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Escola pública de MS desenvolve projeto pioneiro e resultado leva equipe para os EUA

Projeto estuda os impactos de planta exótica do México que se tornou uma ameaça para a flora do Cerrado sul-mato-grossense

25 março 2019 - 15h41Por Rodson Willyams

Dedicação e incentivo à pesquisa foram elementos primordiais para que projeto desenvolvido pela Escola Estadual Teotônio Vilela pudesse participar de importante feira, em maio, na cidade de Phoenix, nos Estados Unidos da América. Desde 2015, projeto estuda os impactos da Leucena - planta exótica do México introduzida no Brasil - que se tornou uma ameaça para a flora do Cerrado sul-mato-grossense.

A pesquisa desenvolvida por alunos ao longo destes quatro anos identificou que a Leucena está presente nos córregos e parques de Campo Grande. Ela representa uma ameaça para espécies nativas como a Guavira. A maior incidência da planta está na região do Bandeira.

Segundo o professor de biologia, Vagner Cleber de Almeida, de 32 anos, que coordena o projeto ao lado do professor de geografia, Carlos César Gonzales de Luna, de 35 anos, o projeto apresentou avanços nos últimos tempos.

"Algumas alunas fizeram o levantamento florístico para ver onde a planta existia em maior quantidade. Por meio deste levantamento, puderam fazer outras observações: uma delas é que a alface produzida na beira do córrego, se estiver próximo de uma Leucena, acaba morrendo ou com baixo crescimento", explica Vagner.


Professor Vagner, Thailenny e o professor Carlos. Foto: Divulgação.

No Cerrado, a planta também representa ameaça para outras espécies. "A Leucena ameaça também algumas plantas frutíferas como a embaúba e a guavira [espécies do Cerrado Brasileiro]. Em 2017, as nossas alunas Thailenny e Bruna fizeram a parte de alelopatia [análise do dano causado por uma planta] e identificaram que a planta libera substância que acaba prejudicando outras plantas em uma competição. Atualmente, a aluna Thailenny dá continuidade à pesquisa. E, com isto, ela vem conquistando visibilidade em algumas feiras pelo país".

Reconhecimento do projeto

O projeto é ganhador de diversos prêmios. O último veio neste mês, em que a Escola Estadual Teotônio Vilela participou da Febrace 2019, realizada em São Paulo, e ganhou o primeiro lugar em biológicas, como o melhor trabalho de Mato Grosso do Sul. Recebeu o prêmio de Mérito Acadêmico de Ciências Moleculares e, com isso, se credenciou para a Intel Isef, feira que acontece em maio na cidade de Phoenix, nos Estados Unidos.

Isto deixou orgulhosa a comunidade acadêmica, como revela o diretor-adjunto da escola, Valter Marques Queiroz. "Este projeto acontece há um bom tempo na escola e a cada ano vem crescendo na pesquisa. Essas premiações são fruto de muito trabalho, principalmente, porque vem de uma escola pública, de periferia e que não tem recursos próprios".

O diretor-adjunto ainda releva que o Clube de Ciências da escola consegue se desenvolver por meio de vendas de rifas. "Fazem sabão e até a venda de reciclagem de latinhas, tudo para angariar fundos e poder participar das feiras. Mas eles também contam com doações dos professores e do comércio local. É um projeto que reúne muita dedicação, porque é desenvolvido fora do horário de aula e estimula os alunos à pesquisa científica. E isto desmistifica as notícias ruins que tinham de nossa escola e reforça que é possível fazer transformação por meio da Educação".


Trio durante a Febrac 2019, realizada entre 18 a 22 de março em São Paulo. Foto: Reprodução.

Para a coordenadora pedagógica Edinéia Leite, de 43 anos, o projeto proporciona aos estudantes vivências com outros alunos de escolas públicas, privadas e de universidades. "Participam de eventos de Letramento Científico, pois colocam em prática o que pesquisaram, bem como percebem que são capazes de apresentar para inúmeros avaliadores (pesquisadores de outras instituições) sobre o que aprenderam com sua pesquisa".

