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Cooperativa mudou a vida de pequenos produtores e é reconhecida pela ONU

11 setembro 2015 - 08h50Por Amanda Amaral

A união tem feito a diferença na capacidade produtiva, comercial e social de famílias que têm seu sustento baseado no trabalho no campo em uma região rural de Mato Grosso do Sul. Na última semana, o trabalho de uma cooperativa localizada em Terenos – a 32 km de Campo Grande – recebeu o selo do Movimento Nacional pela Cidadania e Solidariedade da ONU (Organização das Nações Unidas).

O reconhecimento foi dado à Cooplaf (Cooperativa de Leite da Agricultura Familiar), pois os trabalhadores atingiram os oito objetivos definidos pelo órgão internacional para mudar o mundo. Entre eles, estão: acabar com a fome e a miséria; igualdade entre sexo e valorização da mulher; reduzir a mortalidade infantil; qualidade de vida e respeito ao meio ambiente e o trabalho pelo desenvolvimento. 

A cooperativa, que existe há apenas dois anos e já compreende um grupo de 387 produtores, foi a primeira no Estado a firmar o termo de cooperação com a ONU, assinado durante 3ª edição da Bienal dos Negócios da Agricultura Brasil Central, na Capital. Desde sua criação, que iniciou com 40 cooperados, tem auxiliado os moradores da região a estabelecerem um produto competitivo e consolidado no mercado, através de cursos de capacitação, aumento do acesso ao crédito e estratégias de comercialização, para quem antes possuía pequeno ou nenhum poder de barganha.

 Foto: Deivid Correia

Guardião dos objetivos da ONU no Estado, Nilton Giraldelli conta que o reconhecimento serve como um estímulo e referência para que o trabalho já desenvolvido cresça ainda mais e alcance o maior número possível de famílias. “A Organização vê com ótimos olhos o associativismo e a cooperação entre os trabalhadores, ou seja, a atividade humana colaborativa em todas as áreas, mas especialmente em regiões mais pobres”, diz.

“Temos um movimento nacional que está levantando esses trabalhos nas grandes e pequenas cidades, reconhecendo essas pessoas que lutam por um futuro melhor sem saber a enorme contribuição que fazem para o mundo, como foi observado em Terenos”, resume Raquel Ferraro, representante da ONU em Mato Grosso do Sul.

O presidente da cooperativa, Maycon Queiroz, conta que o selo confirma o compromisso com um trabalho de qualidade, que tende a crescer e ir contra os índices da crise econômica do país. “Estamos muito felizes, receber isso é um privilégio, nos mostra que estamos no caminho certo. Os próximos passos vão ter mais firmeza a partir de agora”, avalia.

Os protagonistas do desenvolvimento

A união foi fator determinante para os resultados bem sucedidos, como a parceria com profissionais do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar-MS), que ajudam no estudo da viabilidade do negócio e colaboram para o relacionamento do produtor com o mercado. Além disso, a cooperativa dispõe de profissionais que realizam orientação veterinária, que ajudam na gestão da propriedade e na produtividade. No total, são sete técnicos, que realizam visitas mensais nessas propriedades.

 Foto: Deivid Correia

Acontece que nem todo mundo reflete sobre o caminho em que o alimento percorre até chegar em nossas mesas, nem sobre as histórias de vida por trás de todo esse processo. Muito antes de serem colocados em embalagens e sacolinhas plásticas, esses produtos estiveram sob cuidados de quem trabalha com muito cuidado e dedicação na terra, no campo, sob o sol e chuva. Pessoas que, com a chegada da cooperativa, conseguiram aumentar a renda média familiar de R$ 500 para, ao menos, R$ 1.500.

  

Hoje, a Cooplaf abrange os assentamentos Santa Mônica, Patagônia, Nova Querência, Campo Verde, Paraíso, Assafour, Nova Canaã, Guaicurus e contempla moradores de mais seis municípios próximos. Além da produção de leite e hortifrúti, o trabalho começa a ser desenvolvido também na pecuária de corte. O sucesso das experiências mostra que o planejamento coletivo é essencial para o desenvolvimento da região, já que as vilas no entorno ganharam esperança e um ritmo de crescimento positivo, com escolas, postos de saúde, mercearias, farmácias e lojas de vestuário, por exemplo.

