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Política

03/04/2014 07:00

Bernal chama Olarte de 'Judas', mas ele foi o primeiro a renegar o vice

Bate e volta

Durante manifestação ocorrida na Capital, o prefeito cassado Alcides Bernal (PP), se referiu ao atual prefeito Gilmar Olarte (PP), vice na sua chapa, como Judas. No entanto Bernal foi o primeiro a renegar seu vice quando tomou posse.

Segunda-feira (31), manifestantes promoveram uma manifestação relembrando e repudiando os 50 anos do Golpe Civil Militar que colocou o país sob um regime ditatorial que perduraria 21 anos, até 1985. Na esteira das manifestações que ocorreram por todo o país, em Campo Grande usaram do evento para tecer críticas ao golpe articulado junto com a Câmara Municipal que culminou com a cassação do prefeito eleito, Alcides Bernal, por supostas irregularidades na contratação de empresas dispensadas de licitação.

Em seu discurso à pequena multidão que protestava, Bernal após dizer-se vítima de um complô articulado desde o início de seu mandato, foi claro ao mencionar que um dos articuladores foi o seu próprio vice-prefeito e companheiro de partido (assista ao vídeo no final da matéria).

"Quero chamar a atenção de todos vocês... pedir a atenção de todos aqui presentes, para citar só mais um fato: a revista "Isto É", uma revista de circulação nacional que trouxe nesse domingo (30/03) uma matéria onde o golpe foi desmascarado, onde se vê um assessor direto desse "Judas chamado Olarte" dizendo exatamente o que iria acontecer e que efetivamente aconteceu", discursou Bernal.

O que faltou à fala do prefeito foi explicar os motivos que o levaram a tentar administrar a prefeitura municipal nos mesmos moldes que o país foi governado durante o período militar, com decisões centralizadoras e onde o vice era apenas uma figura decorativa, compondo o governo apenas para dar satisfações às organizações internacionais que exigiam um "ar democrático" aos governos totalitários. O mesmo fez com relação ao Legislativo, que manteve isolado, propondo que projetos do executivo fossem aprovados sem a necessária contrapartida de atender reivindicações ou responder requerimentos.

Houve um terrorismo e armou-se uma arapuca para envolver Bernal e o levar a cometer erros, as evidências são claras. O próprio loteamento da prefeitura entre os derrotados nas urnas, demonstra isso, como deixou claro o ex-prefeito em sua fala, quando descortinou a maneira como agem os mandatários de Mato Grosso do Sul.

"A revista "Isto É", não chegou às bancas, não chegou a Campo Grande. Compraram todas as revistas para evitar que o nosso povo tenha conhecimento do que foi acontecido aqui em nossa cidade. Só que eles se enganam, porque aqui tem gente de valor, tem gente decente, e tem gente que tem coragem para peitar esses coronéis, esses homens que acham que mandam em tudo e em todos. E nós vamos denunciar essa ladroagem, nós vamos denunciar esse tirano italiano [se referindo ao governador André Puccinelli - PMDB]que por 30 anos se aproveitou da estrutura de poder para enriquecer os seus cupinchas", enfatizou.


Golpes e contragolpes

Os vereadores usam em suas defesas, o argumento de que Bernal governou isolado e provocou um distanciamento entre os próprios vereadores e suas bases eleitorais ao não atender pleitos e reivindicações, mesmo que fosse um simples pedido de cascalhamento ou troca de luminária. Dizem, com alguma razão, que sequer os nove vereadores que iniciaram o mandato na sua base de apoio eram recebidos em audiência no Paço Municipal, e esta foi a principal razão para que minguassem para seis abnegados defensores na sessão que culminou com a cassação do mandato do prefeito eleito com 63% dos votos válidos.

O ex-prefeito parece ter se baseado na leitura errada. Deixou de lado "O Príncipe" de Maquiavel, leitura indispensável a todo e qualquer político e concentrou-se em "Dom Quixote", de Miguel de Cervantes, lutando contra seus próprios moinhos, no entanto relegando ao ostracismo seu fiel escudeiro Sancho Pança. Neste caso, um homem público que percorreu o caminho da vereança por 6 anos e mais 2 anos na Assembleia, sob o governo André Puccinelli, não pode justificar desconhecimento das forças opostas que enfrentaria no exercício do mandato executivo.

Se por um lado ouve uma enorme articulação comandada desde o Parque dos Poderes, buscando por um lado destituir do cargo aquele que ousara enfrentar um "establishment" e, por outro impedir uma investigação mais acurada dos negócios do governo Nelson Trad Filho, como as licitações milionárias fechadas no findar de seu mandato; da parte de Bernal faltou essa articulação, uma equipe com alguma capacidade técnica e descentralização nas ações.

O quanto a cidade perde com o retorno do grupo que comanda os destinos da Capital e do Estado, os eleitores não conseguem avaliar, mas é inegável que de alguma forma a Democracia saiu fortalecida em dois momentos: o primeiro na eleição que, mais do que eleger Alcides Bernal, repudiou uma casta política que se pretendia perene, mostrando a força do voto; no segundo, quando foi mantida a independência dos poderes com a cassação do chefe do executivo, por desmandos administrativos.

Se houve irregularidades na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que apontou as improbidades administrativas do prefeito, ou se houve uma trama para cassar um prefeito consagrado nas urnas, um terceiro poder, dentro de sua independência, irá julgar.

Uma das primeiras medidas de Bernal, ao assumir a prefeitura foi auditar os contratos e processos licitatórios da gestão Nelsinho. Segundo ele, havia irregularidades na prestação de serviços com contratos vencido, pagamentos de obras não finalizadas e uma imensa quantidade de irregularidades na área da saúde.

Agora, em defesa de sua própria administração, protocolou na terça-feira (1), junto à Polícia Federal denúncias referentes às sindicâncias. Em entrevista, disse que constam dos documentos entregues, "processos e sindicâncias onde envolve recursos federais que deveriam ser utilizados para reforma e ampliação de Unidades Básicas de Saúde, e não foram. Pagamentos para serviços de atendimento à saúde, com recursos federais, que não foram realizados, e outros que não foram realizados como deveriam ter sido."

E retomou os ataques ao gestor que o antecedeu, e a todos os que considera responsáveis pela sua cassação. "São situações extremamente graves, que precisam ser apuradas e que é de responsabilidade do governo do PMDB através do ex-prefeito Nelsinho Trad. Também está sendo entregue o processo referente ao GISA, que é um software que deveria estar funcionando e não funciona. Um software que estaria funcionando para organizar o atendimento na saúde, e não está como previsto no contrato. São documentos importantes, são mais de 500 volumes de processos, sindicâncias, processos administrativos que estão sendo entregues. São originais que agora estão sob a responsabilidade da Polícia Federal. Esses processos e sindicâncias, conforme o Jamal [Salém, atual secretário de Saúde do Município] anunciou para a imprensa, ele já estaria cancelando as sindicâncias, o que é sem dúvida nenhuma, também um crime contra a administração pública e contra os recursos públicos. A Polícia Federal vai tomar suas providências. Na área da saúde. Nós teremos outras providências a serem solicitadas à Polícia Federal, ainda nessa semana, em relação a outros crimes praticados contra o erário público (sic)" finalizou.


Veja o vídeo a seguir:



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