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Golzinho 95 foi roubado em pleno Carnaval, mas ficaram as quase duas décadas de história

Anos de aventuras do jornalista Airton com o bravo automóvel acumulavam valor afetivo inestimável

03 abril 2019 - 14h15Por Amanda Amaral

O jornalista e cineasta Airton Raes e seu carro eram como melhores amigos, daqueles raros, que mantêm a parceria da adolescência até a vida adulta. Há um mês, a separação abrupta: o Golzinho 95 foi roubado, em pleno dia de Carnaval, nas ruas de Campo Grande.

Amigos e polícia se esforçaram para ajudar a encontrar o veículo Volkswagen, daquele azul prateado que já não se vê mais nos novos modelos, placa LAX-0439, mas nenhuma pista foi encontrada. A lembrança, contudo, está por toda parte, seja em uma roda de ferro velha na garagem do dono ou em cada canto da cidade em que ele passou e colecionou histórias.

A primeira começou ainda em 1995, quando a avó de Airton saiu com o carro novo em folha da concessionária do Rio de Janeiro. Após seu falecimento, o Gol ficou para a família, e foi o neto que decidiu continuar com ele rodando ao invés de comprar um carro novo.

Já eram 17 anos da dupla que deu origem ao jargão que Airton gostava de repetir para se definir: ‘gago, gordo e do Gol 95’. Claro, andar com carro antigo rendia piadas de todo tipo, conta o jornalista, mas ele nunca quis se desfazer carro.

“Isso demonstra a importância do Gol em minha vida, pois se mistura com a minha própria história. Muitos gostavam do caro, outros tiravam sarro e até usavam ele para me diminuir. [...] Mas o Gol sempre estava lá pronto para ajudar quem precisava. Seja para fazer um rolê de produção ou para resgatar alguém as 3h da manhã”, narra.

Causos

Para lembrar a si mesmo e quem participou com ele de tantas lembranças curiosas, elencou em uma rede social algumas das mais marcantes. Tirou fora, contudo, uma misteriosa história envolvendo café – que nem na reportagem vai aparecer.

“Todas as vezes que bati o carro (ou bateram nele) estava levando ele para a oficina ou havia retirado o carro da oficina. Da mesma forma que toda vez que troquei os pneus do Gol por novos algo muito ruim aconteceu na minha vida quando paguei a última parcela”, lembra.

O carro que tinha só dois adesivos, ambos do blog do jornalista Marco Eusébio, e também já foi carona de fuga para outro colega de profissão. Antes de seu assassinato em 2012, o constantemente ameaçado Eduardo Carvalho entrou armado e de colete à prova de balas escondido no banco de passageiros, para escapar de perseguição.

A turma do cinema também marcou alguns causos inesquecíveis. “Uma vez, durante a madrugada uma gravação de um filme, a S-10 do pai do [amigo e cineasta] Helton Pérez estragou. Rebocamos a caminhonete com o Gol da Uniderp da Ceará até a região do Colégio militar usando uma corda de náilon dobrada três vezes. [...] Uma vez, em 2006, dei carona para o cineasta Walter Lima Junior no Gol após almoçarmos no centro de Campo Grande. Ele ficou impressionado com a cidade. ‘Carro conservado esse’, disse ele”.

Airton conta ainda que excedeu a lotação máxima permitida, carregando oito pessoas, entre elas um grupo de adolescentes que pediram carona até a igreja São Francisco de Assis. Também escapou do vandalismo de alguém que passou riscando todos os carros estacionados na antiga rodoviária: só o fiel Golzinho foi poupado.

Hoje, o barulho sonoro e inconfundível do freio do automóvel – que uma vez anunciava sua chegada a qualquer lugar –  não soa mais. Mas as histórias, essas ficam, esteja onde estiver o ‘carango camarada’.