Helena Meirelles se tornou um dos maiores ícones da música sul-mato-grossense e, sobretudo, um exemplo de mulher à frente de seu tempo. Agora, a historiadora Ana Paula Squinelo busca reunir registros fotográficos da musicista pioneira e pede ajuda de todos que tenham imagens da artista para ampliar esse acervo histórico.
Em uma época marcada pelas limitações impostas às mulheres, a violeira rompeu barreiras com a viola nas mãos e transformou a própria trajetória em inspiração para outras gerações. A história de Helena Meirelles carrega a coragem de quem enfrentou preconceitos, dores e desafios em um período em que às mulheres restava, muitas vezes, apenas obedecer às imposições sociais, sem abrir mão da própria identidade e do livre-arbítrio.
Seu legado ultrapassou a arte, ecoa até hoje como símbolo de independência e potência feminina e agora ganha espaço no livro Mulheres Inspiradoras de Mato Grosso do Sul: Aulas-Oficina para a Educação Básica - Helena Meirelles, Dona Helena: a Grande Dama da Viola, escrito por Ana Paula.
A proposta da obra também busca aproximar a trajetória da artista das novas gerações. “É um material inédito pelo formato, em função de estar sendo escrito para uso em sala de aula. É uma proposta de aula-oficina sobre Helena Meirelles para que os estudantes possam conhecer sua história, estabelecer relações com o tempo presente e, sobretudo, inspirar meninas e jovens sul-mato-grossenses a protagonizarem suas vidas”, destaca a historiadora.
Processo de produção
Durante o processo de produção, Ana Paula reúne fotografias de Helena - inclusive algumas inéditas - para retratar diferentes momentos da vida de uma das mulheres mais importantes da cultura sul-mato-grossense, destacando vivências, viagens, apresentações e relações construídas ao longo da trajetória.
“Reuni fotografias inéditas e outras já conhecidas, e esse acervo imagético se torna importante na medida em que apresenta várias fases da trajetória de vida de Helena Meirelles: seus familiares, sua relação com o universo pantaneiro, os lugares que visitou, as pessoas com quem se conectou, suas preferências, apresentações e shows, entre outras questões. Isso permite ao leitor ampliar a visão sobre a violonista”, explica.
Entre o material já reunido, Ana Paula adianta que existem registros inéditos de grande relevância histórica, mas prefere manter o mistério até a publicação do livro.
Pioneirismo de Helena
A pesquisadora também destaca o contexto histórico e social em que Helena viveu. “Helena Meirelles viveu entre os anos de 1924 e 2005, nasceu na Fazenda Jararaca e conviveu com o universo pantaneiro, uma realidade dominada pelo patriarcado, em um momento em que as mulheres eram educadas para casar, gerar filhos e cuidar do lar.”
Esse cenário contribuiu para que o talento da artista permanecesse invisibilizado durante décadas, ganhando projeção apenas nos anos 1990. “De forma autodidata, aprendeu a tocar violão ainda menina. Seu talento, entretanto, ficou desconhecido da mídia e do meio cultural por décadas. Somente nos anos 1990 a violonista começou a ter o trabalho divulgado nacional e internacionalmente”, conta a historiadora.
Apesar de todas as barreiras e contra todas as possibilidades, conforme nos conta Ana Paula, Helena também era, além de violonista, violeira, rabequeira e bandolinista, ou seja, tocava, além do violão, viola, rabeca (um tipo de violino rústico ou popular) e bandolim. "Em um universo masculino como o da música caipira/sertaneja raiz, Helena Meirelles construiu uma história e usou de estratégias para não só sobreviver nesse meio, mas como para se destacar entre seus pares."
Com tanto talento e perícia no dedilhar das cordas, é claro que, uma vez que chegasse à mídia, Helena não passaria despercebida. "Em 1993 ela foi eleita a artista revelação do Mês de novembro pela Revista Guitar Player (Estados Unidos), e no ano seguinte, em 1994, Helena saiu em um encarte que percorreu o mundo todo e divulgava as 101 palhetas dos grandes astros da guitarra, eleitas pela Guitar Player (EUA)", relembra Ana Paula.
Squinelo ressalta que para além da história em si, a relevância da "Dama da Viola" foi e é marcante de uma forma muito grande e especial. "Helena Meirelles teve importância tanto do ponto de vista musical, na medida em que seu trabalho e atuação contribuíram para a valorização da viola caipira, assim como abriu caminhos para uma nova geração de mulheres violeiras."
Museu Municipal Helena Meirelles
Ana Paula é pesquisadora do Museu Municipal Helena Meirelles e destaca a importância do espaço para a preservação da memória cultural sul-mato-grossense.
“Entendo que o Museu Municipal Helena Meirelles possui um acervo sobre a violonista que deve ser preservado, ampliado, divulgado e acessível ao público, com o objetivo de difundir a memória e a história de Helena Meirelles, além dos inúmeros temas que se interlaçam entre a artista e a história musical de Mato Grosso do Sul.”
Contribuição para o acervo
Além do resgate histórico, Ana Paula busca acessar momentos da trajetória de Helena a partir do olhar do público e dos fãs. “Helena fez um show no Dia da Mulher em Campo Grande, no ano de 1999; participou do Festival de Inverno de Bonito em 2001 e 2002; e realizou um show ao vivo no Palácio Popular da Cultura, atual Centro de Convenções Rubens Gil de Camillo, para gravar seu último disco. Cliques desses momentos, tanto na Capital quanto no interior do Estado, podem enriquecer a proposta e o acervo visual ao qual os alunos terão acesso.”
A historiadora também reforça que todo o processo de construção coletiva segue os princípios acadêmicos e que os créditos autorais das imagens serão devidamente respeitados.
Quem tiver fotografias de Helena Meirelles e quiser contribuir com o projeto pode enviar o material para o e-mail ana.squinelo@ufms.br ou pelo WhatsApp, no número (67) 99175-3177.








