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Política

há 47 minutos

SUS na mira? Plano de Flávio não diz se saúde entra no corte de gastos

Dados do Ministério da Saúde mostram que gasto federal com oncologia ficou estagnado em termos reais sob Bolsonaro e cresceu 14% sob Lula; equipe econômica do candidato do PL promete ajuste de 1,5% do PIB sem detalhar onde

O SUS (Sistema Único de Saúde) deu início ao tratamento de 283.963 pessoas diagnosticadas com câncer em 2023, o maior número da série histórica do Painel-Oncologia, base do Ministério da Saúde que cruza registros ambulatoriais, hospitalares e do sistema de rastreamento. O volume é 4,3% superior ao de 2022 (272.337) e 10% maior que o de 2019 (257.042), primeiro ano do governo Jair Bolsonaro (PL).

Os números foram extraídos pela reportagem das bases abertas do Datasus, o Painel-Oncologia, o SIA (Sistema de Informações Ambulatoriais) e o SIH (Sistema de Informações Hospitalares) e dos relatórios de execução orçamentária da União depositados no Siconfi, do Tesouro Nacional. Os valores foram corrigidos pelo IPCA para preços de 2025.

O levantamento mostra duas fases distintas. Entre 2019 e 2022, o gasto federal com quimioterapia e radioterapia ficou praticamente parado em termos reais, em torno de R$ 3,5 bilhões por ano, enquanto o número de autorizações mensais de quimioterapia crescia 14%, ou seja, mais pacientes atendidos com o mesmo dinheiro corrigido. De 2022 a 2025, o valor subiu para R$ 3,9 bilhões (alta real de 14%), e as autorizações de quimioterapia avançaram 25%, para 4,8 milhões no ano.

As cirurgias oncológicas registradas no SIH seguiram trajetória parecida: média de 152 mil internações por ano no governo Bolsonaro e de 195 mil por ano entre 2023 e 2025, quando o total chegou a 212 mil, recorde da série iniciada em 2018.

Pandemia

O efeito da Covid-19 aparece com clareza nos dados de pessoas. Em 2020, o SUS diagnosticou 357.822 casos de neoplasia maligna, 32,8 mil a menos que em 2019, e iniciou tratamento de 239.787 pacientes, 17,3 mil a menos que no ano anterior. Em 2021, o número de tratados voltou ao patamar de 2019, sem compensar a lacuna. As cirurgias oncológicas ficaram cerca de 34 mil abaixo do nível de 2019 nos dois anos da pandemia.

A Lei 12.732, de 2012, determina que o tratamento comece em até 60 dias após o diagnóstico. Entre os pacientes que iniciaram tratamento no SUS, a proporção que cumpriu o prazo oscilou entre 54% e 58% de 2018 a 2023, sem melhora consistente em nenhum dos dois governos. Entre os casos com estadiamento informado, cerca de 55% foram diagnosticados nos estádios 3 e 4, os mais avançados, também sem variação relevante no período.

O painel registra ainda entre 130 mil e 148 mil pessoas por ano, desde 2019, com diagnóstico de câncer e sem nenhum tratamento registrado no SUS, cerca de um terço dos casos. O grupo inclui quem tratou na rede privada, quem recebeu terapias não capturadas pelos códigos do sistema, óbitos precoces e falhas de registro. O salto dessa categoria, de 6 mil em 2017 para 134 mil em 2019, coincide com a incorporação do Siscan (Sistema de Informação do Câncer) como fonte do painel.

Orçamento

No conjunto da função saúde, o gasto federal empenhado passou de R$ 172,9 bilhões em 2018 para R$ 173,8 bilhões em 2019 e R$ 175,7 bilhões em 2022, sempre a preços de 2025, uma estagnação de quatro anos interrompida apenas pelos créditos extraordinários da pandemia, que elevaram a despesa a R$ 221 bilhões em 2020 e R$ 226,3 bilhões em 2021. 

