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Entrevistas

'Acessibilidade em Campo Grande é quase inexistente', afirma especialista

20 maio 2016 - 13h52Por Amanda Amaral

Professora e gestora pública, Rosana Puga de Moreaes Martinez é natural do Rio de Janeiro, mas há 40 anos está em Mato Grosso do Sul e é um dos principais nomes na luta em favor da acessibilidade no Estado. Hoje, atua como diretora presidente da Sociedade Estadual em prol da Acessibilidade, Mobilidade Urbana e Qualidade de vida (SPA).


Para mostrar os problemas de acessibilidade, o TopMídiaNews percorreu Campo Grande, veja aqui.


Abaixo, você confere uma entrevista onde são pontuadas as principais questões que precisam avançar em Campo Grande e outros municípios do interior, para melhorar a qualidade de vida de milhares de pessoas que, muitas vezes, parecem ser 'invisíveis' aos olhos do poder público e da sociedade.


TopMídiaNews: Como começou sua história com a questão da acessibilidade?

Minha militância começou há mais de vinte anos, por conta das dificuldades que a gente encontrou após o nascimento do nosso filho, desde que ele era criança enfrentamos uma série de dificuldades nesse sentido. Especificamente na acessibilidade, começou há mais ou menos oito anos atrás, porque era amiga do Jari Castro, que na época estava a frente do CREA (Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura), onde á foi criado uma comissão especial de profissionais e interessados pela questão. Começou pequeno, seis ou sete pessoas, aí a coisa foi crescendo e agregando mais entidades.

Só que como o CREA é de classe, tínhamos algumas restrições que precisavam ser expandidas, então surgiu a ideia de se criar uma associação, uma ong.  Então nós optamos por essa sociedade em pro da acessibilidade, com profissionais da área da arquitetura  e engenharia e fisioterapia, psicologia, pessoas que tinham interesse em todas as dimensões da acessibilidade, não só a estrutural.

TopMídiaNews: Esse trabalho foi mais no sentido de cobrar que leis fossem cumpridas ou incentivar criação de outras?

A questão da cobrança é uma parte do nosso trabalho, a gente sempre busca primeiro um diálogo, mas não só isso. A gente promove cursos, em Campo Grande e no interior, auxiliamos outras sociedades carentes e até mesmo o poder púbico, que muitas vezes pede nossa ajuda para vistorias de projetos, produzimos cartilhas educativas e campanhas, além de inúmeras ações conjuntas.

Um exemplo legal de ação que nós fizemos há algum tempo junto com o Detran foi a ‘Multa Moral’, que qualquer pessoa que visse outra usando vagas de estacionamento de pessoa idosa ou deficiente poderia entrega-la ou colocar no painel do carro uma multa falsa, só pra lembrar. Essa campanha teve uma repercussão imensa, a informação realmente é a melhor saída. Tem que haver a punição, mas ela por si não muda tanta coisa, mas a informação é insubstituível. 

TopMídiaNews: Desde o começo de seu envolvimento com a causa, o que mudou tanto na mentalidade da população em geral quanto em políticas públicas?

Não vou dizer que não houve avanço, principalmente das entidades, mas ainda há muita coisa a ser feita. Por exemplo, grandes estabelecimentos, como shopping e supermercados, estão bem mais abertos a esse tipo de mudança, adequação. A iniciativa privada, inclusive, tem bem mais interesse que o poder público, que é quem deveria dar um jeito em muita coisa, já que são eles mesmos quem fazem as leis.

TopMídiaNews: A acessibilidade abrange quais pontos? 

Tratamos outras questões não diretamente, como o acesso ao mercado de trabalho. Dentro do conselho estadual, essa questão é muito presente, porque nós estamos atrasadíssimos na inclusão da pessoa com deficiência no mercado de trabalho. E em relação á saúde também, é difícil até enumerar a quantidade de problemas que temos, especialmente em relação a saúde da mulher. 

Quando você cruza as questões de deficiência com questões de gênero você pode ter uma ideia do quanto é difícil.  Se você pensar uma mulher carente, deficiente, negra e homossexual, quais as chances de acesso a seus direitos ela vai ter? As dificuldades são de toda ordem.

Faltam equipamentos especiais, o investimento público nesse sentido simplesmente não existe.

