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Campo Grande

há 56 minutos

Entre o medo e a esperança, mudança do Centro Pop divide opiniões em Campo Grande (vídeo)

Moradores temem aumento de violência e furtos, ao passo que pessoas em situação de rua acreditam em mais dignidade 

Há alguns meses, a mudança do Centro Pop (Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua) do centro de Campo Grande para o Bairro Amambaí, tem causado polêmica, discussão, medo, receio e processo na Justiça. Entretanto, a mudança já começou na tarde dessa quarta-feira (2) e a equipe do TopMídiaNews foi ouvir aqueles estão no centro desta questão: as pessoas em situação de rua. 

Antes que o texto prossiga, é importante fazermos um adendo, inclusive, com base no que ouvimos daqueles que precisam dos serviços do Centro Pop: "Nem todo mundo que está aqui usa drogas, ou é bandido, ou quer fazer mal pros outros. Muita gente tá aqui porque não tem pra onde ir, mas quer sair da rua e também quer um pouco de dignidade, mas sempre é julgada". Foi o que Nívea* nos disse. 

A nossa chegada ao local foi percebida com receio pelas pessoas que estavam ali. Não havia hostilidade, mas havia desconfiança. Tentamos, por alguns minutos, conversar com várias daquelas pesoas, mas sem sucesso, até que Nívea nos perguntou o que queríamos. ao saber que queríamos ouvi-los, a feição mudou e ficou mais leve. 

Ao ouvir que o anonimato seria garantido, ela ainda não quis dar entrevista, mas fez o "meio de campo" e chamou duas pessoas para covnersarem conosco, e foi assim que pudemos ouvir Laura* e Ana*

A situação toda é delicada, porque envolve, de um lado, quem mora no bairro Amambaí, para onde o Centro Pop será transferido, e do outro, a esperança de quem vive nas ruas, de ter um pouco mais de dignidade. Ou seja: coloca, frente a frente, duas realidades distintas, com todas suas nuances e complexidades. 

Esperança de recomeço

Laura nos contou que há cerca de um ano, após a morte de sua avó, se viu nas ruas e sem perspectiva. Ao procurar o Centro Pop, conta, conseguiu um emprego e, assim, conseguiu sair das ruas. “Nesses cinco meses eu fiquei afastada, morando na minha casa e trabalhando, graças a Deus. Aí eu perdi o emprego e voltei pra cá. Aí, desde então, eu tô na luta, sabe? (...) Eu só não estou atrás dos serviços porque eu estou muito cansada. Mas eu queria ir logo trabalhar, ter a minha casa.”

Agora, com a mudança, ela acredita que as condições serão melhores para aqueles que buscam um ponto de apoio enquanto procuram trabalho, já que - segundo nos contaram - a expectativa é que as novas instalações tenham funcionamento 24 horas, com banheiros melhores, alimentação, local para lavar roupas, entre outros atendimentos.  

Ana* é cabeleireira, venezuelana, e está em Campo Grande há um ano e três meses. Para ela, a mudança vai proporcionar, também, mais segurança para as pessoas em situação de rua, já que nas novas instalações haverá mais fiscalização sobre itens que os usuários dos serviços portam ao entrar no local. Ela conta, também, que todos já foram avisados que no bairro Amambaí haverá mais regras para quem frequentar o local. “A segurança é muito boa. O espaço é mais amplo. Não é tão pequeno. Mas também é sobre homens que agridem mulheres, homens que abusam de mulheres. até mesmo sexualmente”, pontua. 

Laura conta ter presenciado situações de violência e afirma que também já sentiu esse problema na pele. Por isso, espera que a nova unidade tenha, de fato, regras e mecanismos de proteção especialmente para mulheres, mães e crianças, já que essas são as pessoas que mais sofrem com a vida nas ruas

Assim como Laura, Ana também tem esperança de um novo recomeço: ela afirma estar há oito anos sem consumir pasta base e conta que, enquanto busca alternativas para a própria vida, desenvolve com outra mulher um projeto informal para cortar o cabelo e prestar serviços de beleza a pessoas em situação de rua.

A intenção é adquirir máquinas de corte e transformar o conhecimento profissional em uma forma de ajudar outras pessoas e, ao mesmo tempo, gerar renda.

Outra perspectiva

Se por um lado pessosa em situação de rua enxergam no novo Centro Pop uma possibilidade de cuidado e recomeço, os moradores do bairro Amambaí têm outra preocupação. 

Desde o anúncio da mudança, a instalação da unidade ao lado da Escola Municipal José Rodrigues Benfica levantou questionamentos e reclamações entre os moradores, que em dezembro de 2025 relataram ao TopMídiaNews que já enfrentavam problemas de insegurança, furtos e uso de drogas na região, e temiam que a transferência do Centro Pop para a localidade acabasse por agravar a situação. Uma moradora chegou a questionar a segurança das crianças com o serviço instalado ao lado do centro educacional. 

Mais recentemente, em agoto, esivemos no local e conversamos com os moradores, que ainda viviiam o clima de incerteza, que se estendia aos comerciantes e pais de alunos, também preocupados com a segurança no entorno, e que alegavam não terem recebido respostas suficientes sobre a instalação do Centro Pop no bairro. 

Já agora, no mês de setembro, o Conselho Municipal dos Direitos Humanos se posicionou a favor do funcionamento da unidade, reconheendo as preocupações dos moradores, comerciantes e famílias dos estudantes, porém, defendendo a não inviabilização do atendimento à população em situação de rua. 

Houve, ainda, o apontamento da necessidade de políticas integradas que envolvem asistênci social, saúde, habitação, trabalho, educação, segurança e zeladoria. 

Em nota, a prefeitura afirmou ao TopMídiaNews que a nova unidade vai oferecer salas de atendimento específicos (psicossocial; saúde; habitação; emprego; encaminhamentos; segurança e outros), oficinas, cozinha, refeitório, mais banheiros, lavanderia, bagageiro, canil e área externa de convivência. 

Também afirmou que as rondas de segurança serão intensificadas na região e que a Guarda Civil Metropolitana fará monitoramento frequente do bairro. A administração municipal destacou ainda que o Serviço Especializado em Abordagem Social já funciona no local há mais de um ano.

Duas realidades no mesmo cenário 

Toda a situação envolvendo a transferência do Centro Pop coloca em xeque algo que vai muito além do endereço das instalações: para quem vive nas ruas, a mudança representa banho, comida, espaço, segurança e, ainda, a possibilidade de recomeçar a viver. Já para quem mora no Amambaí, a coisa toda desperta dúvidas sobre segurança, convivência e os impactos no entorno de uma escola. 

Entretanto, as histórias ouvidas pela reportagem também mostram que a expressão "pessoa em situação de rua" pode mascarar a realidade de pessoas que em algum momento perderam o rumo, mas que querem "dar a volta por cima" com emprego, cuidando de outras pessoas, fazendo planos, tendo direito a um banho e a um prato de comida - apesar da violência das ruas -, de forma a recuperar uma vida mais digna e com mais autonomia. 

Não há santidade e nem perfeição nessas histórias ou realidades. Existe apenas a vontade de viver em paz e em segurança, tanto para quem está nas ruas, quanto para quem está do lado de dentro dos muros.

*Nome fictício. 
 

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