo isso, evita que se tornem lixo e impactem o meio ambiente.
“Ao reciclar, reduzimos a necessidade de extração de recursos naturais virgens, como petróleo, madeira e minerais, que causam impactos devastadores aos ecossistemas e criamos novas oportunidades de emprego e reduzimos custos de produção. Temos uma equipe de aproximadamente 60 colaboradores que são conscientes da importância do trabalho deles em relação ao meio ambiente”, destaca Juliano Berton, diretor da Porto Plast.

Foto: reprodução-Porto Plast
Estas empresas provam que a parceria em Mato Grosso do Sul é um exemplo de sustentabilidade, onde o que seria resíduo para uma, torna-se um insumo de valor para outra.
Clique no vídeo abaixo e confira o processo de transformação do plástico na Porto Plast e na Berpram
A Nova Revolução do Aço
Foto: Marcos Maluf
Quem também está na vanguarda da gestão consciente em Mato Grosso do Sul é a Aço e Aço. A empresa recolhe sucata de carros, motos, eletrodomésticos e peças metálicas de todas as cidades do Estado e a transforma em vergalhões estruturais para a construção civil. Além disso, atua diretamente na separação de efluentes, como óleos contaminantes e baterias veiculares, garantindo que sejam enviados às empresas especializadas para a reutilização.
Foto: Marcos Maluf
Vanessa Coin, neta de catadores, traz consigo a tradição familiar de reaproveitamento de materiais, mas com uma visão inovadora. Para ela, a reciclagem não é apenas uma questão ambiental; é uma oportunidade para fortalecer a economia local e gerar empregos dignos. Hoje, mais de 100 funcionários trabalham na Aço e Aço, muitos deles oriundos de comunidades vizinhas, e são envolvidos ativamente na conscientização sobre o valor do resíduo como insumo.
“Fico feliz em ver que até no interior do Estado a gente tem os catadores, que recolhem desde uma geladeira velha e trazem para nós ou vamos buscar até eles. Desta forma também estão colaborando, assim como fez o meu avô”, comemora.
O galpão, ao fundo da indústria, amontoa sucata de carros e peças metálicas adquiridas de Departamentos de Trânsito e delegacias de todo o Estado. Cada uma das partes passa por um processo de separação, cortes, trituração e são derretidos para futuramente serem usados em construções no formato de pregos e colunas. No entanto, Vanessa cita que o maior desafio segue sendo a conscientização.

Foto: Marcos Maluf
"Eu acho que o nosso Estado já está em um patamar muito bom, claro que ainda tem muito a ser feito, principalmente na conscientização de crianças. Elas educam os pais, educam os avós. O trabalho de base é onde fomentamos a cultura de que: você não tem lixo, você tem resíduo", completou.
Com sua atuação, a Aço e Aço contribui diretamente para o ODS 12 (Consumo e Produção Responsáveis), ajudando a reduzir a extração de matérias-primas virgens e contribuindo para a economia circular, onde os materiais são constantemente reciclados e reutilizados.
O Resíduo mais perigoso ganhando nova vida
Se a Aço e Aço constrói o futuro com o reaproveitamento de materiais sólidos, a Lwart Soluções Ambientais mostra que a sustentabilidade vai além. Em Mato Grosso do Sul, a empresa atua na logística reversa de um dos resíduos mais perigosos: o óleo lubrificante usado e contaminado.

Foto: reprodução-Lwart
Com uma unidade de coleta instalada na Capital, a jornada do óleo começa com a coleta em oficinas, postos e indústrias, e segue para a unidade de rerrefino. Com tecnologia de ponta, o resíduo é purificado e transformado em um novo óleo de alta qualidade. Esse processo, chamado de rerrefino, emite oito vezes menos CO² do que a queima ilegal do resíduo. Para se ter noção do impacto, apenas um litro de óleo usado pode poluir um milhão de litros de água, o equivalente ao consumo de uma pessoa por 14 anos.
Foto: reprodução-Lwart
"Nos orgulha o fato de termos alcançado, em 2024, recordes históricos em diversas áreas, como o volume de mais de 225 milhões de litros coletados, o atendimento a 3.714 municípios e um recorde mensal de produção de óleo básico GII, superando 16 milhões de litros em um único mês", comemora Thiago Trecenti, diretor-presidente da Lwart Soluções Ambientais. Levando em conta os 225 milhões de litros coletados é possível afirmar que somente no ano passado 225 trilhões de litros de água deixaram de ser poluídos.
A satisfação em cuidar de um bem que é de todos, o meio ambiente, também faz parte da rotina diária dos caminhoneiros que carregam os resíduos por mais de 3.700 municípios para serem entregues nas 19 filiais de coleta, dentre elas Campo Grande, conta Alessandro Aparecido de Assis, motorista coletor.
Foto: reprodução-Lwart
“Cada vez que faço uma coleta, sinto que estou cuidando do futuro, tirando algo que poderia poluir e colocando no caminho certo".
ESG na Prática: a Indústria que transforma seus colaboradores