TopMídiaNews: Esses problemas que você cita evidentemente permanecem não por falta de demanda, então por que ainda não existe esse tipo de investimento?

Definitivamente. O poder público e as entidades existem, estão aí e até dialogam mais, mas há uma dificuldade em se colocar em prática uma série de questões. 

Temos legislação que não é bem aplicada, temos o estatudo da pessoa com deficiência, que é uma das nossas maiores conquistas. Recortes para campo grande são especialmente em relação á acessibilidade. Por exemplo, em Campo Grande nós não temos nenhum serviço de táxi adaptado, apesar de estar na lei que 10% da frota tem de atender o deficiente, assim como as empresas locadoras de veículos. Para ter um veículo desses particular, é caro, então sobram os ônibus, que sabemos bem a dificuldade que é. 

Então, dentro desse recorte, é determinada uma punição maior para quem não cumprir essas determinações, fiscalizada através de uma comissão especial. 

TopMídiaNews: As pessoas ainda sofrem até mesmo por sequer conhecerem seus direitos? 

Com certeza, e também lutamos para que esse acesso aumente. A informação chega a quem tem mais acesso, mas aquela ‘mãezinha’ que mora lá no bairro, que trabalha o dia todo, que não tem recurso e não teve escolaridade, não. Ela sequer sabe que tem esses auxílios gratuitos e, em até mesmo em locais como a Defensoria Pública, outro problema é que os serviços até existem, mas as próprias pessoas de lá são desinformadas, não conseguem orientar eficazmente. Isso é um trabalho de formiguinha que fazemos.

TopMídiaNews: Como Campo Grande está posicionado em comparação a outras Capitais? 

Nós temos um problema muito grande que é a falta de pavimentação, isso é grave. A prefeitura até tem um núcleo de acessibilidade, mas pense, não dá conta de aplicar em todas as escolas e prédios públicos. A mobilidade urbana, a acessibilidade, não é pontual e começa a partir de quando você sai da porta da sua casa, e é isso que falta na mentalidade do campo-grandense. 

Há uma falta enorme de padronização, apesar de existirem as determinações previstas em lei, por exemplo, nas calçadas. Ninguém quer gastar dinheiro para reformar e colocar lá o piso tátil certinho, acaba ficando cada uma de um jeito, toda a cidade irregular e feia. 

Mas é claro que há toda ordem de obstáculo, por falta de empenho e fiscalização mesmo, um coloca culpa no outro. As pessoas ainda se arriscam demais nas vias, até nas ruas mais movimentadas, de maior circulação.

TopMídiaNews: E como é feita, se é feita, essa fiscalização? 

Então, seria de responsabilidade da prefeitura, mas eu me questiono como é feita. A gente ouve do executivo sempre a mesma coisa, que a cidade é grande, não há pessoal suficiente para dar conta de fiscalizar tudo. Mas há de se ter um plano, chamar as concessionárias para participar desse trabalho, é só questão de organizar.

Apresentamos já diversas propostas, como a cobrança de taxas do morador para se investir nas calçadas, isso através de diversos estudos acima da questão. E há partes mais complicadas, mas 80% da cidade é possível de ser transformada. Somos a porta de entrada do Pantanal, uma capital, é referência. O aeroporto mesmo, já começa por ali, são inúmeras dificuldades em questões que pra tanta gente é simples, como entrar no avião. 

A acessibilidade é para todos, cerca de 24% da população mundial se beneficiaria dessas mudanças, é isso que tem que estar muito claro para as pessoas.

TopMídiaNews: Em MS há uma cidade referência em acessibilidade? 

Recentemente tivemos uma experiência legal em bonito. O centro da cidade é nota mil, as pessoas também tem uma atitude muito educada, há passarelas. O recurso é de uma cidade pequena, mas você observa que houve vontade política para fazer acontecer.

TopMídiaNews: Seu olhar frente a isso mudou, como disse, após presenciar esses desafios dentro da sua família. Como foi a sua mudança de percepção nesses anos? 

É um aprendizado constante. Desde que me envolvi com a causa, meu olhar se ampliou enormemente e não ficou restrito ao olhar de um tipo apenas de deficiência. Quando você milita na causa, você conhece outras pessoas, diversas histórias e detalhes mínimos, inúmeros. Apesar dos resultados dessa luta virem devagar, é muito gratificante porque é a plantação de uma semente, afinal.