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Ciência e Tecnologia

Pesquisadores apontam a existência de 25 jacarés de duas espécies no Lago do Amor

Possível hibridismo das espécies também está sendo investigado

12 setembro 2018 - 14h31Por UFMS

A primeira estimativa oficial de 25 jacarés no Lago do Amor, parte integrante da reserva natural da Cidade Universitária – apontou a existência de duas espécies no local: Caiman latirostris, o jacaré-de-papo-amarelo e o Caiman yacare, o jacaré do Pantanal. Possível hibridismo das espécies também está sendo investigado por pesquisadores e pós-graduandos do Inbio.

Pela pesquisa “Dinâmica populacional de jacarés (Crocodylia, Alligatoridae) e suas interações parasitárias em área urbana”, os pesquisadores querem encontrar respostas para essas e outras questões da ecologia desses animais que vivem e procriam em habitat alterado, já que o Lago do Amor é um reservatório artificial construído a partir do barramento no encontro dos córregos Cabaça e Bandeira.

“Existem vários ambientes dentro da cidade que são impactados, alterados, mas mesmo assim há uma fauna que ainda consegue conviver amistosamente nesses ambientes, caso das capivaras e dos jacarés. No começo, achávamos que havia apenas indivíduos da espécie C. latirostris no Lago do Amor, mas fomos surpreendidos com o yacare, muito comum no Pantanal”, afirma a professora Vanda Lúcia Ferreira, que coordena a pesquisa, em parceria com o professor Fernando Paiva.

O Caiman Latirostris deveria ser, naturalmente, a única espécie de ocorrência na região, por isso, os pesquisadores acreditam na ocorrência acidental da espécie C. yacare. “Existe uma história de soltura de filhotes de animais dessa espécie no Lago do Amor, há mais de 30 anos, mas precisamos confirmar”, expõe a professora.

Com a dificuldade de classificação de alguns animais capturados pelos pesquisadores, por apresentarem  características comuns às duas espécies, “amostras de sangue dos animais foram processadas por técnicas moleculares, pela amplificação parcial do gene COI, indicando processo de hibridização dos indivíduos entre as espécies Caiman latirostris e C. yacare, mas aspectos morfológicos dos animais bem como emprego de outros genes como parâmetros comparativos ainda estão em processo para maior robustez dos dados”, relatam os pesquisadores em relatório também assinado pela acadêmica Bianca Courbassier Simões, do curso de Ciências Biológicas.

Urbanização

Será que a urbanização está interferindo na diversidade desses animais? Essa é outra indagação que levou os pesquisadores a se interessarem pelos animais do quintal. “De alguma forma estão conseguindo habitar e viver ali dentro do Lago do Amor. Nossa proposta é avaliar quais microhabitats os jacarés estão usando naquele lugar, quais são suas características, e se eles teriam ectoparasitos e endoparasitos no sangue”, diz a professora Vanda.

Dessa forma, em 32 campanhas, em um período de oito meses entre 2016/2017, foram capturados, nos períodos diurno e noturno, sete animais para controle e marcação com brinco de numeração, sendo três filhotes e quatro adultos.

Entre os animais capturados, os machos apresentaram comprimento total de 60 cm a 2,15 m e as fêmeas de 63 cm a 1,68 m. Os animais foram pesados, sendo um dos exemplares superior a 50 quilos.

Muitos apresentavam sinas de mutilação, cicatrizes e mordidas por brigarem entre si, sendo os animais da espécie C. latirostris mais agressivos. Mas não foram encontrados animais debilitados.

“Capturávamos esses animais na margem do Lago do Amor e no banco de areia. Imobilizávamos para pesagem e medição e depois fazíamos a coleta dos ectoparasitas, geralmente as sanguessugas que ficam na pele e nos machucados ou na cavidade bucal dos jacarés. Também estamos analisando os parasitas de sangue, que são os hemoparasitas, e para isso fizemos a coleta de cerca de dois ml de sangue dos animais”, diz a professora.