Foto: reprodução-Real H
Em Campo Grande, a Real H, mesmo não tendo como matéria-prima a logística reversa, tem usado os próprios resíduos para fomentar atitudes sustentáveis entre os colaboradores, a fim de promover união, educação e bem-estar dentro e fora do ambiente de trabalho.
Os funcionários são convidados a atuarem como agentes de transformação trazendo o que seria descartado em suas próprias casas. Os 12 primeiros colocados no ranking recebem premiação em dinheiro e todos ganham itens de cesta básica como forma de incentivo. Os valores arrecadados com a venda dos produtos, além de pagar os prêmios, servem para uma espécie de fundo de emergência para os colaboradores, como pagamento de aluguel e medicamentos, além de ações sociais na comunidade.
“A adesão dos nossos funcionários neste programa, ou seja, o que o funcionário capta no ambiente familiar, tem resultado na destinação correta de cerca de 9 mil kg (9 toneladas) de resíduos por mês. Esse volume significativo é desviado da destinação comum e encaminhado para reciclagem”, explica o gerente industrial da Real H, João Paulo Anjos, que confirma que, neste ano, o Ciclos já investiu cerca de R$ 112 mil do valor arrecadado em benefícios aos colaboradores e projetos sociais.

Foto: reprodução Real H
As unidades de produção e distribuição do Ciclos contam com cerca de 220 pessoas e uma taxa de participação mensal próxima de 85% dos funcionários.
“Desde a implementação do programa Ciclos, temos orgulho de afirmar que não houve um único mês sem a participação ativa de nossos funcionários ou a destinação correta dos materiais. O Ciclos se tornou uma cultura arraigada em nossa organização, com a participação de todos, incluindo diretores e sócios da empresa”, explica João Paulo Anjos.
Com isso, o Grupo Real H está provando que a logística reversa vai muito além dos ganhos ambientais. A empresa se consolidou como a primeira em Mato Grosso do Sul a receber o selo ESG-FIEMS, após atender a 69 indicadores de boas práticas ambientais, sociais e de governança e terá seu programa Ciclos apresentado como um dos destaques na COP 30, em Belém.
Foto: reprodução-Fiems
Para o diretor de Sustentabilidade da Fiems (Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul), Robson Del Casale, tais exemplos mostram a força e o compromisso do setor industrial do Estado com causas globais que têm ido além das normas prescritas, adotando seus próprios modelos de gestão consciente e sempre explorando métodos inovadores, visando a sustentabilidade.
"Queremos que a indústria de MS possa ser referência a outros estados neste ponto, não só quando falamos na parte ambiental, mas também em governança organizacional e questões sociais", revela.
Os bons resultados chegam no momento de expansão da industrialização do Estado, em que empreendimentos de grande porte estão sendo conciliados com metas audaciosas, tais como a de ser Carbono Neutro até 2030. Segundo Artur Falcete, secretário-adjunto estadual de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Tecnologia e Inovação, essas novas empresas já estão sendo orientadas a cobrar dos seus fornecedores a logística reversa das embalagens dos insumos utilizados nos processos de produção.
Foto: reprodução- Semadesc
"Vale reforçar que nesse sentido ainda temos que avançar muito. Em produção de resíduos sólidos por habitante, MS é um dos maiores geradores do país. Além disso, as emissões de resíduos são nossa terceira maior fonte de emissões de gases de efeito estufa".
Visando solidificar o potencial crescimento das indústrias que estão no Estado e das que estão por vir, as empresas Aço e Aço, Berpram, Porto Plast e Real H abrem as portas semanalmente para estudantes e instituições, com a intenção de conscientizá-los de que a sustentabilidade deve seguir sendo a chave para o futuro do desenvolvimento de Mato Grosso do Sul. Ao mesmo tempo, alinha MS às metas internacionais da Agenda 2030 da ONU, especialmente o ODS 12 (Consumo e Produção Responsáveis), e o coloca como modelo para países que buscam crescimento econômico e ambiental.
Cases de sucesso do setor produtivo brasileiro
Recentemente, a Fiems tem liderado novos projetos de incentivo à redução de emissão de carbono, promovendo parcerias com empresas locais para aprimorar práticas como a logística reversa e o reaproveitamento de resíduos.

Foto: reprodução- Fiems
Na última semana, durante o evento "Pré-COP30: O Papel do Setor Privado na Agenda de Clima", realizado pela CNI em Brasília, o setor industrial de Mato Grosso do Sul foi novamente reconhecido em um contexto global. Três empresas de MS – dentre elas a Real H e PortoPlast – foram selecionadas para o SB COP Case Booklet, uma publicação que destaca soluções sustentáveis desenvolvidas pela indústria brasileira. Essas iniciativas serão registradas na COP30, consolidando o compromisso da indústria sul-mato-grossense com a sustentabilidade global.

Foto: reprodução-Fiems
“Esses projetos, incluindo um certificado ESG, serão registrados na COP30 como boas práticas, demonstrando o compromisso e as soluções concretas da indústria sul-mato-grossense para a sustentabilidade global. A participação da Fiems é estratégica para consolidar a preparação do Estado para futuras conferências climáticas”, afirmou o diretor de sustentabilidade da Fiems, Robson Del Casale.
Esses exemplos mostram que a verdadeira transformação começa quando a indústria adota o cuidado ambiental como um princípio estratégico, não apenas econômico, mas também social. Em Mato Grosso do Sul, sustentabilidade já não é futuro — é presente que inspira o mundo.







