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Especiais

Na cidade, os índios tem que se adaptar ao ‘tempo do branco

29 novembro 2015 - 12h01Por Izabela Sanchez

Enquanto fazia os serviços na fábrica, Oidi reparava nos detalhes. O ritmo, a ordem, a produção. Bem cedo os trabalhadores entram. Todos realizam as funções coordenados, e o tempo é a moeda. Horário para almoçar, horário para sair. Chegar em casa, jantar com a esposa e os filhos. Nenhuma convivência com os vizinhos. Vizinhos que às vezes nem sabem que eles existem. Assim é a vida da comunidade indígena na InduBrasil, o complexo industrial de Campo Grande.

Essa é a segunda matéria da série “Aldeias urbanas: histórias do êxodo rural indígena”.

O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), afirma que mais da metade da população indígena do Brasil mora em áreas urbanas. Mato Grosso do Sul tem a segunda maior população indígena do país, estimada em 72.237 pessoas. Em Campo Grande a média de pessoas indígenas é 10.000, número que os próprios indígenas que moram na capital afirmam ser muito abaixo da realidade.

Em Campo Grande são quatro aldeias urbanas instituídas pelo poder público e resultado da luta de ocupação: Marçal de Souza, que fica no bairro Tiradentes e foi a primeira a ser fundada em 1995; Água Bonita, no bairro Vida Nova III, fundada em 2001; Tarsila do Amaral, também no bairro Vida Nova III, fundada em 2007 e Darcy Ribeiro, no bairro Noroeste, fundada em 2007. Outras comunidades existem na capital, como a do complexo industrial, onde Oidi é liderança. O Terena, que nunca foi de família de caciques, é a pessoa que une cerca de 200 famílias indígenas na comunidade, onde eles vivem em meio “aos brancos” em casas alugadas e reivindicam uma aldeia urbana.

                  Crianças em um assentamento na aldeia urbana Água Bonita (foto: Geovanni Gomes)

Mas os indígenas também estão em outros bairros periféricos, nas estradas e nos assentamentos. Seja na terra tradicional, nas estradas ou na cidade, as condições são sempre à margem.


Terras reduzidas, ausência de educação e de saúde

Oidi saiu da aldeia Lagoinha, na terra indígena em Taunay, distrito da cidade de Aquidauana. A história de Oidi é a mesma de Enio e de todos os indígenas que deixam a terra em direção à cidade: pouca terra, muitas famílias, falta escola e falta saúde.

“Quando a gente vem pra cá, a gente não vem porque a gente quer vir pra cidade. A gente vem pra cidade pra gente trabalhar, condições pros filhos. A questão da saúde é pouca coisa, não tem médico. Tinha que sair pra cidade de Aquidauana ou aqui em Campo Grande. Agora tem posto indígena lá, mas não sei o que está acontecendo, está saindo muita morte de pessoas lá, isso que está acontecendo né, a parte de criança a mesma coisa”, conta ele.

Dados do Ministério da saúde apontam que nas 77 aldeias no estado, existem somente 39 médicos, e a taxa de mortalidade infantil é de 27,8 (óbitos de menores de um ano, por mil nascidos vivos, em 2013). Além disso, os índices de suicídio de Mato Grosso do Sul são disparados em comparação com diversos países, e no ano de 2013 registrou a maior taxa em 28 anos.


Trabalho e servidão

Oidi conta que há muito tempo que a lógica de trabalho que existe nas cidades entrou nas aldeias. Os Terenas são agricultores tradicionais, mas a sobrevivência pela terra já não é mais a mesma. Os motivos são diversos. Pouca terra para muitas famílias, terra empobrecida e dificuldade de competir com as grandes redes de supermercados são só alguns dos motivos que fazem com que muitos indígenas trabalhem para os outros, ao invés de sobreviver da produção da terra.

“Lá nós cultivávamos mandioca, arroz... mas não dá nada de arroz mais. A terra está muito fraca. A gente fazia trabalhos de farinha, de rapadura e muitos não estão fazendo mais, eu não sei o que está acontecendo. E tem que trabalhar na roça, o serviço é pra fora, corte de cana, indústria. Hoje o pessoal lá está indo para o Rio Grande do Sul. Eu acho que precisa que o governo faz um tipo de um trabalho lá na nossa área, para o pessoal não ter que sair dali. É muito difícil a situação nossa”.

É uma lógica que existe desde a colonização do Brasil. Pessoas “de fora” tomam a terra, empobrecem a terra com a extração e depois com agrotóxicos, gado e monoculturas. Tornam-se grandes fazendeiros, empresários e representantes políticos. Detentores de diversos meios de produção passam, então a “empregar” os indígenas que perderam seu território.

“Trabalhei com obras, construção civil. Tive que aprender se não, não competia no mercado. Mas é melhor. Lá você vive a vontade, aqui o que você tem não é seu. Tudo que você produz na aldeia é seu. A gente tem que adaptar na cultura do branco. E até hoje acho que não encaixou direito. A cultura do branco é... desculpe falar, ela tem outro modo, às vezes, ela força a gente a fazer como quer”.

        Gerações terena: Enio e o neto, aprendendo a "se encaixar" na cultura do branco (foto: Geovanni Gomes)

Enio Terena, da aldeia Marçal de Souza mostra que não é preciso ser especialista em história ou antropologia para entender questões às vezes tão complexas. É o poema “Erro de português” de Oswald de Andrade: Quando o português chegou/ Debaixo duma bruta chuva/ Vestiu o índio/ Que pena!/ Fosse uma manhã de sol/ O índio tinha despido/O português. Indígenas tiveram que sobreviver na cultura de servidão, lógica justificada, ainda hoje, pela “superioridade” da cultura ocidental.

É o tempo do branco, como chamou Oidi. Tempo de rapidez, produção e consumo.

“Indígena é outro sistema, a gente... eu não sei como explicar né. O branco tem uma mentalidade rápida né, que a gente, que é mais, mais devagar né. A gente está procurando ser mais rápido, ágil agora né? Nós estamos aqui e temos que nos acostumar com a maneira de viver”.