Solurbe - corrida do meio ambiente 18/04 a 08/05
(67) 99826-0686
Reviva centro

Após 5 hérnias, André Brasil valoriza treinos com Cielo e vê Rio como marco

Heptacampeão nos Jogos, nadador que já foi considerado inelegível ao esporte se compara ao vinho aos 32 e se inspira no filho na última Paralimpíada 'com resultado'

31 AGO 2016
Globo Esporte
09h06min
Foto: Marcio Rodrigues

Heptacampeão paralímpico e dono de 21 medalhas em Mundiais, André Brasil se prepara para o bloco mais duro do ciclo: a Paralimpíada do Rio, de 7 e 18 de setembro. Após uma longa preparação, incluindo treinos ao lado de Cesar Cielo nos Estados Unidos, o nadador que precisou provar ser paralímpico é uma das esperanças em busca da meta de levar o Brasil ao top 5 no quadro geral de medalhas nos Jogos. Apesar de considerar o trabalho mais demorado devido à idade e do cuidado maior por conta de cinco hérnias de disco, o nadador de 32 anos vê a experiência como diferencial e se compara ao vinho: quanto mais envelhecido, melhor. 

Se antes, André era um jovem que queria mudar o mundo, hoje, ele percebe que o mundo se transforma em casa. Pai de Leonardo, de três anos, o carioca se vê mais preocupado com o futuro do que com o presente. Nascido no Méier e criado no Grajaú, bairros da Zona Norte do Rio de Janeiro, ele vive com a família em São Paulo e concilia o trabalho no Brasil e no exterior.

Atual campeão paralimpico nos 50m, 100m livre e 100m borboleta pela classe S10, o carioca disputará outras cinco provas no Estádio Aquático da Rio 2016. E terá o filho pela primeira vez nas arquibancadas como amuleto em busca de mais medalhas no país que leva o seu nome. Nas duas últimas edições dos Jogos, o nadador venceu 10, sendo sete de ouro. 

- Estou agora no bloco mais difícil. É diferente de quando eu comecei, há oito, dez anos... Me vejo como um bom vinho, um pouco mais apurado, mais consciente das coisas que precisam ser feitas, e muito mais preocupado com o futuro do que com o agora. Eu sei que a gente tem muita coisa a fazer. Longe de mim querer encerrar a minha carreira, mas esta será a minha última com resultados. Quero participar em 2020 (em Tóquio, no Japão). Quero que o meu filho entenda o que o papai fez. Mas eu acho que o André de hoje é muito mais preocupado com o futuro. Quando eu era jovem, eu queria mudar o mundo. Hoje, eu sei que o mundo começa a ser mudado dentro de casa. E esse é o André - afirmou o nadador, vencedor de nove medalhas de ouro e três de prata no Mundial de Glasgow e no Parapan de Toronto, ambos em 2015. 

O atleta, que teve paralisia infantil e passou por sete cirurgias para evitar o uso da cadeira de rodas, foi considerado inelegível para as disputas paralímpicas pouco depois de quebrar o recorde mundial nos 50m livre, em 2005. A sua perna esquerda, escondida atrás na calça quando criança, é 5 cm mais curta do que a direita (calça 45 em um pé, e 36 no outro). André, que aos dois meses de vida foi diagnosticado com paralisia infantil devido a uma reação à vacina, lutou e conseguiu provar a todos a sua deficiência e que ali era o seu lugar. 

- Hoje, tenho que ter uma atenção redobrada à minha saúde, alimentação e preparar o corpo e a mente. Já bolamos algumas estratégias. O que eu espero do André para os Jogos, é que eu possa produzir o que eu melhor produzir, ser o melhor possível naquele momento. Se for para lutar por medalha, sangue, raça e força vocês vão ver - completou o nadador do Pinheiros (SP). 

Com duas Paralimpíadas (Pequim 2008 e Londres 2012), três Mundiais (Durban, Eindhoven e Montreal) e três Parapans (Rio 2007, Guadalajara 2011 e Toronto 2015), ele ostenta em sua coleção 31 medalhas de ouro, nove de prata e três de bronze. No ano pré-olímpico, André tinha como principais objetivos ir ao Mundial de Glasgow, na Escócia, onde ele subiu cinco vezes ao pódio (três ouros e duas pratas) e o Parapan de Toronto, no Canadá, disputa na qual ele sagrou-se campeão nas sete provas que disputou. 

Como parte da preparação para a Rio 2016, a sua última Paralimpíada "com resultados", André apostou no intercâmbio. Valorizou o aprendizado ao lado de Cesar Cielo, no primeiro semestre, ou, como ele prefere dizer, o primeiro bloco de trabalho. O nadador ainda voltou outras vezes aos Estados Unidos para treinar.

- No primeiro bloco, fiquei treinando um tempo com o Cesar. Aprendi coisas diferentes, deu bastante certo e a gente quer voltar. Eu ainda estou no meu modo diferente. As pessoas conhecem o André com a cabeça raspada, e eu ainda estou vivendo o meu ritual. Disputei competições este ano de barba, cabelo grande, peludo, sem me raspar, e os resultados têm acontecido. Longe das melhores marcas, mas muito próximo do que esperamos nos Jogos. Tudo conspira para que seja uma coisa maravilhosa. 

O carioca passou a infância em hospitais, sendo submetido a sete cirurgias até os oito anos, além de terapias experimentais, fisioterapia e muita natação. Aos sete anos, começou a competir profissionalmente. Desde 1992, praticava diversos esportes no Botafogo, incluindo também futsal, taekwondo e basquete, mas foi nas piscinas que ele descobriu a sua verdadeira vocação. 

