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Promissor: setor de alimentos saudáveis cresce 80% em MS

No Estado, o setor está em desenvolvimento; No país, movimenta US$ 85 bilhões

27 OUT 2016
Rodson Lima
14h05min
A empresa Bio Frutas apostou neste setor há quatro anos. Foto: Geovanni Gomes

Elisangela Souza dos Santos, de 39 anos, há sete meses iniciou um processo que transformaria a sua vida. A estudante de direito enfrentou o medo e passou por um procedimento de redução de estômago ao fazer uma cirurgia bariátrica. Durante o pré e pós-operatório, a estudante fez a reeducação alimentar prescrita por sua nutricionista, à base de produtos naturais. O resultado? Conseguiu emagrecer 42 quilos. 

O fato de consumir produtos naturais desde o início foi fundamental para que obtivesse o resultado desejado após a cirurgia. "Com o auxílio da nutricionista, segui o cardápio com os alimentos naturais, tudo para que eu pudesse ir me adaptando à minha nova vida e alcançasse esse resultado. Agora me sinto mais feliz e com uma vida mais saudável", pontua a estudante. 


A estudante de Direito, Elisangela Souza, antes e pós a cirurgia bariátrica. Foto: Reprodução Facebook. 

Assim como Elisangela, muitos brasileiros têm procurado diariamente uma alimentação mais saudável. Apesar da crise, é justamente este mercado, dentro do setor da indústria de alimentos e bebidas, que se mostrou mais promissor e crescente no país. Só em 2014, movimentou quase US$ 35 bilhões, conforme a consultoria da Euromonitor. Ela ainda colocou o Brasil na 4ª posição entre os países com produtos industrializados saudáveis, incluindo orgânicos.

Em Mato Grosso do Sul, esta indústria está em processo de desenvolvimento, mas já despertou o interesse de empresários estrangeiros. Uma comissão formada por representantes de distribuidores do Chile e Paraguai sinalizaram interesses nos produtos fabricados aqui. E, devido à posição estratégica do Estado, pode potencializar a efetivação do negócio com os países vizinhos. 

"O fato de virem distribuidores de outros países aqui é porque os nossos produtos têm qualidade. E acredito que essa é uma possibilidade [de exportação]. Com o dólar alto significa que os nossos produtos estão mais barato, certamente, eles já pesquisaram preço e vieram até aqui para conferir. A procura deles foi bastante neste setor de alimentos funcionais e saudáveis", afirma Sandro Mendonça, de 45 anos, presidente do Sindicato das Indústrias da Alimentação do Estado de Mato Grosso do Sul (Siams) e proprietário da Natubom.


Presidente da Siams, Sandro Mendonça. Foto: Geovanni Gomes. 

Considerando o momento que o país vive, de recessão financeira e com bancos mais seguros, este é o momento para investir neste setor. É o que destaca Sandro. "É um novo canal de vendas que requer uma gestão estratégica. Este mercado, que está em crescimento apesar das dificuldades, cresce não em volume, mas sim em área. Hoje as pessoas querem comer melhor para ter um modo de vida. Então, esse consumidor é diferente, olha a tabela nutricional, tipo de gordura e se há conservantes. É um consumidor diferenciado. Em 10 anos, este mercado tem crescido 80%, sendo mais 10% de crescimento real diante do consumo. Então, criou-se a cultura do produto natural, algo que não existia aqui". 

Conforme dados do Siams, a indústria de alimentos e bebidas de Mato Grosso do Sul projeta crescimento de até 1% em 2016. Em uma comparação com o ano anterior, o setor de maneira geral, tem aumentando o valor da produção de R$ 2,23 bilhões para R$ 2,25 bilhões. O segmento no Estado segue esperançoso e prevê a manutenção do cenário de crescimento, apesar da crise, e também garante a geração de emprego. 

Aposta no mercado

A Bio Frutas Orgânicos apostou há quatro anos neste setor. De Campo Grande, a indústria se especializou em sucos naturais orgânicos que comercializa na Capital de Mato Grosso do Sul e mais três estados: São Paulo, Paraná e Mato Grosso. "O orgânico, é um produto diferenciado. Há todo um cuidado que vem desde a roça, passa pela empresa, até chegar ao consumidor final. Ele não contém nenhum tipo de química ou agrotóxico. E, por essa razão, chega ao consumidor com um preço diferenciado também", explica o encarregado do setor de produção da indústria, Eraclio Cristo do Espírito Santo, de 33 anos, que há um ano trabalha na empresa.