  

Quem vive por lá conta que só sai mesmo para fazer tarefas essenciais, como exames médicos mais complexos e procedimentos em bancos. “Vamos pra Campo Grande uma vez por mês, no máximo. Não tem porquê sair, aqui a gente vive bem e cada vez melhor”, diz Gilda Batista de Souza, 43 anos. Há poucas semanas, ela começou a frequentar as palestras do Senar na sede da cooperativa, por incentivo da sogra, depois que o esposo ficou doente e não pôde mais contribuir na renda familiar. “Ela conseguiu melhorar de vida dignamente, já ampliou a chácara. Quero tentar ampliar minha plantação de abóbora, me profissionalizar”, diz. “Somos todos capazes, cada um com seu ramo, crescendo juntos”, completa a cooperada Érica Bento da Silva, 33 anos.

Foto: Deivid Correia

  

Um dos agentes de comercialização da cooperativa, Wilki Richard Almeida, 32 anos, cresceu na região e sempre enxergou a capacidade da terra e vontade de trabalho nas pessoas, mas lamentava a falta de oportunidade. “Fico feliz em ajudar, colaborar para essas conquistas. Antes, tinha muito produtor que fazia a venda 'por conta', mas acabava levando prejuízo, sendo enganado", conta. Agora, o mercado olha de um jeito diferente para o profissional local, considera Wilki, que diz ainda que o preço do hortifrúti dobrou de valor nos últimos cinco meses.

  

Entre os produtos fornecidos estão agrião, abóbora paulista, jiló, mandioca, berinjela, milho, pimentão, pepino comum e japonês, quiabo, alface crespa, limão e rúcula, que são diariamente encaminhados ao Ceasa de Campo Grande e ao grupo Fort Atacadista de supermercados.

Foto: Deivid Correia

 

Em relação à produção leiteira, o agente conta que, no início, eram produzidos cerca de 130 mil litros de leite por mês, número que já avança para 300 mil no período da entressafra e, na safra, pode chegar até 500 mil litros. Esse volume é encaminhado às indústrias processadoras antes de ser comercializado.

  

Cada membro da família é um degrau

  

Desde o início envolvida com a cooperativa e hoje coordenadora do escritório, Maria Nelzina Garcia, 26 anos, conta que muita gente tem vindo de outras cidades para viver no campo em busca de melhores condições de vida, quando antes o caminho era tomado inversamente. “As pessoas conseguem agora enxergar boas oportunidades e uma qualidade de vida diferente, acabam largando o emprego pra tentar começar do zero na produção, principalmente quando veem as histórias das famílias que vivem bem aqui depois da chegada da cooperativa”, conta.

Foto: Deivid Correia 

Com a possibilidade de garantir seu espaço e trabalho digno por ali, muitos também preferiram permanecer a ir embora para a cidade, como é o caso do irmão de Maria Nelzina, Odair da Silva Garcia, de 23 anos, mais conhecido como Lennon, Beatle ídolo da família. “O cartório não deixou meu pai registrar John Lennon, mas sempre me chamaram assim”, explica o jovem, que desde muito novo ajuda na lida da produção de leite na propriedade da família.  

  

Maria conta que a oportunidade de estudo dos três irmãos foi o que começou a trazer diferença para a realidade da família. Ela se formou no curso de pedagogia, em Terenos, e Lennon concluiu um curso de inseminação animal. Juntando o conhecimento escolar com a experiência do pai, José Garcia, de 60 anos, conseguiram fazer crescer a prosperidade da família. O único irmão que decidiu ir buscar oportunidades na Capital hoje trabalha como mecânico.

Foto: Deivid Correia  

O senhor José, que foi um dos primeiros cooperados, conta que comprou a propriedade em 1998, quando se mudou para lá com os filhos pequenos e a esposa, mas durante muitos anos trabalhou como funcionário de outras fazendas. Começou com apenas uma vaca, que teve de vender para conseguir comprar materiais para fazer a cerca. “Eu acordava três horas da madrugada pra ir trabalhar pros outros, trabalhava de dia para comer de noite. No começo foi muito difícil, muito duro, aqui antes era só um matagal alto e sujo. Hoje, o trabalho é de segunda a segunda, mas já temos 28 vacas leiteiras e tem chance de crescer ainda mais”, resume a sua própria trajetória.

Agora, a família se prepara para começar a lidar também com a produção e venda de abóbora, melancia e batata doce. “De um ano pra cá, a gente cresceu muito, aprendeu muito, mudou o que era feito errado, por falta de conhecimento”, conta Lennon. Segundo o pai, as famílias vizinhas têm uma convivência muito próxima e colaborativa, “se eu preciso de uma ajuda com algo que não sei, chamo o amigo do lado que sabe, e ele pode me chamar pra eu ajudar também. Somos uma grande comunidade”.