Servidoras da rede municipal de educação denunciam uma série de episódios de assédio moral, perseguição institucional e tortura psicológica dentro da Emei (Escola Municipal de Educação Infantil) Fátima de Jesus em Campo Grande. Os relatos apontam que as situações se arrastam há anos, mesmo com denúncias formais, registros na Semed (Secretaria Municipal de Educação) e processos judiciais em andamento.
Segundo uma professora efetiva da unidade na Vila Nasser, que preferiu não se identificar por medo de represálias, os episódios mais recentes ocorreram durante a última reunião coletiva da escola. De acordo com ela, a diretora da unidade teria impedido sua fala durante o encontro, apesar de já existir um histórico de denúncias e ações judiciais envolvendo ambas.
A professora afirma que possui dois processos judiciais em andamento contra a diretora. Em um deles, chegou a ser firmado um acordo judicial, que, segundo a denunciante, não foi cumprido. Mesmo assim, a profissional relata que as perseguições continuaram, inclusive contra colegas que demonstram apoio a ela.
Durante a reunião, a professora relata que solicitou apenas que os repasses feitos no período da manhã também fossem realizados com os profissionais do turno da tarde. A diretora teria se exaltado e deixado a sala. Em seguida, professoras convocadas e em estágio probatório teriam saído em defesa da gestão, enquanto professoras efetivas, com mais tempo na unidade, permaneceram em silêncio.
Ainda conforme o relato, uma assistente tentou se manifestar em defesa das professoras efetivas e acabou sendo alvo direto da diretora. Temendo que a situação se agravasse, colegas retiraram a assistente da discussão e deixaram o local sem qualquer ato de desrespeito.
Cerca de meia hora depois, representantes da Secretaria Municipal de Educação chegaram à escola. Apenas a assistente foi chamada para uma reunião, o que, segundo as denunciantes, não foi aleatório. “Ela é uma pessoa que fica muito nervosa, que se desestabiliza”, relatou a professora.
Nesse momento, a diretora teria determinado que ninguém poderia deixar a escola até segunda ordem, mesmo após o fim do horário de trabalho. Os profissionais só conseguiram sair após as 11h30. Enquanto isso, a assistente permaneceu sozinha em uma sala com cerca de oito pessoas, entre direção e representantes da secretaria, por mais de duas horas, sendo submetida, segundo os relatos, a forte pressão psicológica, acusações e distorções dos fatos.
Colegas afirmam que tentaram contato com o secretário de Educação, enviaram áudios e gravaram vídeos da situação, mas não obtiveram resposta. Uma professora chegou a verificar se a assistente estava bem, batendo à porta da sala onde ocorria a reunião.
As denúncias também apontam que a diretora costuma retirar da unidade servidores que a denunciam, prática que só não teria sido aplicada à professora denunciante por conta do acordo judicial já firmado anteriormente. Ainda assim, ela afirma que continua sendo perseguida e que qualquer servidor que se aproxime dela passa a ser alvo da gestão.
Um dos casos citados envolve uma coordenadora pedagógica que teria sido retirada da função após afirmar, por escrito, que não perseguiu nem excluiu a professora denunciante, reforçando a existência de práticas de retaliação dentro da unidade.
A professora relata ainda que o histórico de perseguição lhe causou grave esgotamento emocional, levando-a a acompanhamento psiquiátrico e a um afastamento do trabalho por seis meses. Ela afirma possuir boletim de ocorrência, documentos, protocolos e provas que já foram encaminhados à Semed, sem que providências efetivas tenham sido tomadas.
Segundo os relatos, o sindicato da categoria também tem conhecimento de diversos casos semelhantes em outras Emeis do município. No entanto, as soluções adotadas costumam se limitar à remoção da vítima da unidade, sem responsabilização da gestão denunciada.
O nome da diretora é citado nos relatos, mas os casos seguem sendo apresentados como denúncias, até manifestação oficial dos órgãos responsáveis.
Posteriormente, às 15h27 desta terça-feira (23), a defesa da direção enviou o seguinte esclarecimento:
Na qualidade de advogada da Diretora da EMEI Fátima de Jesus, esclareço que a matéria publicada apresenta relatos unilaterais, não refletindo o adequado contexto jurídico e administrativo dos fatos.
No âmbito judicial, houve processo anterior envolvendo uma das professoras mencionadas, o qual foi regularmente encerrado por meio de acordo judicial, com consequente extinção da punibilidade da Diretora. O referido acordo está sendo integralmente cumprido, havendo provas documentais nesse sentido.
A unidade escolar conta atualmente com 68 servidores ativos, sendo que apenas duas servidoras se posicionam contra a gestão, em manifestação isolada e minoritária, com indícios de motivação alheia ao interesse institucional, especialmente diante da proximidade do período eleitoral.
O procedimento criminal por suposta perseguição mencionado na reportagem encontra-se em fase de investigação, inexistindo qualquer juízo de culpa. A defesa dispõe de elementos probatórios consistentes que demonstram a improcedência das acusações, os quais serão apresentados no momento processual adequado e perante o Poder Judiciário, que é o foro competente para a apreciação da matéria.
Em relação à reunião citada, esclarece-se que algumas professoras se manifestavam espontaneamente em elogios e agradecimentos à gestora, quando houve interrupção indevida por uma servidora, que tentou cessar tais manifestações.
Diante do conflito instaurado, a própria Diretora solicitou a presença da Secretaria Municipal de Educação, visando à mediação institucional e à adequada condução administrativa, o que justificou a prorrogação da reunião, dentro dos parâmetros legais e administrativos.
Por fim, informa-se que medidas judiciais cabíveis serão adotadas em razão de acusações falsas e de eventuais crimes contra a honra praticados contra a Diretora.
A defesa permanece à disposição para eventuais esclarecimentos adicionais.
Campo Grande/MS, 23 de dezembro de 2025.
Fabiana Trad
Advogada
OAB/MS 29.145
Já nesta quarta-feira (24), a Secretaria Municipal de Educação de Campo Grande informou que "está acompanhando de perto a situação da EMEI Fátima de Jesus, no Bairro Vila Nasser. Foi instaurado procedimento administrativo para apurar os fatos relatados, seguindo todos os princípios legais, garantindo imparcialidade, contraditório e ampla defesa. Novas informações serão devidamente incorporadas ao processo".
* Matéria editada para adição dos posicionamentos







