A investigação que deu origem à Operação Infiltrados aponta que policiais e traficantes mantinham uma relação muito próxima desde pelo menos 2021 em Mato Grosso do Sul. Segundo apurado pela reportagem, drogas apreendidas em ocorrências teriam sido retiradas por agentes de segurança e posteriormente devolvidas a integrantes do tráfico.
A operação foi deflagrada nesta quinta-feira (24) pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado), em conjunto com as corregedorias das polícias Civil e Militar. Ao todo, foram expedidos 24 mandados de prisão preventiva, além de ordens de busca e apreensão.
Entre os investigados estão policiais civis e militares e pessoas apontadas como integrantes ou próximas de grupos criminosos.
Entre os traficantes citados até o momento na investigação estão Lucas da Silva dos Santos, conhecido como LK, e os irmãos Edmilson Santos Pereira e Itamar dos Santos Pereira. Edmilson seria um dos chefes de uma facção ligada ao PCC (Primeiro Comando da Capital).
Traficante fez pagamentos a policiais no começo do esquema
Segundo a apuração, em 2021, LK foi levado para a Denar (Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico) por suspeita de desobediência e desacato. Na ocasião, não houve apreensão de drogas. Depois disso, teria realizado três depósitos na conta de um policial civil que também é alvo da operação.
Nos anos seguintes, a proximidade entre LK e os policiais se aprofundaram.
Em dezembro de 2022, Edmilson Santos Pereira teria procurado Lucas para tentar conseguir 326 quilos de cocaína que haviam sido apreendidos e estavam sob responsabilidade de três policiais civis: Neverson Vieira de Araújo, Nilton César Sales dos Santos e Roberto Palmeira da Silva.
A investigação aponta ainda que, um mês antes, os mesmos policiais teriam oferecido 30 quilos de pasta-base de cocaína, também apreendidos em uma ocorrência, aos irmãos Itamar e Edmilson em abril de 2021.
Policiais teriam usado sistemas para monitorar traficantes
Em outro episódio citado pelos investigadores, LK teria se aliado, em 2025, a um policial penal e dois policiais militares para monitorar um traficante de Campo Grande.
Segundo os documentos, os policiais consultavam os veículos utilizados pelos suspeitos em sistemas oficiais e chegaram a instalar rastreadores magnéticos, conhecidos como “carrapatos”, nos automóveis.
A investigação apura se a estrutura policial teria sido utilizada para beneficiar os envolvidos no esquema.
Prisões
Entre os policiais com prisão confirmada estão Douglas Tobias, Neverson Vieira de Araújo, Nilton César Sales dos Santos, Augusto Torres Galvão Florindo, Nelson Ricardo Barros de Oliveira e Luiz, cujo sobrenome não foi informado.
Ao menos nove policiais da ativa foram presos, segundo informações apuradas sobre a operação.
Roberto Palmeira da Silva também teve a prisão determinada, mas não havia sido localizado inicialmente. Segundo a defesa, ele se recupera de uma cirurgia e deveria se apresentar à polícia.
Delegado da Denar na época em que o esquema começou, Hoffman D'Ávila Cândido e Souza, também não foi localizado durante o cumprimento do mandado. No entanto, durante a tarde de ontem se apresentou na Corregedoria da Polícia Civil e ficou preso.
Augusto Torres Galvão Florindo já havia sido preso em flagrante em novembro de 2025, após ser encontrado com R$ 130 mil em espécie. Segundo a investigação, o dinheiro estaria relacionado a mercadorias que teriam sido desviadas do Garras. Ele foi exonerado do cargo.
A operação também atingiu familiares de Lucas, o LK, que já estava preso. Foram confirmadas as prisões da mãe dele, Valdenice da Silva Góis; da irmã Ana Carolina da Silva; de outra irmã, ainda não identificada; e da esposa.
As quatro são representadas pelo advogado Tiago Bunning, que confirmou as prisões, mas ainda não havia se manifestado sobre o conteúdo da investigação.
Também foram presos Heberti Barbosa, Weslei Benítez e Kayon Lucas Leodoro da Silva.
Kayon é investigado por um atentado no Portal Caiobá que deixou cinco pessoas feridas. Ele utilizava tornozeleira eletrônica e foi preso durante a operação.
Sejusp diz que investigados já eram alvo das corregedorias
Em nota, a Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública) informou que os servidores envolvidos na operação já eram investigados pelas respectivas corregedorias. Segundo a secretaria, três deles já haviam sido presos anteriormente e um foi exonerado.
A pasta afirmou que não compactua com desvios de conduta ou práticas ilícitas cometidas por integrantes das forças de segurança.
Ainda conforme a Sejusp, eventuais irregularidades serão apuradas respeitando a legislação, o devido processo legal e as garantias individuais dos investigados.








