Para a auxiliar administrativa Adriana Marina da Silva Rocha, de 40 anos, a ausência da água reflete diretamente na coluna. Sem poder praticar atividades de alto impacto, ela encontrava na piscina do Parque Ayrton Senna, em Campo Grande, o alívio e o movimento necessários para o corpo. Hoje, a rotina de exercícios deu lugar à indignação.
O espaço público costumava abrigar aulas gratuitas de hidroginástica e natação duas vezes por semana no bairro Aero Rancho. O público, formado por mais de 90 pessoas, é composto em sua grande maioria por idosos. O ritmo foi quebrado em outubro do ano passado, quando as atividades pararam para uma manutenção que se estendeu por todo o fim de ano.
A esperança de voltar à água ressurgiu em fevereiro, mas durou muito pouco. Após apenas duas aulas, completando uma semana de funcionamento, uma nova interdição paralisou tudo. Desde então, os frequentadores convivem com a espera. A gota d'água veio recentemente, de forma virtual. "Quando foi agora, esses dias, mandaram uma mensagem no grupo que eles iam desmanchar o grupo porque não têm previsão de voltar às aulas", relata Adriana.
A decisão revoltou os alunos, que dependem do serviço para manter a saúde e o convívio social. Para não deixar a comunidade desarticulada, a auxiliar administrativa tomou a frente e criou um novo grupo no aplicativo, focado em cobrar providências. "O que deixa a gente indignado é que tem idosas ali, não são pessoas novas. A gente quer resposta, porque a gente precisa das piscinas", defende.
A barreira financeira torna o cenário da vizinhança ainda mais restrito. Nas contas de Adriana, o custo de um serviço similar na rede privada foge totalmente da realidade do bairro. "Duas aulas na semana são R$ 1.200. Ninguém tem. É pessoal que recebe salário mínimo, que tem ajuda de filhos, são idosas de 70, 80 anos."
O sentimento de abandono se mistura com a frustração em relação à gestão municipal. Adriana aponta o que considera um contraste de investimentos entre diferentes regiões de Campo Grande. "Ano passado a gente viu na reportagem, ela [a prefeita] colocou aquecedor para o pessoal do Carandá Bosque. Quer dizer, ela ganhou aqui, tira o pouco que a gente tem e dá para os outros lá", desabafa. "A gente quer os nossos direitos, porque ela ganhou aqui e todo mundo paga imposto."
Enquanto a piscina segue vazia, os problemas físicos e a sensação de descaso se acumulam. "Eu mesma uso a piscina porque tenho problema de coluna, não posso fazer exercício de alto impacto. Então, eu preciso daquilo ali. Só que não tem. Simplesmente ela fala 'não tem', pronto, e acabou", lamenta a moradora, que diz não encontrar respaldo na administração do parque. "Você chega lá e pergunta, não tem previsão. Eles enganam, eles mentem."
O que diz a prefeitura?
Em nota, a prefeitura informou que as atividades foram suspensas em fevereiro deste ano "para a realização de uma manutenção de maior complexidade técnica, que demanda um período mais extenso para sua conclusão".
"Esse trabalho coincidiu com a chegada do período de inverno, no qual as atividades aquáticas são naturalmente suspensas, conforme prática usual para esse tipo de equipamento. A manutenção segue em andamento, com previsão de que a estrutura esteja apta para o retorno das atividades até o início do próximo calendário de aulas", diz.
Sobre o equipamento de aquecimento da piscina do CEMTE, no Carandá Bosque, a prefeitura alega que ele "já existia e foi instalado por gestão anterior, permanecendo inoperante por vários anos. O reparo desse maquinário, que restabeleceu seu funcionamento ao longo do ano passado, tratou-se de manutenção corretiva de um equipamento já existente, e não de um novo investimento direcionado especificamente à região. O equipamento foi doado pela Federação de Basquetebol de Mato Grosso do Sul, em razão da utilização das instalações do local. Não há, portanto, tratamento diferenciado entre as unidades por parte desta gestão".
Quanto à comunicação com a comunidade, a prefeitura informou que "o parque disponibiliza um profissional de Educação Física que coordena as atividades no local, bem como um servidor que exerce a chefia administrativa do espaço. Além disso, os canais de comunicação da Fundação estão à disposição para atualizar as informações sobre o retorno das atividades aquáticas, que, costumeiramente, são suspensas durante o inverno, em função de as piscinas não serem aquecidas".
Por fim, a prefeitura destaca que, "no referido parque, embora as atividades aquáticas estejam suspensas, as demais oficinas realizadas no local, como o Pilates, Ritmos, Musculação, entre outras, continuam sendo oferecidas à população, inclusive aos idosos e às pessoas com recomendações médicas, para que não fiquem desassistidas durante o período".
O município também promete que o Parque Ayrton Senna terá o primeiro estúdio público de Pilates. "A Funesp já está em processo de aquisição dos aparelhos, por meio de licitação e a previsão de inauguração é ainda para 2026", finaliza.








