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Saúde

Jovem cria sistema de comunicação com pessoas que estão em coma

Para viabilizar o projeto, o jovem cientista recebeu 150 mil reais de um investidor

09 outubro 2018 - 08h50Por Luis Abraham

Com apenas 20 anos, Luiz Fernando da Silva Borges está desenvolvendo um sistema de comunicação com pessoas que estão em coma. Dentro do seu quarto em Aquidauana, Borges criou um computador capaz de ler as mentes dos pacientes.

Luiz venceu o prêmio promovido pela multinacional de tecnologia Intel e que destaca projetos em ciência e engenharia, ele concorreu na categoria engenharia biomédica em 2016 e 2017.

Tamanho reconhecimento ajudou Borges a encontrar investidores, em 2017, ele recebeu um investimento de 150 mil reais para desenvolver um computador que quando conectado ao cérebro de pacientes em coma consegue detectar e traduzir sinais para que a pessoa possa se comunicar.

O patrocínio veio de Ricardo Nantes, fundador do Portal Educação, presidente da startup Empodera e investidor-anjo. “É uma aposta. Pode ter um retorno alto, mas também tem um risco alto”, afirma Nantes.

Ricardo, entusiasta de projetos relacionados à ciência e educação, vê futuro na ideia de Borges. “Percebi que ele tinha uma capacidade de empreender muito grande. Com 17 anos, sem recursos e sem acesso, ele já começou a fazer ciência sem se importar com as dificuldades”, afirma o investidor.

Na adolescência, Borges criou um novo método de controle de próteses. O sistema visava recuperar a sensibilidade tátil de pessoas que perderam o antebraço, a prótese venceu o prêmio da Intel em 2016.

No ano seguinte, o jovem apresentou o projeto Hermes Braindeck. “Existe uma técnica que mostra que pessoas em coma podem se comunicar, mas até hoje não existia uma tecnologia portátil para isso”, afirma.

Luiz desenvolveu um equipamento portátil que poderia traduzir os sinais de quem estivesse em coma, inspirado em uma pesquisa do neurocientista britânico Adrian Owen, publicada na revista Science em 2006. Na pesquisa, Owen mostrou que é possível se comunicar com pessoas em coma usando um aparelho de ressonância magnética.

Borges pegou o conceito e o tornou portátil. “Quis tornar esse tipo de comunicação possível ao lado do paciente”, assim criou um computador que lê as reações do cérebro do paciente ao ouvir perguntas.

O paciente utiliza uma touca com vários fios conectados a sensores e um fone de ouvido para receber instruções. Pede-se ao paciente para imaginar o movimento da mão direita e o da mão esquerda, cada comando ativa uma parte diferente do cérebro. A máquina então traduz os padrões em respostas positivas (sim) ou negativas (não), fazendo com que o paciente consiga responder perguntas dos médicos e dos familiares.

“Nos hospitais, não existe ferramenta para medir a resposta da pessoa em coma sem ser a ressonância magnética, que não tem como ser usada no dia a dia”, afirma Borges.

Em testes com pessoas saudáveis, o Hermes Braindeck teve 80% de precisão em reconhecer os dois padrões de resposta, o sistema foi testado em 50 voluntários.

Até o fim do ano, Luiz espera poder testar o aparelho em pacientes da Santa Casa de Campo Grande com ajuda de profissionais da Universidade Católica Dom Bosco (UCDB).

Esperança

“O coma é a perda do sistema de alerta”, explica o neurologista Ivan Okamoto, do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, que não está envolvido no projeto de Borges. Diferentes tipos de lesão podem levar uma pessoa ao coma: traumáticas, inflamatórias, infecciosas, sistêmicas, tumoral, vascular.

Existem diversas fases do coma, sendo o vegetativo o estado mais grave. “Continua funcionando coração, a respiração, o intestino, mas não tem consciência. É como se a máquina funcionasse no automático”, diz o neurologista. Durante um coma, no entanto, o cérebro continua na ativa. A possibilidade de sair do estado varia da gravidade do caso. “O coma não é uma sentença, é um sintoma”, afirma.

Quem sobrevive à situação, relata momento de consciência em alguns momentos, conta Borges. Okamoto afirma que, por conta desse tipo de relato, há uma orientação aos médicos de não comentar sobre a situação do paciente perto dele.

Para os familiares de um paciente em coma, o momento também é delicado e exige cuidado. Com sua invenção, Borges espera entregar aos parentes a possibilidade de ouvir novamente o ente querido.

“Quero que pessoas irresponsivas possam ter a dignidade de se comunicar ou ter suas últimas palavras. Têm histórias de pessoas, que, mesmo conscientes, não conseguiram se despedir dos familiares”, diz Borges. “É uma questão de humanidade.”