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há 35 minutos

Após 11 meses sem urinar, transplantada transforma nova vida em campanha pela doação de órgãos 

Ovanilce faz questão de deixar claro a gratidão que sente pela família e pelos profissionais que a atenderam

Ovanilce Torres, de 46 anos, entendeu que uma nova oportunidade de vida pode começar com uma ligação telefônica no dia 8 de junho, enquanto aguardava em casa, após meses de muita expectativa, quando o telefone tocou: um rim estava disponível para o transplante.

Naquele momento, não havia muito o que pensar, até porque a emoção tomou conta, misturando choro com riso e a pressa de contar a boa nova a todos que sempre estiveram ao seu lado nessa batalha. 

“Parecia que eu tinha ganhado na Mega-Sena. Eu fiquei tão feliz, tão radiante que não consigo expressar em palavras o que senti. Eu ria, eu chorava, enquanto entrava em contato com todas as pessoas importantes na minha vida para contar que meu milagre havia chegado”, relembra.

Até ali, nada tinha sido fácil. Havia uma rotina de hemodiálise, dores e dificuldades com as quais ela já convivia havia cerca de 15 anos. Há aproximadamente 12 anos ela também passou por uma nefrectomia, cirurgia para a retirada de um dos rins. 

Pouco tempo depois, ela desenvolveu diabetes e com o passar dos anos, o rim que ela ainda tinha ficou com o funcionamento comprometido, até que em julho de 2025 foi necessário iniciar as sessões de hemodiálise, o que trouxe uma série de dificuldades.  “Eu sempre tive muita dificuldade em acessos nas veias. Para fazer hemodiálise necessitamos das nossas veias. São procedimentos dolorosos, como a confecção de fístulas. E quando a fístula não funciona, precisamos usar cateteres no pescoço. Isso me fazia sofrer bastante”, conta.

Até então, Ovanilce ainda não tinha entrado na fila para transplante em Campo Grande, pois tinha o desejo de conseguir uma vaga no Hospital do Rim, em São Paulo, mas a esperava acabava dificultando o processo. Porém, uma conversa com uma amiga chamada Dayana, que também fazia hemodiálise, a fez mudar de rota. “Ela chegou em mim e falou que no Hospital do Pênfigo estava tendo transplante. No mesmo instante me passou o contato do setor de nefrologia”, relata.

Ovanilce então entrou em contato com a equipe do hospital e iniciou as tratativas de consultas, exames pré-operatórios em abril de 2026 e, pouco mais de dois meses depois veio a ligação que ela define como seu "tão sonhado milagre".

Primeiro xixi depois de 11 meses

A cirurgia de transplante foi realizada no dia 8 de junho deste ano e, após o procedimento, ela passou pelo CTI (Centro de Terapia Intensiva) para depois ir para a enfermaria. No terceiro dia, aconteceu algo que - para a maioria das pessoas - é comum, mas que para ela, teve um grande significado: Ovanilce voltou a urinar normalmente. “Algo tão simples, mas que para mim foi um dos momentos mais felizes da minha vida, pois já fazia onze meses que eu não sabia mais o que era fazer xixi”, lembra.

Todo o processo teve boa evolução, com rápida recuperação, de forma que ela já caminhava pelos corredores do hospital depois de três dias do procedimento, e recebeu alta após sete dias e voltou para casa. Entretanto, cerca de 10 dias depois, precisou voltar ao hospital após uma infecção na incisão da cirurgia. 

Ovanilce continua em acompanhamento e faz questão de deixar claro que a internação não ocorreu por falha no órgão transplantado, mas sim, por essa infecção. “Meu novo órgão em momento algum deu problema. Está trabalhando muito bem aqui dentro de mim”, afirma. E aqui, vale o adendo de que Ovanilce é diabética, condição que dificulta cicatrizações.

Gratidão 

Para a paciente, a história do transplante não pode ser contada sem mencionar as pessoas que a apoiaram e permaneceram ao seu lado em todo esse processo. “Estou sendo cuidada pela equipe do Hospital do Pênfigo da Gunther Hans com muito amor, zelo e dedicação.”