Análise laboratorial apontou que quase 90% apresentavam os parasitas Hepatozoon e mais de 50% possuem Trypanosoma, que podem ter como um dos hospedeiros intermediários as sanguessugas.

“A presença de hemoparasitismo por sanguessugas nos indivíduos indica que são vetores de T. clandestinus, um hemoparasita de clado aquático, confirmando seu segundo registro em crocodilianos. Dessa forma, o diagnóstico de T. clandestinus em C. latirostris configura o primeiro registro para esse hospedeiro”, afirmaram os pesquisadores.

Segundo a professora Vanda, quanto maior a variedade de parasitos tiver o animal, mais saudável ele estará. “Mas quando apresentam só um tipo de parasita e em grande quantidade, não é muito bom. Em geral, eles apresentam os dois, o que é esperado para o animal em ambiente intacto, que não é o caso do Lago do Amor”, explica.

Banho de sol

O estudo mostrou preferência dos animais por áreas de vegetação e solo exposto, principalmente pelo comportamento de termorregulação, por isso buscarem aquecimento ao sol para regularem o metabolismo. “Há uma predileção para o banco de areia, a margem e uma área onde há deságua e muitas macrófitas. A maioria dos filhotes encontramos nesse local, lá não ficam muito à vista a partir da margem”, expõe a pesquisadora.

De oito quadrantes delimitados no Lago pelos pesquisadores, a maior parte dos avistamentos ocorreu no quadrante dois, em área afastada do calçadão de contemplação da Avenida Senador Filinto Muller, pouco avistada a olho nu.

Nesse quadrante, 30% da área são de solo exposto e vereda, 20% de gramínea e aproximadamente 10% de macrófitas e área árborea.

Em uma segunda proposta de investigação, os pesquisadores querem descobrir mais detalhes dos hábitos dos crocodilianos. Saber, por exemplo, do que estão se alimentando entre anfíbios, répteis e pequenos mamíferos, como capivaras filhotes, que vivem no local. Em geral, quando filhotes, os jacarés se alimentam mais de invertebrados e depois, maiores, comem mais vertebrados.

Já houve até registro de cachorro de porte pequeno que acabou sendo abocanhado por jacaré às margens do Lago.

Os pesquisadores também querem descobrir o ciclo dos parasitas, sejam sanguessugas ou até pernilongos.

Aparentemente, a coleta de filhotes demonstra que habitat está tranquilo, já que estão procriando. “Mas não sabemos se estão se reproduzindo do tamanho certo, na época certa, nas condições similares as populações naturais. Não sabemos se são residentes ou não, se estão em deslocamento. São perguntas ainda a responder”.

A professora Vanda explica que os animais do Lago são mais ariscos que os do Pantanal, talvez pelo fato de as pessoas jogarem objetos neles, de forma a provocar o movimento do animal. “Isso faz com que ele associe o homem a serem judiados. Aqui as pessoas querem cutucar, mexer, infelizmente o homem não observa apenas. No Pantanal, associam o homem à comida, porque muitos pescam e jogam o pescado para eles”, diz.

O futuro desses jacarés no local também depende do futuro do Lago do Amor, que vem enfrentando assoreamento, monitorado pela UFMS desde 2002.

De acordo com levantamento realizado pelo professor Teodorico Alves Sobrinho (Faeng), “o local de maior redução das margens é onde deságua o córrego Bandeira. A bacia desse córrego possui ações de loteamento e implantação de vias urbanas mais recentes. Verifica-se nessa urbanização pouca preocupação com respeito aos aspectos conservacionistas de solo, por meio do traçado das ruas e pela inexistência de estruturas de contenção de águas superficiais. O problema nasce fora dos limites da Universidade. Ou seja, sedimento não nasce no Lago e sim vem de áreas a montante”.

A professora Vanda alerta que “se for feito desassoreamento do Lago, será preciso planejar antecipadamente como remanejar os animais”.