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Política

Ex-braço direito de Odilon diz que juiz inventou apreensão de bens e manipulou escutas

Jedeão foi o braço direito de Odilon durante 22 anos na 3ª Vara Federal de Campo Grande; Odilon nega acusações

29 agosto 2018 - 08h12Por Diana Christie

Investigado pelo desvio de mais de R$ 10 milhões da 3ª Vara Federal de Campo Grande, capitaneada pelo então juiz federal Odilon de Oliveira (PDT), o bacharel em direito Jedeão de Oliveira, 49 anos, alega que o ex-chefe inventava apreensão de bens para aparecer bem na imprensa, manipulava escutas para facilitar o uso de gravações ilegais e até supervalorizava as supostas ameaças que recebeu durante a carreira.

Segundo Jedeão, algumas das ameaças recebidas por Odilon, que, inclusive, inspirou o filme ‘Em Nome da Lei’, com Mateus Solano, são reais, mas outras, superdimensionadas, para garantir a aura de magistrado implacável e inimigo dos criminosos. Imagem esta que agora é explorada À exaustão na campanha política para governador de Mato Grosso do Sul.

Jedeão foi o braço direito de Odilon durante 22 anos e as declarações ocorreram à Folha de S. Paulo com base em documento registrado em cartório no interior paulista. Morando em Cuiabá, no vizinho Mato Grosso, ele atendeu à equipe do portal nacional e ratificou as acusações, que são avaliadas pelo Ministério Público Federal em pedido de acordo de delação premiada.

O ex-diretor diz ainda que o juiz costumava autorizar interceptações de telefonemas sem especificar quais os números seriam grampeadas ou a descrição detalhada do objetivo de cada gravação o que abria espaço para “barrigas de aluguel”, ou seja, provas obtidas de forma ilegal.

“A decisão ficava genérica, em aberto. Não aparecia números, só tinha a ordem: ‘Proceda a escuta’ -não lembro os termos exatos, mas nesse sentido- ‘dos telefones apresentados no anexo da Polícia Federal’. E assim ia o ofício para a operadora. Então no ofício não tinha os números [integrais]. E citava o anexo. E dessa forma ficava em aberto para escuta clandestina através daquilo que a gente conhece como ‘barriga de aluguel’”, relatou à Folha de S. Paulo.

Jedeão ainda acusa de inflar números para a mídia, para mostrar que é grande combatente da corrpução. “É algo assim como necessidade. A ponto de ele ter que, de repente, inventar coisas para estar na mídia. Por exemplo, inflar ou aumentar o número de bens apreendidos na vara para dizer que ele era o cara que tinha bilhões de valores apreendidos graças ao trabalho contra o crime organizado”.

Citando alguns casos, Jideão fala que Odilon apreendeu 18 documentos de aviões e declarou à imprensa que foram 18 aeronaves apreendidas. O mesmo ocorria com hectares de terras, entre outros objetos. Os dados inflados, segundo o ex-diretor, não mudavam em nada no processo e não batiam com os relatórios criados por órgãos nacionais de controle, mas tudo era regularizado antes de fiscalizações do CNJ (Conselho Nacional de Justiça).

O ex-braço direito de Odilon destaca que o juiz mantinha processos guardados em um cofre para mostrar em casos de eventuais fiscalizações e nega que esteja usando esses depoimentos com caráter político, já que Odilon está em meio à campanha. “O processo que respondo na 5ª vara da Justiça Federal de Campo Grande é que me trouxe até esse ponto. Eu estou completamente alheio à questão política, quais são os interesses dessa pessoa [juiz] politicamente. A minha preocupação é a minha integridade, a da minha família, e a minha defesa no processo da 5ª vara”.

Outro lado

Para a Folha de S. Paulo, Odilon de Oliveira negou irregularidades na concessão de interceptações telefônicas quando juiz federal em Campo Grande e disse que as acusações do ex-diretor da 3ª Vara Federal, Jedeão de Oliveira, “têm fundo político”. “Os ofícios para interceptação são encaminhados com a relação. No teor do ofício, já consta a relação. É então humanamente impossível, mesmo porque as empresas de telefonia não fazem monitoramento sem que no ofício conste a relação dos telefones.”

Ele também negou ter inflado dados de balanços de apreensões divulgados à imprensa, mas admitiu diferenças entre os dados que constam da base nacional de bens apreendidos do CNJ e “a realidade processual”. "Muitas vezes não bate com o que está apreendido no Brasil, em qualquer vara. Porque muitas vezes o juiz não alimenta, quer dizer, a Justiça não alimenta aquele cadastro nacional no tempo certo. Muitas vezes não tem condições técnicas de alimentar, pois é um cadastro muito falho. Os bens constantes do cadastro nacional nunca conferem com a realidade processual.”

O juiz enfatiza que processos de monitoramento telefônico eram guardados no cofre de sua sala porque "são ultrassigilosos". E, sobre a escolta da PF, Odilon disse que nenhum policial se recusou a fazer o trabalho. "Os agentes, todos eles, nunca se recusaram a prestar serviço. E todos os deslocamentos meus são registrados em livros de ocorrência. [...] Isso é simplesmente conversa de pessoas que querem vingança, querem se vingar porque eu fiz a apuração."

Odilon disse, por fim, que o ex-diretor "enganou o juiz da vara, enganou a corregedoria" e por isso as 13 correições feitas pelo TRF (Tribunal Regional Federal) da 3ª Região não teriam localizado as irregularidades na vara. "Ele quer jogar lama no ventilador para atingir qualquer pessoa e afastar dele qualquer possibilidade [de investigação]."

Em nota, a Superintendência da PF em Mato Grosso do Sul afirmou que "em todas as suas investigações, atua dentro da mais estrita legalidade. Todas as representações e diligências são objeto de controles rígidos, seja internamente (por meio das Corregedorias), seja em âmbito externo pelos órgãos de controle".