André entrou na natação paralímpica em 2005, depois de acompanhar os Jogos de Atenas, em 2004, encantado com nadadores como Clodoaldo Silva e Gustavo Borges, que se aposentou depois dos Jogos Olímpicos. Convocado para a seleção brasileira, tornou-se um dos principais nadadores do país, dono de seis recordes mundiais e inúmeros títulos. 

Mesmo com a rotina ocupada por treinos e viagens, o carioca valoriza cada momento ao lado do filho. É uma forma de se sentir leve e encontrar a felicidade em um piscar de olhos. Mas não dispensaria uma batata frita ou um hambúrguer com o pequeno em um dia de folga, afinal, estas são "experiências únicas, que não voltam atrás e é preciso vivenciá-las". 

O amadurecimento o levou a ter atenção redobrada à saúde e à alimentação, além de outros cuidados para evitar lesões, como um maior tempo de aquecimento. 

- Enquanto a molecada entra direto na água para treinar, eu fico de 15 a 20 minutos aquecendo o meu corpo para poder entrar. Enquanto eles ficam uma hora na musculação, eu faço 1h30, 2h... Preciso cuidar muito mais do meu corpo. As privações vão desde um pequeno chocolate, que eu amo, até muitas vezes me privar, infelizmente, da felicidade de estar com o meu filho para fazer acontecer o que eu quero nos Jogos. É preciso ter um equilíbrio entre a felicidade e o saber se doar para esse momento que vai ser extremamente importante (Paralimpíada). A magia é buscar a felicidade todos os dias. Longe de mim dizer que sou feliz o tempo inteiro, todo mundo tem os seus problemas. Mas eu acho que quando o dia está ruim e você busca o melhor, as coisas podem sair diferentes. É buscar o melhor, somando, para alcançar o melhor resultado. 

O carioca viu com bons olhos a meta de levar o Brasil ao top 5 no quadro geral de medalhas nos Jogos do Rio 2016, planejada pelo Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB).

- A meta do quinto lugar foi uma honraria. Primeiro, porque a gente vive de sonhos, e segundo, porque temos que lutar para conquistá-los. Não vai ser fácil. Eu até dizia há pouco tempo, Olimpíada e Paralimpíada é outra coisa, tudo por acontecer. E a gente está preparado para esse momento, com trabalho pesado, firme e forte. Espero que a gente possa mudar a história dos Jogos e do esporte como um todo. Quem sabe os Jogos não possam ser um divisor de águas para que pessoas nossa sociedade entendam que pouco importa se é Paralimpíada ou Olimpíada. É natação, é atletismo, é basquete, é vôlei, é esgrima, é esporte - finalizou. 

PRINCIPAIS RESULTADOS DE ANDRÉ BRASIL

Paralimpíada
Londres 2012 (REINO UNIDO)
Ouro 50m Livre – 23:16
Ouro 100m Livre – 51:07
Ouro 100m Borboleta -  56:35
Prata 100m Costa – 1:00:11
Prata 200m Medley – 2:12:36

Pequim 2008 (CHINA)
Ouro 50m Livre -  23:61
Ouro 100m Livre – 51:38
Ouro 400m Livre – 4:05:84
Ouro 100m Borboleta – 56:47
Prata 200m Medley – 2:14:20
Mundial

Glasgow 2015 (ESCÓCIA)
Ouro 50m Livre – 23s20
Ouro 100m costas - 59s95
Ouro 100m Livre - 51s15
Prata 100m borboleta - 56s67
Prata  4x100m livre - 3:51:44

Montreal 2013 (CANADA)
Ouro 50m Livre – 23:37
Ouro 100m Livre – 51:57
Ouro 100m Borboleta – 56:76
Prata 100m costa – 1:00:44
Prata 200m Medley – 2:13:19
Prata 4x100m Livre (revezamento) – 3:51:64

Eindhoven 2010 (HOLANDA)
Ouro 50m Livre – 23:53
Ouro 100m Livre – 50:87
Ouro 400m Livre – 4:05:95
Ouro 100m Costa – 1:00:55
Ouro 100m Borboleta – 55:99
Prata 200m Medley – 2:13:20  
Prata 4x100m Livre (revezamento) – 3:53:79

Durban 2006 (ÁFRICA DO SUL)
Ouro 50m Livre – 24:36
Ouro 100m Livre –  52:61
Ouro 400m Livre – 4:08:46
Ouro 100m Borboleta – 58:00
Bronze 200m Medley – 2:19:61
Bronze 4x100m Livre ( revezamento) – 4:07:44
Parapan-Americano

Toronto (Canadá) -  6 ouros e  1 prata

Ouro 100m borboleta - 56:72
Ouro  200m medley - 2:12:22
Ouro 100m costas - 1:00:56
Ouro  4x100m livre - 3:58.53
Ouro 100m livre - 51:28
Ouro 4x100m medley -  4:21:61
Prata 50 livre - 23:51

Guadalajara 2011 (MÉXICO) – 6 ouros

Ouro 50m Livre – 23:64
Ouro 100m Livre – 51:60
Ouro 400m Livre – 4:16:56
Ouro 100m Peito – 1:17:21
Ouro 4x100m Livre – 3:58:48
Ouro 4x100m Medley – 4:23:99

Rio de Janeiro 2007 (BRASIL) – 6 ouros, 1 prata e 1 bronze
Ouro 50m Livre – 24:07
Ouro 100m Livre – 52:35
Ouro 400m Livre -  4:12
Ouro 100m Borboleta – 57:55
Ouro 4x100m Livre
Ouro 4x100m Medley
Prata 100m Costas – 1:05
Bronze 100m Peito – 1:19

Recordes mundiais

50m Livre – 23”16
100m Livre – 50”87
200m Livre – 1’54”46 *
50m Borboleta – 25”25 *
100m Borboleta – 55”99
50m Costas – 27”86 *

 

Veja também