Cris, como é conhecido, explica que a empresa utiliza como matéria-prima frutas bem conhecidas e encontradas em nossa região. "Nós utilizamos maracujá, abacaxi e o limão como matéria-prima. Agora, em dezembro, a safra é do abacaxi. Todo o processo ocorre da seguinte forma: o produto chega, é lavado, depois pasteurizado, passa por um resfriamento e é envazado, isso resumindo a dinâmica. Daí é enviado para o consumo final. Tudo sem agrotóxicos ou conservantes e os ciclos das frutas são respeitados". 

Cris, da Empresa Bio Frutas, no processo de sucos orgânicos. Foto: Geovanni Gomes. 

Porém, para que empresa tivesse acesso a essa matéria-prima, a Bio Frutas precisou criar uma cadeia de produção para que hoje pudesse fabricar os seus produtos na linha orgânica. "Esse trabalho começou há quatro anos até que se concretizasse essa ideia. Porém, foi necessário fomentar a produção de frutas orgânicas no Estado. E como nós fizemos isso? Começamos com uma produção própria de abacaxi e limão em nossa fazenda. Mas ainda assim, não era suficiente. Então, por meio de comodato, fizemos parcerias com assentamentos ligados à Agricultura Familiar. Fornecemos as sementes, ajudamos na certificação e, em troca, garantimos a compra da produção deles", explica o gerente de vendas Carlos Sabião, de 40 anos.

Hoje a empresa possui parceiros em diversos locais, na Fazenda Itamarati e em assentamentos como: Anhanduí, distrito de Campo Grande e nos municípios de Terenos e Bandeirantes. "Hoje nós temos o fomento produtivo de maracujá orgânico, que não tínhamos no Estado, e a nossa produção de limão e abacaxi. De uma sala pequena de 72 m², recebemos em fevereiro, o certificado para o novo espaço, de 1000 m², com 700 m² de área construída. Isso foi muito bom. Hoje temos 10 funcionários e, na safra, contratamos mais. Hoje atendemos 70 famílias que, em um cálculo rápido, chegamos a 250 pessoas atingidas indiretamente pela nossa empresa. Além disso, 95% dos resíduos são reaproveitados para óleos e adubos. Neste espaço, ainda reciclamos a água da chuva", comemora Marcos.

Outra aposta foi a empresa Alimentos Vó Erminia, há 21 anos no mercado, que agora atua no ramo de produtos saudáveis. Ela atende todo o Estado e mais quatro: Rondônia, São Paulo, Mato Grosso e Paraná. Gabriel Ferreira Galvanini, de 25 anos, conta que a companhia possui um mix de produtos que vai desde conservas, temperos e produção de farofas. No entanto, pensando no bem-estar das pessoas, a empresa utiliza o mínimo de conservantes. "Desde o começo da empresa, sempre pensamos em não usar conservantes, minha mãe nunca gostou e a gente se preocupa com a saúde das pessoas. Queira ou não, se você coloca um monte de conservante, aumenta a taxa de câncer e não queremos isso. Então, como temos duas linhas, utilizamos muito pouco em uma e na outra não".

Empresa Alimentos Vó Erminia, há 21 anos no mercado. Foto: Geovanni Gomes. 

O jovem conta que a empresa, por se especializar na área, teve um excelente aceite no mercado. "Nós entramos nesse mercado que está crescendo. Dobramos os nossos pedidos. Procuramos sempre trabalhar com produtos de alta qualidade, mas às vezes, nem sempre temos preço competitivo por ele ser diferenciado. Você, às vezes, não deixa de comprar o tempero, que é o nosso forte, mas deixa, por exemplo, de comprar um tomate seco. É um setor que, mesmo com a crise, está muito bom. Nos últimos dois anos, nós dobramos o nosso crescimento". 
 
O comércio

Com produtos encontrados mais facilmente, a Bio Frutas, por exemplo, tem clientes diversificados que preferem o produto por ser mais natural. "Nós fornecemos para rede de hipermercado e supermercado em Campo Grande. Além deles, ainda atendemos hotéis e principalmente, academias, que sempre procuram o produto por ser orgânico", relata Cris. 