"Ela [a pesquisa] saiu da sala de aula e atravessou os muros da escola. Nós, enquanto gestores, nos organizamos para que outras turmas da nossa escola visitem as feiras tais como: Fecintec e Fetec e, com isso, percebemos que houve uma procura dos nossos alunos em querer fazer parte de Clube de Ciência da Escola. E, desde 2017, fazemos a  Fecintv na escola no molde das feiras com visitações e premiações", explica a coordenadora.

Somente em 2018, a Escola Teotônio Vilela recebeu 20 premiações e reconhecimentos em Feiras Científicas.

Orgulho da Família

Para a mãe de Thailenny Dantas, de 16 anos, a diarista Darlene Dantas Pereira, 36 anos, a filha é motivo de orgulho para a família. Assim como ela, o pai, mecânico eletrecista Nilton Resende, de 43 anos, e a irmã de oito anos vibram com o sucesso da adolescente.

"Vejo como uma oportunidade única. Ela sempre estudou em escola pública e nunca tivemos condições de oferecer um ensino de qualidade para ela, mas os professores acreditaram nela e viram que ela tem potencial e futuro. Isto é importante porque ela pode conseguir, inclusive, bolsas de estudos. Tanto eu quanto o pai dela não fizemos o ensino superior e a gente se realiza por meio dela. A ajudamos no que podemos e ela também corre atrás. Sempre digo a ela para focar sempre nos estudos", conta a mãe.

Sobre a ida da filha para os Estados Unidos, os pais estão orgulhosos. "Nós sempre acreditamos que ela poderia seguir por esse caminho. Mas a gente, que vive uma realidade tão distante, foi algo inesperado e ver a nossa filha indo para o Estados Unidos é algo inimaginável. Estamos muitos orgulhosos e felizes porque a escola também deu este suporte para ela", diz emocionada.


Thailenny conseguiu a oportunidade de participar de feira nos EUA em maio. Foto: Divulgação.

Em entrevista ao Portal, Thailenny afirma que o projeto mudou a sua vida. "Este projeto entrou na minha vida quando eu estava no primeiro ano do Ensino Médio, nunca tinha participado de nada extra-curricular. Sempre gostei da área de exatas e até então nunca tinha tido contato com as ciências biológicas, que agora se tornou uma paixão para mim. Tanto é que quero cursar e me especializar em botânica, que é a parte que eu desenvolvo aqui".

A jovem de 16 anos destaca ainda a importância de estudar. "O projeto me fez perceber a real importância do estudo. Se você estudar, você vai longe. No meu caso, nunca tinha saído do Estado devido às minhas condições, e por meio dele pude ir para São Paulo e o Rio Grande do Sul. Agora com uma oportunidade de viagem ao exterior".  

Para ela, isto serve de exemplo para a família e amigos. "O projeto mudou a minha vida e permitiu ter contato com outras culturas. Os meus pais me ajudam no que podem, me dão apoio e sempre estão na correria comigo. Na minha família tem outras pessoas que tem o sonho de ir para exterior, como o Estados Unidos, e viram que assim como eu, elas têm capacidade de ir também, mesmo sendo de uma escola pública. E isto se tornou uma inspiração para a minha família".

Com a passagem e as despesas garantidas, Thailenny pede ajuda para os professores também irem até aos Estados Unidos. "A passagem deles não está garantida. Me disseram que eles teriam um custo de R$ 3 a R$ 4 mil dólares. Então, agora nós vamos realizar pasteladas, rifas para reunir esse dinheiro. Quem puder nos ajudar com qualquer coisa pode nos procurar na escola. Nós precisamos de patrocínio e toda ajuda é bem-vinda".

Para quem se interessar em ajudar, a Escola Estadual Teotônio Vilela fica na Av. Souza Lima, 506 - Universitária II Cohab, Campo Grande. Telefone para contato é o (67) 3314-5637.

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