É claro, a família também se fez presente:  a irmã, Cida Torres, acompanhou de perto as sessões de hemodiálise e também esteve presente durante o transplante e período de recuperação, além do sobrinho Rafael, a sobrinha Kethelyn e a irmã Rose Torres (que mora em outra cidade), são lembrados pela paciente. Ela ressalta, ainda, que a irmã Rose e o pai, Odeir Ferreira de Souza também deram suporte financeiro a ela nesse período, e é claro, não se esquece das mensagens e demonstrações de preocupação dos amigos. “Minha família teve um papel muito importante nesse momento. Foram muitas pessoas que me apoiaram”, afirma.

Mas é claro, há um carinho especial pela equipe da instituição hospitalar. “Minha eterna gratidão à equipe inteira aqui do Hospital do Pênfigo Gunther Hans, em especial às minhas enfermeiras, técnicas em enfermagem e à minha médica, doutora Danielle Yamada Barbosa. Equipe Pênfigo, obrigado por tudo. Vocês são nota mil.”

Ela afirma que não consegue citar todos nominalmente, porque são  muitaws pessoas, mas diz que espera que cad um se reconheça nas palavras de agradecimento. 

Espalhar a palavra da doação de órgãos

Após sentir na pele a necessidade de receber um transplante de órgão, Ovanilce decidiu transformar sua vivência em combustível para conscientização. 

Ela considera que falar sobre o tema é uma forma de reconhecer a importância do gesto que possibilitou sua nova fase e, principalmente, de estimular outras pessoas a entrarem no debate. 

“Hoje eu levanto essa bandeira com muita garra. Podendo dizer com toda clareza que a doação de órgãos salva vidas, um assunto que deveria ser mais abordado”, afirma.

A trajetória de Ovanilce também ganha mais significado quando lembramos que estamos no Setembro Verde - mês dedicado à conscientização sobre a doação de órgãos. 

Levando isso em conta, ela pondera que falar sobre o tema é uma maneira de fazer com que mais pessoas compreendam que a decisão de uma família pode representar uma nova possibilidade de viver para quem aguarda por um transplante e isso, por experiência própria, resumindo tudo em uma frase: “Eu recebi uma nova chance. Que outras pessoas também possam receber.”.

Alguns números

A doação de órgãos continua sendo fundamental para atender pacientes que aguardam por um transplante no Brasil. Segundo o SNT (Sistema Nacional de Transplantes), do Ministério da Saúde, os relatórios oficiais reúnem dados de doadores, transplantes e listas de espera em todo o país. 

Em 2025, por exemplo, MS registrou 63 doadores efetivos de órgãos, o equivalente a 21,5 doadores por milhão de população, segundo o RBT (Registro Brasileiro de Transplantes). No estado, foram realizados 70 transplantes de órgãos sólidos e 298 de córnea ao longo do ano. 

Entre janeiro e abril de 2026, MS contabilizou 25 doadores de múltiplos órgãos e 65 doadores de córneas. No mesmo período, foram realizados 23 transplantes de fígado, 31 de rim e 84 de córnea. A lista de espera tinha 367 pacientes para transplante renal, 463 para córnea, 15 para fígado e um para pâncreas, conforme aponta a SES (Secretaria de Estado de Saúde). 

No Brasil, foram registrados 20,2 doadores efetivos por milhão ede população, com um total de 9.938 transplantes de órgãos sólidos pelo SUS (Sistema Único de Saúde). 

No período de janeiro a abril deste ano, foram contabilizados 1268 doadores efetivos, com um índice de 5,9 doadores por milhão de habitantes. 

A autorização da família é indispensável para que a doação de órgãos de uma pessoa falecida seja realizada. Por isso, o Ministério da Saúde orienta que quem deseja ser doador converse com seus familiares e manifeste claramente essa vontade em vida. 

 

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