Em 2025, o valor chegou a R$ 238,6 bilhões, alta real de 36% sobre 2022.

A estagnação do período Bolsonaro está ligada à Emenda Constitucional 95, aprovada em 2016 no governo Michel Temer (MDB), que congelou o piso da saúde no valor de 2017 corrigido pela inflação. Francisco Funcia, consultor do Conselho Nacional de Saúde, calculou que a regra deixou a pasta com R$ 20,2 bilhões a menos em 2019 do que receberia pelo critério anterior, de 15% da receita corrente líquida. O economista Áquilas Mendes, da USP, estima diferença acumulada de R$ 70,4 bilhões entre 2018 e 2022.

Em agosto de 2022, o governo Bolsonaro enviou ao Congresso proposta orçamentária para 2023 com corte de 42% nas despesas discricionárias da saúde e redução de 59% no programa Farmácia Popular. A equipe de transição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) estimou em R$ 22,7 bilhões a recomposição necessária, obtida com a chamada PEC da Transição. O arcabouço fiscal de 2023 restabeleceu o piso de 15% da receita.

Estudo do Ieps (Instituto de Estudos para Políticas de Saúde) aponta que quase metade da expansão do orçamento do SUS a partir de 2023 foi absorvida por emendas parlamentares.

Flávio

O candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, promete um ajuste fiscal que sua coordenadora econômica, Daniella Marques, dimensionou em 1,5% do PIB, cerca de R$ 195 bilhões, por meio de uma PEC que revisaria o arcabouço fiscal e criaria uma trava para a relação entre dívida e PIB.

Em entrevista à Folha em 26 de agosto, Marques disse que o detalhamento dos cortes caberia ao Congresso. "Eu não sou a Mãe Dináh", afirmou. Em seminário do grupo Esfera, em 14 de setembro, declarou que a campanha assumiu "o compromisso de não alterar os programas sociais" e que o corte se concentraria em "privilégios, tanto na estrutura da máquina pública quanto em benefícios tributários". Disse também que o governo argentino de Javier Milei servirá de "inspiração".

Em nenhuma das manifestações públicas da equipe econômica há menção à saúde, ao SUS ou ao piso constitucional. A cartilha divulgada em agosto propõe extinguir ao menos dez ministérios e não estima a economia resultante.

Em 25 de setembro, a CNN Brasil atribuiu a interlocutores do candidato a intenção de aprovar uma "PEC da Transição" com corte de R$ 300 bilhões e desvinculação das receitas de saúde e educação. A campanha desautorizou a reportagem e disse que apenas Marques e o economista Adolfo Sachsida falam sobre o tema. Os R$ 300 bilhões equivalem a 2,3% do PIB, acima do 1,5% citado pela coordenadora.

A própria aritmética apresentada por Marques explica por que a hipótese circula. Segundo ela, "94% do Orçamento está carimbado". Com Previdência, salário mínimo e programas sociais fora da mesa, o espaço restante de despesas discricionárias é da mesma ordem do corte prometido e saúde e educação são as duas maiores vinculações constitucionais.

Se a desvinculação ocorresse e o corte fosse distribuído na proporção de cada área na despesa, a saúde federal, que responde por cerca de 10% do gasto primário, perderia algo em torno de R$ 20 bilhões no primeiro ano no cenário de 1,5% do PIB, ou R$ 31 bilhões no cenário de R$ 300 bilhões. Mantido o piso, o corte obrigatório na saúde seria zero. Esse exercício é uma simulação da reportagem, não uma proposta da campanha.

Na Argentina, o Ministério da Saúde reduziu o orçamento do Instituto Nacional do Câncer em 37% em termos nominais em 2024, ano em que a inflação superou 100%, segundo o Observatório de Saúde da Universidade Isalud. Em maio de 2026, o governo Milei cortou outros 63 bilhões de pesos da pasta, incluindo 5 bilhões do programa de prevenção e tratamento do câncer, segundo o jornal Ámbito.

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