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Camara Maio

Da quase perda do braço à chegada ao UFC, Giuliano Arantes conta a saga para sobreviver da luta

Campo-grandense começou esporte para superar obesidade, mas conseguiu títulos, conheceu ídolos e hoje mantém academia que atende projeto social

31 OUT 2016
Amanda Amaral
17h11min
Foto: André de Abreu

A luta na vida do lutador e professor Giuliano Arantes se entrelaça na profissão e nas barreiras que a vida impôs. Ainda que formado em Direito, o atleta campo-grandense sempre nutriu a paixão pelo esporte, que começou para escapar do bullying por ser uma criança acima do peso - indo até conta o gosto da família para buscar seu sonho de ser campeão no MMA (artes marciais misturadas) - e, nesse caminho, enfrentou desafios como viver fora do Estado e quase perder o braço após se ferir em um campeonato. 

Em entrevista ao TopMídiaNews, Giuliano, também conhecido como 'Alemão' conta sobre a carreira, a participação no reality show The Ultimate Fighter (TUF), no Brasil, The Ultimate Fighter Brasil: Em Busca de Campeões, onde treinou com grandes ídolos, como Anderson Silva, e a rotina que leva hoje de volta à Campo Grande, na academia que idealizou para formar novos atletas e onde é atendido um projeto social para crianças carentes. Confira abaixo:

TopMídiaNews: Como começou a sua história na luta?

Comecei a praticar a luta quando eu tinha a idade dessa gurizada da academia, 11 ou 12 anos, e ai posteriormente passei a treinar jiu jitsu e boxe. Primeiramente, o objetivo era emagrecer, quando eu era guri eu era bem gordinho. Eu também apanhava muito no colégio, queria aprender autodefesa e melhorar a autoestima. Aí, quando eu tinha 15 ou 16 anos conheci o jiu jitsu e o boxe, sempre em Campo Grande, mas não consegui perder peso. Só consegui emagrecer com 17 ou 18 anos mais ou menos, mais de 40 quilos.

Muay thai também pratiquei e com 23 anos eu entrei no MMA e não parei mais, comecei a lutar profissionalmente. Comecei a levar a sério com 17 ou 18 anos, treinando pra competição, mais pesado. fui lutando em vários estados, Paraná, São Paulo, lutei em Rondônia também. Já rodei o Brasil lutando, e em 2013 consegui entrar no reality show The Ultimate Fighter, onde acabei perdendo na fase eliminatória.

TopMídiaNews: Como foi a entrada no reality? Já existia essa febre pelas lutas do UFC?

Eu já lutava, tinha um card legal em um site que é requisito para eventos maiores, aí consegui, fiz inscrição e me chamaram para os testes. Isso foi final de 2013, quando eu fui morar no Rio, por conta do treinamento, aqui era mais fraco, então precisava ir pra lá. A febre começou porque a galera investia muito na mídia, né, isso reverte em dinheiro. No Rio e em São Paulo já fazia mais tempo, aqui que ainda está começando. Aqui é maisforte mesmo o judô, outros esportes, é difícil treinar.

No programa, eu perdi na primeira luta, que passa na televisão, para o cara que foi finalista. Fiquei morando no Rio dois meses, mas após o programa recebi convite pra ir trabalhar lá, o pessoal gostou e um dia recebi uma ligação me chamando, no projeto social que eu morava. É uma das maiores equipes hoje de MMA, chamada Xgym, e treinei com grandes, como Anderson Silva, Eric Silva, Ronaldo Jacaré, Rodrigo Damm. Como eles viram que eu tinha disposição grande, comecei ajudar a fazer o camp de alguns atletas do UFC e fiquei no Rio dois anos no total.

TopMídiaNews: Como era sua vida durante esse tempo? Que lições conseguiu tirar?

A rotina do atleta é muito pesada, ainda mais no Brasil que não temos quase nenhum incentivo. Fica muito sobrecarregado, você acaba dependendo da ajuda da família, e a minha mesmo não gosta muito, me ajudaram algumas vezes porque insisti nesse sonho. Mas o atleta fica restrito, não tem muito a vida social, é difícil arrumar uma namorada que aceite, que a família dela entenda, graças a deus minha namorada respeita bastante. Mas é uma rotina pesada de muito preconceito. Às vezes a gente sai daqui e perguntam ‘o que você faz?’ e, mesmo eu respondendo, a pessoa repete a pergunta.

Lá no Rio mesmo eu acordava, demorava duas horas só de ida pra chegar no meu local de treinamento, de ônibus. Aí eu treinava das dez às 14h, saía do treinamento técnico e ia pra aeróbica. O dia todo, com intervalos pequenos. Eu morava num projeto no Morro do João, vizinho ao Morro dos Macacos. E aí a gente ajudava crianças e treinava lá.

