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Nome de Paulo Corrêa aparece 9 vezes em investigação do Gaeco sobre fraude de R$ 27 mi
Presidente da Alems entre 2019 e 2022, deputado é mencionado por outros investigados da Operação Gutenberg como um dos parlamentares que teriam interferido junto a municípios para viabilizar falcatrua
O deputado estadual Paulo Corrêa (PL) é citado nove vezes em um relatório de inteligência do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) que integra o inquérito da Operação Gutenberg, realizada no dia 7 de julho, sobre fraude de R$ 27 milhões em contratos de livros paradidáticos com prefeituras de Mato Grosso do Sul.
Segundo o documento, obtido pela reportagem, interlocutores do esquema tratavam Corrêa como um dos deputados capazes de abrir portas em municípios para a venda dos materiais da Editora Avante. Ele não consta como investigado no processo.
O nome do deputado aparece no relatório que reúne a análise de mensagens de WhatsApp trocadas majoritariamente entre Ed Carlo Britto Burgatt, então coordenador estadual de Regulação Assistencial da Secretaria de Estado de Saúde (SES/MS) e um dos presos na operação, e Gabriel Taquino de Paula, advogado apontado como “vendedor” da Editora Avante.
O Ministério Público, em citação nos autos, registrou que as menções a agentes com foro por prerrogativa de função, caso dos deputados estaduais, ainda não reúnem elementos suficientes para justificar a abertura de investigação formal contra eles.
REGISTROS
Segundo a narrativa do relatório, em 23 de maio de 2022 Ed Carlos avisa Gabriel Taquino que uma pessoa identificada nas conversas apenas como "Julio", apontada como assessor dos deputados Paulo Corrêa e do deputado Jamilson Name (PP), entraria em contato para tratar de municípios que os dois teriam "e Junior não", em referência a possível contrato com a prefeitura de Bonito (MS). Junior seria o ex-prefeito de Fátima do Sul e assessor de Jamilson, Júnior Vasconcelos.
Uma semana depois, em 30 de maio de 2022, o relatório do Gaeco descreve nova conversa: "conversam sobre a interferência que os deputados Paulo Corrêa e Jamilson estariam fazendo junto a alguns municípios visando auxiliar os interlocutores Ed Carlos e Gabriel Taquino em contratos com as cidades", registra o documento.
Já em 2023, o deputado volta a ser citado em uma sequência de mensagens sobre a busca de apoio político para fechar contratos com prefeituras. O relatório resume: "em vários dias de 2023 conversam sobre buscar o apoio de Deputados Estaduais, citando Jamilson, Paulo Corrêa e Mara Caseiro, fins de efetivar contratação com vários municípios para Editora Avante". Nas conversas privadas, Gabriel Taquino escreve, em 2 de março de 2023: "marca com Paulo Corrêa, para nos ajudar a fazer dinheiro". Em 3 de março, ele insiste: "Vamos no paulo Corrêa preto, a hora é agora", ao que Ed Carlos responde que iria "marcar com ele".
Em 20 de abril e em 10 de maio de 2023, o nome do deputado volta a aparecer em mensagens como "vou pedir ajuda para o paulo Corrêa" e "alinha com o paulo Corrêa", esta última associada a municípios como Miranda, Angélica, Sidrolândia e Deodápolis.
Nenhum valor em dinheiro é atribuído nominalmente a Paulo Corrêa nos trechos do relatório revisados pela reportagem, diferença em relação a outro deputado citado no mesmo documento, Jamilson Name, a quem os interlocutores associam percentuais e um pagamento específico de R$ 52.217,75.
PRERROGATIVA
A menção a parlamentares nas conversas teve consequência direta na tramitação do processo. Em pedido de 5 de agosto de 2025, quatro promotores de Justiça do Gaeco, Moisés Casarotto, Tiago Di Giulio Freire, Antenor Ferreira de Rezende Neto e Gerson Eduardo de Araújo, determinaram que fossem adotadas "as providências para protocolizar nos autos do PIC judicial pedido de declínio de competência para o Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul", justificando a medida porque o relatório "revelou agora, no curso da investigação, indícios do envolvimento de agentes públicos com foro por prerrogativa de função nos crimes investigados, notadamente Deputados Estaduais e Prefeitos".
O pedido foi levado à 2ª Vara Criminal de Campo Grande, então responsável pelo processo. Em decisão datada de 7 de agosto de 2025, o juiz Deyvis Ecco acolheu o parecer do Ministério Público e determinou o envio de todo o processo ao Tribunal de Justiça de MS: "Diante do exposto, acolhendo o parecer ministerial (f. 462/488) e, com fundamento no artigo 29, inciso X, da Constituição Federal, bem como no artigo 114, inciso II, alínea 'a', da Constituição do Estado de Mato Grosso do Sul, decline da competência para processar e julgar os fatos apurados neste Procedimento Investigatório Criminal, determinando a remessa do feito ao Tribunal de Justiça do Estado de Mato Grosso do Sul", registrou o magistrado, citando o dispositivo constitucional que atribui ao Tribunal de Justiça a competência para julgar deputados estaduais e prefeitos.
A legislação diz que qualquer indício, não prova, apenas indício, envolvendo autoridade com foro privilegiado obriga o encaminhamento do caso ao tribunal competente, sob pena de nulidade dos atos seguintes.
O Ministério Público, em manifestação posterior já remetida à Procuradoria-Geral de Justiça, reconheceu que as citações aos parlamentares "ainda não reúnem elementos suficientes" para justificar a abertura de um procedimento investigatório específico contra eles no Tribunal de Justiça, sendo necessário prosseguir a apuração em primeira instância quanto aos demais investigados sem foro.
QUEM É
Paulo José Araújo Corrêa, de 68 anos, é engenheiro civil e está em seu oitavo mandato consecutivo como deputado estadual em Mato Grosso do Sul. Eleito pela primeira vez em 1994 (assumiu a cadeira em 1997), já passou por PFL, PTB, PL, PR, PSDB e PL. Nas eleições de 2022 foi reeleito com 49.184 votos, com registros em todos os 79 municípios do estado.
Antes de ingressar na Assembleia Legislativa, foi secretário de Estado de Habitação e Desenvolvimento Urbano no governo Pedro Pedrossian.
Em fevereiro de 2019, foi eleito presidente da Assembleia Legislativa, cargo que ocupou por dois biênios seguidos, entre 2019 e 2022, período que engloba justamente as primeiras conversas registradas pelo Gaeco, de maio de 2022. Atualmente ocupa a 1ª Secretaria da Mesa Diretora da ALEMS.