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Geral

Deputado quer fora das escolas livro que fala de um menino que tem amigo imaginário

Obra é da premiadíssima Ana Maria Machado e é usada em programa de alfabetização

27 setembro 2018 - 14h52Por Celso Bejarano

Despertada na sessão de ontem, quarta-feira (26), pelo deputado estadual Paulo Siufi (MDB) a polêmica acerca do livro “O menino que espiava para dentro”, da escritora Ana Maria Machado, distribuído na rede pública de ensino, em escolas de Mato Grosso do Sul, já havia gerado neste mês debates em outros estados, como Recife (PE) e Rio de Janeiro e ainda pelas redes sociais. Para o parlamentar, a obra literária seria uma apologia ao suicídio.

Siufi disse que vai provocar o MPE (Ministério Público Estadual) e a ideia é tirar os livros das salas de aula. 

A assessoria de imprensa da Secretaria Estadual da Educação já se manifestou sobre a polêmica. Informou que a escolha do livro em questão é uma determinação nacional, do Ministério da Educação e Cultura e é parte do Programa Nacional de Alfabetização na Idade Certa,

Para justificar sua intenção, o deputado levou para a Assembleia Legislativa o livro e exibiu um trecho da obra, que diz:    

"Como as compras só chegaram quando ele estava no colégio, ainda teve que esperar a volta, o jantar e a hora da sobremesa. Quase não aguentava mais. Ai também resolveu que o melhor era deixar para engasgar com a maçã na hora de deitar, quando estivesse sozinho. E que a família dele era tão desligada dessas coisas que era até capaz de alguém dar um tapa nas costas dele só para desengasgar, e aí estragava o plano todo”.

Na interpretação do deputado, o fato de o garoto engasgar com a maça seria um indício da prática do suicídio.

A OBRA

O livro em questão foi publicado em 1983, 35 anos atrás e a autora é premiada, respeitada e integrante da Academia Brasileira de Letras. 

E o episódio envolvendo a maça é narrado numa passagem com Lucas, o principal da história, que pensa em engasgar e, com isso, acessar um mundo de imaginação.

O blog “Página Cinco”, produzido por Rodrigo Casarin, tratou do assunto duas semanas atrás. Veja parte do texto acerca do assunto.

“Achar que "O Menino que Espiava Pra Dentro" faz apologia ao suicídio de crianças por conta da cena da maçã seria o mesmo estapafúrdio de acusar as histórias do Superman de incentivar que pequenos se atirem da janela pensando que, por ter um lençol no pescoço e uma cueca sobre a calça, podem voar. 

Além disso, ao longo de toda a narrativa fica claro que ele fala sobre o valor da imaginação, mas também sobre o quanto a nossa própria realidade pode ser boa e surpreendente. Lucas não morde a maçã para dar cabo de sua vida, apenas quer passar mais tempo no mundo de sua cabeça. E é o que acontece, mas não porque fica entre a vida e a morte. 

Ele simplesmente dorme logo após comer a fruta, como mostra a sequência provavelmente ignorada por parte significativa daqueles que se queixam de Ana Maria No desdobramento, após a página que é alvo das queixas, o garoto está no mundo lúdico e onírico, proporcionado pelos seus belos sonhos, que são atrapalhados por uma mãe que, tal qual uma princesa, o desperta porque já deu o horário e há coisas boas o aguardando no mundo real”, conclui Casarin.

O LIVRO

Publicado por resumos.netsaber.com.br, saiba mais sobre "O menino que espiava para dentro", de Ana Maria Machado, publicado pela Global Editora.

Lucas é um menino atento: olha para as formigas, a chuva, o desenho no rótulo da geléia. 

Debaixo da mesa ele espia para dentro e vive como se estivesse numa cabana no meio da floresta. Balança na rede da varanda espia para dentro e enfrenta as ondas do mar agitado num veleiro em ilhas desertas onde encontra piratas, tudo com muita emoção. 

Se no domingo de manhã vai para a cama dos pais e se enfia debaixo das cobertas, espia para dentro e já está no fundo do mar com os peixes, as algas e as grutas procurando tesouros. 

“Se na réstea do sol da janela ele estica a mão no meio da poeira dançarina, e espia para dentro... viaja numa nave espacial pelas galáxias desconhecidas do espaço infinito, em meio a chuvas de meteoros e bombardeios de brilho”.(Ana Maria Machado pg.9) 

Lucas tinha um amigo que morava com ele quando espiava para dentro.O amigo vinha devagar, Lucas deu para ele o nome de Tá lento e um dia achou graça no nome corrigiu Tá Manco e acabou chamando-o de Tatá.

Conversou com seu amigo dizendo que queria espiar para dentro sempre, como a Bela Adormecida, porque no dentro ele fazia tudo que queria. Tatá respondeu que para sempre era demais. 

Quem olhasse para fora veria um menino cercado de borboletas, lavadeiras e outros insetos pelo meio das flores, olhando para dentro eles estavam num lindo bosque com fadas, elfos, duendes e gnomos. 

Tatá continuou argumentando que na casa de Lucas não tinha roca para espetar o dedo num fuso e dormir cem anos como nas histórias. 

Lucas descobriu que comendo uma maçã, ele poderia engasgar-se com ela e assim dormiria por muitos anos até que alguém lhe desse um beijo e quebrasse o encanto. 

E assim fez, esperou a hora de dormir para que ninguém tentasse desengasgar com um tapa nas costas e poderia atrapalhar seus planos. Deu uma mordida, engasgou com um pedaço e espiou para dentro. 

“Viu tantos lugares, nadou tantos mares, voou pelos ares. Viu cavalos e castelos, viu bosques de caramelos, viu piratas e palhaços, viu vaqueiros e laços, viu automóveis-leões, viu parques de diversões, viu carrossel de dragões. Depois andou sobre as ondas, mergulhou fundo na terra, morou em conchas redondas, brotou no alto da serra. Viu flor voar feito borboleta, viu cachoeira cair pro alto, viu vaga-lume fazer careta, viu chão de som no lugar de asfalto. Viu panela que não se esvazia, viu criança que não se machuca, viu tambor que só traz alegria, viu olhar que derrete arapuca”.(Ana Maria Machado pg.19) 

E o mundo lá fora sumiu. Até que ficou tudo escuro e de repente um beijo, um abraço, os olhos se abrindo. Sua mãe ao seu lado disse: 

_ Acorde, está na hora de ir para a escola, chega de tanto sonhar.

Ele foi reconhecendo seu quarto e um resto de maçã caído do lado de fora do travesseiro. 

Sua mãe foi logo contando que tinha uma surpresa que Lucas ia adorar. 

Era um lindo cachorro e a mãe chamou-o de novo para ir para a excursão com a escola. Ele saiu correndo para encontrar com os amigos e explorar as cavernas do mundo lá fora. 

”Olhar bem para tudo, viver de verdade, para o mundo de dentro ter mais variedade” (Ana Maria Machado, pg.23). 

A mãe perguntou como ia chamar o cachorro e ele respondeu: 

_Tamanco ou Talento, mas pode ser Tatá.