A fome é algo que se percebe pela urgência. Na Praça do Rádio, no Centro de Campo Grande, a refeição de domingo servida a pessoas em situação de vulnerabilidade costuma desaparecer dos pratos em cerca de quatro colheradas. Quem recebe a marmita mal senta e já esvazia tudo, sem deixar sobras para levar. O ritmo intenso reflete a situação de quem aguarda pela comida, realidade vivida por cerca de 50 pessoas na distribuição de hoje (18), realizada no cruzamento da Rua Padre João Crippa com a Barão do Rio Branco.
A ação é organizada pelo Grupo Espírita José de Anchieta e ocorre de forma ininterrupta no mesmo local há 22 anos. O coordenador do trabalho, Hugo Pereira do Valle Júnior, de 61 anos, reforça que a comida entregue é sempre fresca. Os voluntários preparam o alimento no próprio dia, sem utilizar porções requentadas, para garantir uma refeição de qualidade a quem vive nas ruas ou passa por dificuldades financeiras.
A iniciativa vai além do prato feito. Segundo o coordenador Hugo, o grupo também oferece acolhimento básico e atendimento fraterno, com atenção especial para crianças e famílias desabrigadas. Como cerca de 80% dos beneficiados são imigrantes venezuelanos e colombianos, o projeto conta com intérpretes para facilitar a comunicação. "Não é só entregar a marmita e virar as costas", relata o voluntário.
A venezuelana Joana ilustra o perfil de quem busca a praça para aliviar as contas de casa. Mãe de sete filhos, ela não comparece semanalmente, mas recorre à ação beneficente quando os recursos secam e falta alimento para a família. Sentada com a refeição em mãos, ela elogia o suporte prestado pelos organizadores. "Venho de vez em quando, quando não tenho para dar comida a eles", explica.
A fila da marmita reúne diferentes trajetórias. O brasiguaio Edilson Lopes dos Santos, de 23 anos, também recebe a ajuda dominical e aponta o impacto do projeto para quem vivencia a escassez de perto nas ruas. “Graças a Deus, cara, só tenho que agradecer, sabe. Porque ajuda muito a gente que tá aí na rua, sabe, que não tem dinheiro pra comprar”, conta o jovem. Ao fim da entrevista, ele fez questão de deixar um recado para a equipe assistencial. “Não sou muito de falar, mas tá bom, só tenho a agradecer e boa sorte pelo trampo”.