No entanto, o preço ainda é a principal barreira para o setor, devido ao produto não ser de massa e não ter um preço acessível. Este foi um ponto destacado por Elisangela, que neste momento, encontra-se desemprega. "Esses produtos são caros, mas podem nos proporcionar um bem-estar. Um pouco que consumo, sei que é o suficiente para ficar saciada. Fora que um alimento mais saudável, muda a pele e você fica mais bonita, come sem medo e sei que não vai pesar no estômago". 


Bio Frutas. Foto Geovanni Gomes. 

Mas para que o produto fique mais acessível é necessário investimento e inovação no setor. De acordo com o Sandro Mendonça, no caso dos filiados a Siams, todos estão ligados à Federação das Indústrias do Mato Grosso do Sul (Fiems). Por essa razão, dispõem do Sistema 'S' (Sesi-Senai). "O Senai tem um centro de referência em Dourados. Com investimento, lá é possível desenvolver inovação e tecnologia. Claro, que tudo a um custo considerável, por exemplo, para lançamento de uma nova marca. Mas devido à crise, pouquíssimos empresários estão com dinheiro na mão", comenta. 

O desafio, segundo Sandro, por o setor estar em crescimento, ainda não há equipamentos e é necessário criá-los. O empresário ainda afirma que faltam incentivos fiscais por parte da prefeitura e Governo do Estado para turbinar o setor.


Bio Frutas. Foto: Geovanni Gomes. 

Para Dharleng Campos, secretária da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, Turismo, Ciência e Tecnologia e Agronegócio (Sedesc), o prefeito Alcides Bernal, do PP, determinou desde 2013, que o município trabalhasse com as micro e pequenas empresas, no sentido de promover o desenvolvimento econômico e a geração de renda. 

"Quando retornamos, reativamos as quatro incubadoras que estavam abandonadas. Mas foi por meio delas, que nós conseguimos auxiliar os pequenos empresários. Pela incubadora do setor de alimentos, conseguimos ajudar a Broto Frutos, da Rosinha, que trabalha com produtos Fit. Com o nosso apoio e da incubadora, ela participou de feiras dentro e fora do Brasil, e agora exporta produtos do cerrado para a Alemanha", conta.

Além disso, Dharleng explica que a secretaria ajuda o micro empresário e a agricultura familiar. "Esse é outro setor que ajudamos, mas nós entramos para impedir que atravessadores tirassem proveito dos agricultores. Eles compravam mais barato e colocavam o produto deles no mercado a preço maior, então trabalhamos neste sentido, valorizando os nossos empresários e pequenos agricultores".

Dharleng Campos, secretária da Sedesc. Foto: Geovanni Gomes. 

A prefeitura ainda conta com uma feira de orgânicos todas as quartas-feiras na Igreja Perpétuo Socorro e tem um polo orgânico no Indubrasil. Os produtos ainda são incorporados na merenda da Rede Municipal de Ensino. "Nós procuramos utilizar esses produtos da Agricultura Familiar na merenda escolar. Hoje, há uma Lei Federal que exige 30% da alimentação venha deste setor e é o que nós estamos fazendo", finaliza. 

Por fim, a secretária destaca que, por conta das crises na administração, a prefeitura não conseguiu investir em inovação, mas que a Sedesc tem parceria com universidades e participa de feiras dentro e fora do país, além de contar com o convênio do Senai. “Hoje, a tecnologia que existe nas incubadoras foi doada pela prefeitura, mas é claro que a gente tem a consciência que precisamos de muito mais", finaliza.

A empresa Bio Frutas apostou neste setor há quatro anos.
A empresa Bio Frutas apostou neste setor há quatro anos. / Geovanni Gomes
A empresa Bio Frutas apostou neste setor há quatro anos.Vó Erminia - Produção de conserva.Vó Erminia - Produção de conserva.Vó Erminia - Produção de conserva.Diretor da Vó Erminia, Gabriel Ferreira.Produtos Vó Erminia.Bio Frutas.Bio Frutas.Bio Frutas.Bio Frutas.Bio Frutas.Gerente de vendas, da Bio Frutas - Carlos Sabião.Bio Frutas.Secretária da Sedesc - Dharleng Campos.Elisangela antes e depois da bariátrica.

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