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Especialista em agronegócios, Marcos Fava Neves traça panorama do setor

Agronegócio em foco

7 MAR 2014
Aline Oliveira
09h45min

O entrevistado desta semana no site Topmídia News é Marcos Fava Neves, professor titular da FEA/USP em Ribeirão Preto (SP). Com formação de engenheiro agrônomo, o profissional possui mestrado, doutorado e pós-doutorado nas áreas de administração, marketing e planejamento estratégico.

 

Neves é uma das maiores personalidades científicas no setor de agronegócios e foi o criador do Centro de Projetos e Pesquisa em Marketing e Estratégia, em funcionamento desde 2004, com objetivo de realizar projetos, consultorias, publicações científicas e empresariais, no intuito de contribuir na melhor gestão e planejamento do agro.

 

TOPMÍDIA NEWS: Professor pode nos fazer um breve relato de sua experiência profissional?

 

MARCOS FAVA NEVES: Terminei minha graduação na ESALQ em 1991, um ano de grandes acontecimentos no cenário brasileiro. O país estava desorganizado, com inflação galopante, presidente em vias de receber Impeachment e com um ambiente econômico deteriorado. Como gosto de escrever e pesquisar tive a oportunidade de fazer o mestrado na FEA em São Paulo, em administração. Em seguida fiz o Doutorado na mesma instituição e em parte na Holanda. Depois segui a carreira acadêmica, contratado pela FEA-RP desde 1995, fiz Livre-Docência em Planejamento Estratégico e consegui aos 40 anos chegar a professor titular na USP, instituição que amo e sou muito grato, tentando retribuir tudo o que dela recebi.

 

TOPMÍDIA NEWS: Entre os vários projetos que o senhor vem desenvolvendo dentro e fora da Academia, há o Markestrat que completa este ano uma década de existência. Como surgiu a ideia de criá-lo? Quais os objetivos?


MARCOS FAVA NEVES: É um centro de projetos e Pesquisas em Marketing e Estratégia, focado no agronegócio. Começamos em 2004 e a ideia foi de criar em Ribeirão Preto uma organização que pudesse congregar alunos, professores, pesquisadores e consultores, nos moldes de um “think tank”. O objetivo foi viabilizar a criação de projetos, consultorias, publicações científicas e empresariais na tentativa de contribuir na melhor gestão e planejamento do agro.

 

Hoje somos em 14 sócios, sendo 10 doutores e quatro mestres e boa parte recebeu alguma contribuição minha em algum momento (orientados de mestrado ou doutorado), e que querem ser donos de uma organização e não empregados. Somado à nossa equipe de pesquisa, boa parte pós-graduandos e graduandos da FEARP, UNESP, ESALQ e os que são 100% consultores, são 50 pessoas respirando juntas, num ambiente integrado onde todos se beneficiam desta convivência para fazer ensino, pesquisa e extensão. Entre os Doutores sócios temos professores da FEA-RP, FZEA/USP, FGV e INSPER.

 

TOPMÍDIA NEWS: Quais os aspectos mais importantes que precisam ser considerados sobre o agronegócio brasileiro neste início de ano?


MARCOS FAVA NEVES: O agro exportou em janeiro de 2014, US$ 5,87 bilhões, o que representou uma queda de 10,8% no mesmo período do ano passado. Com importações de US$ 1,46 bilhão, o saldo foi 14% menor com US$ 4,41 bilhões. Podemos dizer que foi um início de ano complicado e somando-se as perdas com a inesperada seca de janeiro teremos bastante trabalho, mas podemos chegar aos US$ 100 bilhões em exportações em 2014.

 

Outro ponto que deve ser observado é a crise na Ucrânia e o impacto no mercado de grãos. Qualquer problema mais longo entre a Rússia e Ucrânia trará como reflexo o aumento de preços nos produtos, impactando positivamente ao exportador brasileiro. Na contrapartida, pode ocorrer uma elevação no preço do petróleo, refletindo negativamente na Petrobras em sua área de abastecimento. Se houver ainda retaliação dos Estados Unidos e da União Européia à Rússia, isto pode beneficiar as exportações do Brasil, principalmente para grãos e carnes.

 

O fato é que teremos um ano muito interessante, onde a safra é menor, o consumo de etanol é sensivelmente maior e o açúcar pode ainda dar uma virada de aumento de preços. Será interessante acompanhar. Teremos também eleições, e ampla oportunidade para discutir os problemas deste setor que é o carregador do Brasil, o transportador do Brasil e apresentar a agenda aos candidatos, que pelo que já vi, estão namorando o agronegócio e o setor de cana, e terão que ouvir e se comprometer. Acredito fortemente que 2014 possa ser o ano da nossa virada definitiva, tanto do país, quanto do setor de cana e lutarei fortemente por isto.

 

TOPMÍDIA NEWS: Recentemente o senhor veio a MS, participar da Showtec em Maracaju. Na ocasião traçou um panorama sobre potenciais compradores da produção agropecuária brasileira que são países asiáticos e africanos. Como avalia o crescimento das exportações brasileiras?

 

MARCOS FAVA NEVES: Entre os compradores, foi a China que desbancou a União Europeia e passa a ser o maior consumidor da nossa comida. Chega já a quase 23% das nossas exportações do agro, e só tende a crescer. Vale dizer que a China comprou do Brasil US$ 23 bilhões só em comida.

 

Se olharmos o Brasil como uma grande empresa que compete no mundo, nossa sociedade não vai bem. Estamos caindo diversas posições nos principais rankings mundiais de competitividade. O rombo das transações correntes (balança comercial, serviços e transferências) em 2013 atingiu US$ 81 bilhões, 50% a mais que em 2012, sendo o maior desde 2001. O investimento estrangeiro direto no Brasil caiu para 2,88% do PIB. É a primeira vez que este percentual cai desde 2009. Nosso superávit primário foi o menor desde 2002 (1,9% do PIB).

 

Nossa deteriorada balança comercial fechou o ano com saldo de pouco mais de US$ 2,5 bilhões, o pior resultado desde 2000. O Governo só não jogou o país para déficit na balança devido à criativa operação de se exportar as plataformas de petróleo que nunca deixaram o Brasil. Só isto gerou US$ 7,7 bilhões em “exportações”.

 

TOPMÍDIA NEWS: O agronegócio brasileiro é considerado o setor que sustenta a economia brasileira. Pode nos citar os momentos mais importantes e quais culturas foram responsáveis por este crescimento?

 

MARCOS FAVA NEVES: As cadeias produtivas do agronegócio em 2013 seguiram fortemente no seu caminho de carregar o nosso país, produzir e gerar renda, empregar para distribuir renda e contribuir com a economia brasileira. O valor bruto da produção do agro brasileiro chegou a R$ 470 bilhões, 11,3% maior que em 2012. Deste total, 66,5% referem-se a agricultura o os 33,5% à pecuária. Renda gerada que moveu inúmeros outros setores econômicos do que chamo de Brasil-Chinês, o Brasil do agro.

 

O triste é que nossa logística continua devagar. Segundo Editorial do Estado de São Paulo de 13 de janeiro, poucos projetos do Governo conseguiram sair do papel, e a safra 2013/2014 sofrerá dos mesmos problemas da anterior. A sofrível gestão do pesado e complexo Estado e a decorrente explosão do gasto público deixou nosso Governo sem margem para reduzir sua fúria arrecadatória (impostos) e para investir mais no que o país precisa, que é a questão da educação, da saúde e da infra-estrutura. Nada indica que reformas serão feitas, resta torcer por mais privatizações, como as que aconteceram recentemente em infraestrutura.

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