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Santo se foi, mas deixou amor em excesso e legado de harmonia para os oito filhos

Viúvo aos 40 anos, Santo se dedicou à criação dos filhos e sempre zelou pela união da família

11 AGO 2019
Dany Nascimento
11h30min
Foto: Arquivo Pessoal

Ser chefe de família não é uma missão fácil, mas José Fideles da Silva, conhecido pelo apelido de ‘Seu Santo’, foi responsável pela criação de oito filhos e deixou um legado de harmonia na família, praticado até os dias de hoje, 14 anos depois de sua partida.  Ele ganhou o apelido de Santo porque, quando era bebê, não chorava nem quando sentia fome, sendo considerado uma criança fácil de lidar.

Santo teve uma infância difícil, contava aos filhos que chegou a usar roupas feitas de saco de arroz e, mesmo assim, sempre ergueu a cabeça e encarou de frente os problemas da vida. Após se apaixonar por Antônia Ione Santana da Silva, Santo, o jovem se casou, teve quatro filhos no Paraná e resolveu tentar a vida na Capital de Mato Grosso do Sul, para ficar mais perto das irmãs, que não via há anos.

Em Campo Grande, Santo teve outros quatro filhos com Ione. Mas o que Santo não esperava era se despedir tão cedo da esposa. “Eles tiveram o Raul, Rose, Rosilto e Dinei no Paraná. Aqui em Campo Grande, eles tiveram mais quatro, a Roseli, que chamamos pelo apelido de Lica, Roberto, Roselaine, que tem apelido de Laine, e eu, Reginaldo. Minha mãe faleceu em 1985, ela era uma mulher incomparável, meu pai sempre dizia isso. Ela faleceu quando eu tinha 1 ano e 9 meses, daí as coisas ficaram muito mais difíceis, pois se com ela cuidando dos filhos, organizando e contribuindo com as finanças já não era fácil, imagina sem ela. Meu pai dizia que minha mãe era os dois braços dele. Hoje fico pensando no desespero de um pai, com oito filhos, sendo que o mais velho tinha 17 anos, ficar sem a esposa que era a base da casa, aos 41 anos, sem uma condição financeira estabilizada”, relembra o filho mais novo, o piscineiro Reginaldo Santana, 35 anos.

Na despedida, Santo recebeu uma proposta de ajuda da irmã, para levar os filhos menores, mas recusou. “Uma tia nossa, irmã de papai, disse que ia levar o menor, que era o Naldo, meu pai virou e falou que de casa não saía nenhum dos filhos sem ele no caixão. Mamãe também não iria deixar levar nenhum. Sentimos um medo tão grande de papai distribuir os filhos um para cada lado, mas quando eu ouvi ele falar que dali não saía nenhum, foi um conforto muito grande. Levei o Naldo na beira do caixão para ele ver mamãe, ele acabou falando 'mamãe', aquilo me doeu tanto, foi muito triste. Eu tinha 15 anos quando perdemos minha mãe”, conta a filha Rosemeire.

De acordo com Rose, Santo era um homem sábio e desenvolvia todas as atividades da casa, com o apoio dos filhos. “Ele foi um paizão, foi nosso pai, nossa mãe, ele sabia lavar, cozinhar, sabia fazer tudo. Naldo era pequeno, falava que queria mamar, perguntava da mamãe, aquilo machucava muito. Ele chegou a arrumar uma ou duas namoradas, mas como elas não queriam saber de criança, ele falava que mulher nenhuma valia como os filhos dele. Ele tinha respeito muito grande pela minha mãe, a vida deles não foi fácil, ele sempre teve respeito muito grande, não víamos eles discutindo em casa. Eles tinham cumplicidade muito grande, ele falava que tinha perdido a metade dele”, diz Rose.

Quinta filha por ordem de nascimento, a advogada Roseli Santana da Silva Rocha, 43 anos, relembra que mesmo sendo muito exigente, Santo sabia transmitir o amor que sentia aos filhos. “Eu tinha apenas 10 anos quando perdi minha mãe. Dali em diante, meu pai com 42 anos, viúvo, abraçou a causa sozinho. Homem de pulso forte, sistemático que na verdade só queria o bem dos filhos. Eu cresci tendo grande admiração por ele, na fase escolar, quando precisava de orientação para os deveres de casa, eu o testava, com a tabuada na mão perguntando de trás para frente para ver se realmente ele sabia e, na verdade, ele com sua pouca escolaridade, entendia era de tudo um pouquinho, de história, geografia. Eu, uma menina, já achava seus conhecimentos o máximo".

Roselaine também recorda que reclamava do jeito crítico do pai, mas após ser mãe, compreendeu e viu a verdade em tudo que o pai dizia. “Lembro quando era adolescente e ficava criticando a forma como ele agia conosco, ele não deixava nada, mandava, ameaçava. Ele na maior tranquilidade dizia: 'deixe, minha filha, quando você tiver os seus, faça diferente, faça melhor'. O tempo passou e hoje vejo que ele fez muito mais e muito melhor do que poderia sonhar em fazer. Criou todos bem, para serem donos de suas vidas e responsáveis por suas escolhas. Influencia mesmo hoje tudo que faço em minha vida e tudo que fiz na educação do meu filho, devo muito a ele”.

Saudade é para sempre

Assim como a partida da mãe, os filhos sentiram o mundo desabar novamente, ao ter que se despedir de Seu Santo no dia 28 de maio de 2005. “Quando ele faleceu, aos 60 anos, parecia que um buraco enorme havia se aberto em mim. Parecia que minha família ia acabar, que eu nunca mais sentiria a segurança que sempre senti, desde pequena, quando ele dizia que não trocaria um de nós por nada que houvesse no mundo. Eu era uma criança carente por não ter mãe, mas aquilo me fazia sentir muito importante. Ele esteve lá, em cada momento difícil, como havia prometido, não nos abandonou. Talvez por isso, perdê-lo foi tão difícil. Até hoje, 14 anos depois, sentimos uma saudade imensa. Mas com o tempo percebemos que o que ele passou a vida plantando, havia dado frutos. Mesmo sem sua presença, nós continuamos a ser uma família muito unida, passamos isso aos nossos filhos e vivemos em uma rara harmonia. Não disse que não temos problemas, disse que nos amamos o suficiente para superá-los. E tudo isso, devemos ao seu Santo”, afirma Roselaine.


O mecânico Roberto Santana da Silva , 40 anos, relembra que foi um menino arteiro e, mesmo assim, se tornou um grande amigo do pai. “Ele sempre vai ser meu super paizão, só tenho boas lembranças dele e, por mais que eu fui muito danado quando era pequeno, segundo meus irmãos, eu dei muito trabalho pra ele quando era adolescente, mas depois que passei aquela fase, virei um amigão dele, tanto é que tenho lembrança da gente brincar de briga, eu derrubava ele no chão, ele me dava cada chute, mais claro sem nenhum machucar o outro, era uma brincadeira de pai e filho, uma brincadeira saudável. Eu fui filho deste grande homem, e até hoje, eu nunca ouvi ninguém falar mal do meu pai, que pra sempre vai ser meu super papai. Que Deus abençoe ele e a minha mamãe querida”.

Pai de família, o caçula Reginaldo diz que hoje percebe o quanto o pai foi guerreiro. “Hoje que sou casado e pai, não entendo como ele conseguiu, hoje que tenho a dimensão da força desse super-homem com apelido de Santo, que suportou tanta coisa na vida e não desistiu do certo. Terminou de criar todos os filhos, graças a Deus. Ele completou essa missão incrível, deu o maior exemplo de paternidade que já conheci ou ouvi falar”.

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