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Sem muita conversa, indígenas preservam suas raízes no Mercadão

12 março 2016 - 14h25Por Kamila Alcântara

De poucas palavras para estranhos. Essa é a melhor definição para as indígenas que trabalham na antiga Praça Oshiro Takimori, que é quase uma extensão do Mercadão Municipal de Campo Grande. A escultura da índia de barro “marca o território”, além dos enormes palmitos guariroba, milho e outros produtos tirados da terra da forma mais natural.

Quando uma pessoa estranha se aproxima, sem querer comprar, os olhares são desconfiados, mas logo surge a figura de Vanda Albuquerque. Aos seus 48 anos, traços fortes e sotaque indígena inconfundível, ela aceita o convite da conversa e, com uma simpatia tímida, conta a sua história de vida.

“Minha mãe era feirante, né? Eu cresci com ela fazendo feira e acabei me acostumando com isso. Foi quando sai lá da Cachoeirinha, em Miranda, e me mudei para a Marçal de Souza, a Aldeia Urbana. Criei meus dois filhos e netos assim, porque enquanto eles estudavam e faziam curso, eu trabalhava. Hoje eles são tudo formados, igual os filhos dos outros feirantes”, resumiu a parte familiar.

O sorriso é tímido e com paciência ela conta a variedade de produtos oferidos nas três bancas

Trabalhando no Mercadão há mais de 20 anos, ela explica como são organizados os produtos para venda, que de tão naturais e de cores vivas, chamam a atenção de quem passa. “A gente pega as coisas na aldeia e traz para cá, tudo da terra. Só nas épocas que não tem nada é que precisamos comprar para não deixar a banca vazia. Nós vendemos bem para os campo-grandenses o milho, guavira quando tem, manda no mês de outubro, pequi em janeiro... Eles e os turistas sabem que não tem veneno [agrotóxicos], aí gostam de comprar”, garante.

Para quem vive na região, é uma incógnita como os índios chegaram aquela praça e começaram a vender suas “iguarias” naturais. Mas a história, contada pelos comerciantes mais antigos do Mercadão, diz que eles apareceram na época em que a estrutura do mercado ainda estava em construção e ali era como uma feira livre na beira dos trilhos do trem, onde os fazendeiros desembarcavam para buscar os mantimentos de casa.

“Quem vive lá na aldeia só sobrevive da terra, do que planta. Alguns vendem em Miranda, mas a cidade é pequena e o lucro é pouco. Quem vive lá não consegue acostumar a viver aqui na cidade”, afirmou Vanda.

Com semblante abatido, talvez sofrido, a dona Filesbina Venâncio, 75 anos, só se lembra dos momentos difíceis que passou no local, antes de ser fechado por grades e vigiado por uma empresa terceirizada. “Não sei desde quando eu tô aqui, faz muito tempo. A vida da gente é muito sofrida e trabalhar aqui não foi fácil, por conta dos malandros... nem dormíamos direito”.

Desconfiada, dona Filesbina conversava e descascava milhos para a banca 

Mãe de quatro filhos, um deles já morreu, Filesbina concluiu a conversa arisca, dizendo que mora na aldeia Bananal, em Aquidauana. “Eu só paro aqui, pouso só para trabalhar, mas a minha casa e meus filhos estão na aldeia”, disse.

Reforma

A primeira grande reforma do Mercadão foi em 2006 com um estacionamento mais amplo, instalação de luminárias, internas e externas, além de uma pintura nova. A segunda etapa realizada entre 2013 e o ano passado, a revitalização recebeu investimento mais de R$ 800 mil dos quais R$ 700 mil foram  de verba federal. O dinheiro foi direcionado para troca do piso da década de 1950.