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Apesar do Alzheimer, Alayde comemora 100 anos com marcas que a doença não apaga

Alayde criou uma mega família com a venda de farinha, rapadura, da lavagem de roupas para fora e da costura

12 outubro 2019 - 13h30Por Dany Nascimento

Ela é mãe de 12 filhos, onze de sangue e um adotivo e foi através da venda de farinha, rapadura, da lavagem de roupas para fora e da costura que Alayde da Silva Nantes formou sua família em Campo Grande. A idosa, apontada como guerreira pelos membros da família, assopra sua centésima velinha de aniversário neste sábado (12).

Segundo a família Nantes, Alayde herdou a profissão de parteira da avó e ajudou muitos netos a chegarem ao mundo. Ela é avó de 45 netos, 75 bisnetos e tem 50 tataranetos. Pena que as memórias de Dona Alayde atualmente foram prejudicadas pelo Alzheimer (doença incurável que causa perda das funções cognitivas como memória, orientação, atenção e linguagem).

A professora Alayde Nantes Ferreira, de 36 anos, é a neta que herdou o nome da avó e diz que ela sempre foi uma pessoa muito presente. “A doença levou as memórias dela, mas em nossos corações elas estão marcadas para sempre. Eu ainda carrego o seu nome e me orgulho muito desse privilégio, confesso que já tive vergonha na época de adolescência por ser um nome diferente, mas hoje adoro meu nome".

"Tenho muitas recordações da minha vó, o sabor da sua comida, simples e saborosa, só de falar sinto até o gosto.  Ela sempre foi muito vaidosa, lembro dela sempre perfumada e maquiada, sempre linda para ir ao baile. Minha vó é uma mulher guerreira, de fibra, sempre foi nossa base, sempre amiga e um grande exemplo para todos ao seu redor. O sentimento de comemorar os 100 anos de minha vó se resume em gratidão e amo”, completa.

A filha, Oneide Nantes Ferreira, 69 anos, destaca que a mãe sempre foi o esteio da casa e tinha os filhos como braço direito. “Sempre foi muito acolhedora minha mãe, sempre feliz trabalhando. Meu pai só vivia para as fazendas dos outros, só vinha para Campo Grande a passeio, ficava uns três, quatro dias, já voltava. Ela que é o esteio da casa, na fazenda a mesma coisa, era no engenho, era no mangueiro, e nós éramos o braço direito dela.  A casa da minha mãe era igual um pensionato, os sobrinhos dela vieram estudar e moravam na casa dela, filhos do tio Irineu, Nereu, Onézio. Os sobrinhos que moravam aqui estavam sempre reunidos lá, musica tocava o dia todo, ela amava música”.

O neto Lúcio Flávio Barbosa Nantes Coelho, 32 anos, ainda sente falta do mingau preparado pelas mãos de dona Alayde. “Tenho várias lembranças da minha avó, quando criança ela sempre me mimou como qualquer avó, ela te fazia comer algo, pão, bolacha, suco, não podia recusar. Eu tinha um prato da discórdia (risos), que era só meu, quando alguém comia nele, dava briga, um prato que era bem mais velho que eu, esmaltado e pintado de branco, tinha um menino desenhado. O que eu mais gostava, era quando ela fazia mingau, e quando ela achava que você estava fraquinho, já vinha com uma gemada. E quem dos netos não ajudou ela enrolar as pílulas de babosa? Era muito chato, mas fazíamos. Eu sempre tomava um sustão quando ela estava lavando calça, era cada batida com a calça no tanque, que parecia tiro. Não sei como o tanque não quebrou, falando em tanque, esse foi minha primeira piscina”.

De acordo com Lúcio, até os 88 anos Dona Alayde era lúcida e arriscava uns passinhos de dança, com aquela velha cervejinha. “Ela dançava e tomava uma cervejinha comigo, mas gostava mais de vinho. Agradeço a Deus por ela não ter envelhecido com dor”.

Com alegria no coração, os familiares comemoram 100 anos de Alayde relembrando a importância que ela sempre teve para todos.  “Ela sempre foi carinhosa, prestativa, ajudava os filhos. Eu quero ser igual a minha mãe foi, ajudava filhos, sobrinhos, cunhadas. Ela ajudava em tudo, cuidava das pessoas, ela era doula, parteira, pessoa que ajudava todo mundo”, afirma a filha Marina Nantes.