Uma reunião convocada pelo arcebispo Dom Dimas Lara Barbosa com a bancada federal de MS, realizada nesta sexta-feira (10), com o objetivo de discutir a recuperação da Praça do Papa acabou escancarando mais do que um debate sobre essa obra: evidenciou um impasse entre interesses religiosos, políticos e a falta de respostas concretas da gestão Adriane Lopes (PP) diante de problemas estruturais da cidade.
A reunião ocorreu na Cúria Diocesana, em Campo Grande. Além da prefeita, estavam presentes: os senadores Nelsinho Trad, Soraya Thronicke e Tereza Cristina; os deputados federais Beto Pereira; Geraldo Resende e Luiz Ovando, além do Arcebispo de Campo Grande, Dom Dimas Lara Barbosa, o pároco da Paróquia Nossa Senhora da Abadia, Pe. Wagner Divino de Sousa, e outros clérigos, como representantes da Igreja Católica.
Com mobilização que partiu da Arquidiocese, o objetivo do encontro era buscar apoio político e financeiro, além de discutir o projeto de revitalização da Praça do Papa, um dos principais espaços religiosos e históricos de Campo Grande, inicialmente estimado em R$ 4 milhões, com previsão de construção de várias estruturas, como capela, concha acústica e espaços de lazer.
O valor, no entanto, pode ser ampliado, já que o deputado federal Geraldo Resende indicou que há disposição da bancada em reforçar os recursos, desde que o projeto final seja considerado consistente e viável, deixando claro que o financiamento não seria um entrave, com a possibilidade de receber uma intervenção mais ampla, que pode ultrapassar o valor de R$ 10 mi.
Ainda assim, a reunião foi concluída sem que houvesse uma definição prática, reforçando a lentidão já criticada em outras tentativas frustradas de licitação e execução de obras na Capital.
A possibilidade de ampliação desses recursos esbarra, justamente, na falta de consenso sobre o projeto, condição que é apontada pelos próprios parlamentares como essencial para liberar emendas que possibilitem a obra.
A proposta tem como cerne a ideia de transformar o local em um polo de turismo religioso, e é inspirada em casos como o do município de Aparecida, no interior de São Paulo, mas acaba resvalando em uma realidade que é marcada pelo abandono, falta de manutenção e insegurança por parte da população, já que os moradores do entorno já haviam manifestado, anteriormente, revolta com projetos que, segundo eles próprios alegam, não dialogam com as reais necessidades de quem vive na região.
Foi o que aconteceu em janeiro deste ano, quando uma placa foi instalada no local, anunciando a obra de construção de uma USF (Unidade de Saúde da Família), com investimento de quase R$ 4 milhões. O questionamento se deu pelo fato de que há outro posto de saúde a poucos quarteirões dali, que, segundo os moradores do bairro, poderia ser reformado, em vez de ser "fincado" um novo posto de saúde em um local que funciona como espaço de lazer, prática de esportes, além de receber eventos culturais variados, desde circos até festivais e o desfile das escolas de samba de Campo Grande.
Nome de Papa 'espantaria' outras denominações religiosas
Durante o encontro, o deputado federal Luiz Ovando questionou a legitimidade do nome da praça, alegando que isso poderia "espantar" pessoas de outras denominações religiosas, dando a entender que poderia ser 'interessante' mudar o nome do local. Ele então justificou sua opinião evocando a prerrogativa do Estado laico, ignorando o motivo pelo qual a praça recebeu o nome que tem.
Com isso, o Pe. Wagner rebateu as alegações do deputado e explicou o contexto histórico: aquele local foi marcado pela visita do Papa João Paulo II em 1991, e ali foi realizada uma missa campal para milhares de pessoas que vieram de várias cidades de MS e, inclusive, de outros estados, para o evento religioso que marcou a história do estado. Assim, ficou claro que a identidade católica da praça deve ser preservada, muito embora o uso do espaço seja e deva permanecer ecumênico e democrático, como já o é há anos.
Soluções práticas
Pouco se avançou sobre soluções para a problemática existente no que tange ao vandalismo, iluminação precária no local e ocupação por pessoas em situação de rua, fatores que contribuem para a deterioração desse e de outros espaços públicos de Campo Grande.
A própria Campanha da Fraternidade 2026, com o tema "Fraternidade e Moradia" e foco na dignidade habitacional, foi citada na reunião, mas sem encaminhamentos concretos que façam a conexão entre discurso e realidade social visível "a olhos nus" na referida (e em outras) praça.
Os parlamentares presentes reforçaram que há articulação para garantir recursos federais e até mesmo ampliar os investimentos, caso o projeto ganhe robustez e coesão entre os envolvidos.
Entretanto, ainda assim, o histórico recente da prefeitura, com licitações fracassadas, obras travadas e explosões de problemas variados, acaba por levantar dúvidas sobre a capacidade de execução e gestão desses recursos a contento e em tempo hábil.
Ao final, a definição foi que não houve definição. O diálogo deve continuar, mas sem cronograma, sem projeto fechado e sem garantia de início das obras, e a Praça do Papa segue como retrato de uma gestão que até debate grandes ideias, mas ainda falha em apresentar soluções efetivas, seja para o turismo, para a cultura, infraestrutura, ou para quem precisa, de fato, de um espaço digno na Capital.








