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Saúde

há 44 minutos

Empresa cobrou R$ 1,57 milhão em manutenções 'fantasmas' de viaturas do Samu de Campo Grande

Ordens de serviço indicavam duração de até um minuto, mas cobravam até 352 horas de trabalho; levantamento também identificou pneus pagos em duplicidade

Ordens de serviço que somavam R$ 1.573.432,27 em peças e manutenção de viaturas do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) de Campo Grande apresentavam registros de execução incompatíveis com as horas cobradas. Segundo uma auditoria municipal, 65 ordens indicavam início e término dos trabalhos em intervalo de, no máximo, um minuto, embora as descrições apontassem entre uma e 352 horas de serviço.

Os achados constam do Relatório Consolidado da Auditoria nº 648, gerado em 25 de maio de 2026 pelo componente municipal do Sistema Nacional de Auditoria do SUS.

O levantamento analisou quatro notas fiscais da Qfrotas Sistemas S/A, empresa responsável pelo gerenciamento da rede de oficinas credenciadas e da plataforma eletrônica utilizada para acompanhar as manutenções.

No total, foram examinadas 127 ordens de serviço e pagamentos de R$ 1.918.734,22.

Entre os exemplos, a conclusão do relatório destaca a ordem nº 4075, que faturou 166 horas de mão de obra apesar de apresentar apenas um minuto de execução registrado no sistema.

Para os auditores, a divergência compromete a confiabilidade dos documentos utilizados para comprovar os reparos e autorizar os pagamentos.

Mais de R$ 1 milhão foi registrado como serviço concluído em dois dias

Em outro recorte da análise, a auditoria identificou 54 ordens de serviço, no total de R$ 1.046.796,90, abertas e orçadas em 2024, mas registradas como concluídas em 12 e 13 de fevereiro de 2025.

As despesas envolviam 13 veículos da frota do Samu. Em todas essas ordens, o mural de comunicação apresentava informação de que não havia empenho para prosseguir com a pré-aprovação e que o novo saldo seria disponibilizado em janeiro.

Os auditores também encontraram registros que indicavam a passagem de um mesmo veículo por até três oficinas no mesmo dia.

O cruzamento das ordens com o Diário de Frotas de fevereiro de 2025 revelou outras inconsistências. Dos 13 veículos, dois estavam em oficinas havia 106 e 117 dias, respectivamente; dois apareciam como ativos; e nove estavam baixados em pátios do município.

Entre os nove veículos baixados, quatro possuíam registro de inviabilidade de conserto.

Prefeitura atribuiu lançamentos ao atraso no empenho

A Superintendência de Logística negou os fatos detalhados e afirmou que os serviços realizados em 2024 estavam baseados no contrato e em empenhos emitidos trimestralmente.

O setor alegou que um empenho de R$ 305.601,97 foi cancelado naquele exercício e que as 54 ordens foram lançadas posteriormente, após a liberação de empenho em 31 de janeiro de 2025.

“As 54 ordens de serviço terem sido registradas como executadas nos dias 12 e 13/02/2025, apresentando diferença máxima de um minuto entre o início e o término da execução se justifica em razão de serem lançadas após a liberação do empenho”, informou a Logística.

A auditoria rejeitou a justificativa. Segundo os auditores, o setor explicou os lançamentos tardios, mas não apresentou documentos capazes de demonstrar a realização material dos reparos.

O relatório apontou ausência de controles de entrada e saída dos veículos nas oficinas, relatórios técnicos detalhados, registros individualizados de mão de obra, fotografias e outros elementos de comprovação.

Pneus e geometria apareceram em duas cobranças para a mesma viatura

A auditoria também identificou pagamento em duplicidade de quatro pneus e serviços de geometria para uma Renault Master de placa SLW9B38.

A ordem nº 4319 foi aberta em 14 de março de 2024 e teve execução registrada em 29 de maio, às 9h39. O orçamento aprovado foi de R$ 3.591,56, incluindo quatro pneus Delinte, válvula, alinhamento e balanceamento.

A ordem nº 4350 foi aberta em 20 de março de 2024 para o mesmo veículo, com objeto idêntico. A execução apareceu no sistema às 9h41 de 29 de maio, dois minutos depois da anterior. O valor foi de R$ 3.486,68.

A Logística negou pagamento duplicado. Afirmou que a ambulância precisou trocar os pneus duas vezes em um curto período porque um deles estourou no trajeto entre Anhanduí e Campo Grande.

Segundo a explicação, o motorista continuou até um posto de combustível, o que teria comprometido os demais pneus e exigido nova substituição do conjunto.

Os auditores não aceitaram a justificativa. Apontaram que não foi informada a data do episódio nem apresentados registros fotográficos, comunicações, relatórios de ocorrência ou outros comprovantes.

A equipe também questionou a ausência de utilização do estepe e identificou inconsistências entre as ordens de serviço e o “Mapa Força”, documento operacional do Samu que registrava a viatura em atividade.

Pagamento integral ocorreu sem avaliação formal exigida

O relatório constatou ainda que as faturas foram pagas integralmente sem comprovação da aplicação do Instrumento de Medição de Resultados.

O edital vinculava o valor devido ao desempenho da contratada. O pagamento poderia variar de 80% a 100% da fatura, conforme o percentual de metas cumpridas.

Para o pagamento integral, seria necessário atingir entre 85% e 100% das metas. Desempenhos inferiores, nas faixas previstas, resultariam em remuneração de 95%, 85% ou 80% do valor.

A auditoria informou que não recebeu as fichas de inspeção, tabelas de avaliação e planilhas de controle assinadas e validadas pelo fiscal do contrato.

A Superintendência de Logística afirmou que servidores competentes, incluindo um perito municipal, avaliavam as viaturas. Quando os serviços não estavam adequados, os veículos eram devolvidos às oficinas para nova inspeção.

O setor detalhou ainda que essas avaliações estavam registradas no sistema da Qfrotas, por meio da operação de conclusão do serviço, chamada de “checkout”.

Auditoria recomenda sindicâncias e revisão das despesas

A equipe recomendou procedimentos administrativos para apurar as inconsistências e eventual responsabilidade dos servidores encarregados de fiscalizar, autorizar e atestar os pagamentos.

Também propôs a notificação da contratada para apresentar documentação técnica complementar e a revisão das ordens vinculadas às quatro notas fiscais examinadas.

Caso a apuração confirme pagamentos indevidos ou serviços sem comprovação de execução, o relatório orienta a adoção de medidas para ressarcimento.

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