TopMídiaNews: Quais foram os rumos da sua carreira após esse período?

Depois disso, ainda por lá, lutei algumas vezes. Um dia, fui fazer uma luta fora e, no treinamento, quebrei o nariz, pela segunda vez, já que antes já tinha quebrado durante um camp do Eric Silva. Fui lutar do mesmo jeito, acabei perdendo de forma controversa e perdendo meus patrocínios que me ajudavam a bancar no Rio. Foi aí que procurei ajuda do Estado, mas nada.

Acabei voltando para Campo Grande, mas percebi que vários amigos meus estavam desestimulados na luta. Já estou por aqui há um ano e dez meses, levando a academia que montei com um amigo. Hoje recebemos até um projeto social com crianças, sem ajuda de ninguém. Minha rotina ainda é totalmente dedicada à luta.

TopMídiaNews: Apesar da dificuldade, o que mantinha e mantém sua motivação??

Às vezes você até tem a oportunidade de fazer outra coisa, mas é o que eu gosto. Você fica querendo repetir aquele dia. Sou formado em direito, exerci durante dois anos depois da faculdade, mas eu odiava o que eu fazia. Minha família foi muito contra eu largar a carreira mais formal, minha mãe sempre foi contra. Meu pai foi atleta, ralou demais, ele era jogador profissional de futebol, sabe a rotina, mas ainda assim dentro de mim parecia certo.

TopMídiaNews: Há muito preconceito contra o atleta, vindo de gente que confunde luta com violência?

Muito. Tanto é que quando você chega em uma roda de amigos, quer conversar sobre alguma situação, mas o pessoal quer saber de briga. Eu não gosto de falar sobre isso, prefiro sair. MMA é esporte violento, visualmente, então envolve muito esse pensamento de briga. Muitas vezes colocam na mídia, uma situação em que um cara agrediu alguém, que essa pessoa fazia luta. Mas não é lutador, é apenas praticante, porque quem vive da luta, tem uma rotina, não tem esse pensamento e nem essa rotina de festa e bebida, não dá pra ter exageros.

Não existe essa vida social como muitos pensam. Lutador aqui é meio que obrigado a dar aula para se manter.

TopMídiaNews: Nas paredes da academia, há fotos onde você aparece com o braço ferido, como uma lembrança de motivação aos alunos. O que aconteceu?

Pois é, isso aí foi em Rondônia, me machuquei  durante uma luta e não dei a atenção que devia. No final de 2011, tive ruptura total, me examinaram lá em porto velho e identificaram que eu teria que fazer uma cirurgia, mas como meu plano de saúde era de MS, voltei. Chegando na Santa Casa, fui atendido por um plantonista, que disse que aquilo tinha sido só uma pancada, me deu um remédio e me liberou. O remédio era bem forte e maquiou a dor, mas depois de três ou quatro dias aquilo voltou com tudo. Acordei um dia muito mal e fui de novo para o hospital, quando fui atendido por outro médico.

Fizeram exames e eu tive que fazer uma cirurgia de urgência, pois eu tive uma ruptura séria, onde se formou um coágulo, uma infecção, tive 70% de chances de perder o braço. Depois disso até fiz uma tatuagem. Os médicos falavam que eu poderia não mexer os braços de novo normalmente, mas quatro meses depois eu já fui lutar em Assunção, ganhei um cinturão.

TopMídiaNews: O que guarda de mais memorável da sua carreira, até então?

Pra mim é acordar e dormir sabendo que faço o que gosto. É cansativo, mas não para o psicológico. Não é rentável, é difícil ter uma vida de ganhar muito dinheiro, muita gente ainda estuda e tenta uma vida melhor, mas dá pra se manter. O que fica são as amizades, as vezes que morei fora, o prazer de dar aula e passar isso pra criançada, isso muda a gente.

TopMídiaNews: Como funciona o projeto social na academia?

Dar aula sempre foi meu sonho, mas não tenho o dom e a paciência para lidar com crianças, porém, tem quem tenha e são eles que colocam tudo pra funcionar, na verdade. Começou comigo e o Pelézinho, que chegou há quatro meses e me propôs dar aula social para crianças, ele abraçou totalmente. Foi aí que surgiu uma parceria com o Projeto Lutando Pelo Bem, que é tocado na academia também.

As mães das crianças fazem a inscrição de quem não pode pagar, tudo sai do nosso bolso, mas ainda estamos começando e temos muito a conquistar. Vamos atender 50 crianças, nas terças e quintas, de manhã e a tarde, com aulas de jiu jitsu, a maioria ainda não tem kimono. Fizemos uma galinhada para arrecadar, mas conseguimos comprar só dez, precisamos de mais, não temos patrocínio. 

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