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Em momento que país lamenta tragédia, aeromoça conta as delícias de trabalhar nas alturas

Raphaella diz que encontrou uma segunda família nos voos e hoje não se imagina longe dos aviões

5 DEZ 2016
Dany Nascimento
13h57min
Foto: Geovanni Gomes

Ela nunca sonhou em trabalhar 'voando', nem muito menos tinha ideia do que é trabalhar pelos ares, mas o incentivo da mãe levou Raphaella de Oliveira Torres, 24 anos, ao encontro da profissão apaixonante. Cursando o segundo ano de Direito na Capital, a jovem foi incentivada pela mãe, Silvia de Oliveira Gomes, a tentar fazer o curso de aeromoça, mas não imaginava que 'voaria tão alto'.

"Eu nem sabia o que era ser aeromoça, foi através da minha mãe que comecei a me interessar. Minha tia tem uma comissária em casa e tenho uma amiga também, mas até então eu não sabia o que era ser aeromoça, via em filmes. Conversando, minha mãe falou que seria bom se eu fizesse o curso, mas eu não imaginava que daria tão certo. Tranquei faculdade de Direito e comecei a gostar. Tudo que vivenciei no curso, eu idealizei para a profissão. Tentei voltar para faculdade, fiz a prova da Anac, passei e enviei um único currículo em 2012 e a Trip me chamou", diz a aeromoça.

Raphaella destaca que foi convocada para a entrevista em Campinas, momento em que fez o seu primeiro voo e, ao ser questionada, as lágrimas desceram. "Fui para a entrevista, tudo aconteceu muito rápido. Fui para Campinas, mas achava que não ia dar certo porque tinha muita gente preparada, pessoas que falavam três, quatro línguas. Eu tinha 18 anos e acabei chorando na entrevista, fiquei com medo, nervosa. A primeira vez que andei de avião foi indo para a entrevista. Eu fiz o curso às cegas, eu nem sabia o que era a profissão. Eu acredito que foi a profissão que me escolheu, eu falo isso sempre. Eu não tinha noção do trabalho e agora eu sou apaixonada pelo que faço. Sempre fui muito influenciada pela minha mãe e pelo meu pai, Hermes. Eles sempre me ajudaram muito a conseguir me destacar e alcançar o melhor".

Ao se lembrar dos momentos difíceis da profissão, Raphaella destaca que o ponto mais dolorido é ficar longe de casa, dando ênfase na saudade da filha de cinco anos. Mas ela logo encontra conforto nas palavras, ao definir a equipe de trabalho como segunda família.

"Eu fico fora de casa, tem esse lado negativo. Tem dia que é difícil sair de casa, mas quando saio, deixo os problemas de lado. Pela Gabi é mais difícil, principalmente, mas agora eu tento focar na minha volta. Saio para trabalhar, fico dias fora e não fico me lamentando. Eu sei que minha filha está bem, ela fica  com o Wesley (pai), com a minha mãe, que me ajuda desde que ela nasceu. Eu voltei a trabalhar a Gabi tinha 4 meses e meio. A base era o Rio de Janeiro, fiquei cinco, seis dias fora com ela pequena. Chorava, mas não pensava em desistir, sabia que era para ela", afirma Raphaella.

A aeromoça relembra que, mesmo enfrentando dificuldades pela saudade dos familiares, sempre manteve a paixão pela profissão acesa e, hoje, destaca que vive grandes momentos nas viagens que faz pelo país. "Todo mundo sonha em conhecer lugares maravilhosos, eu tinha idade para querer isso, mas no momento em que me tornei aeromoça, sempre foquei em voltar para a casa. Tentei aproveitar ao máximo, dá para conhecer muita gente bacana, a tripulação é considerada família. Temos muitos funcionários, a base é muito grande, então tem a chave de voo e depois de anos você voa com a mesma pessoa, é bem difícil. Tem vezes que saímos para jantar, literalmente é uma família".

Questionada sobre a sensação ao se deparar com a tragédia envolvendo os jogadores da Chapecoense, profissionais de imprensa e outros tripulantes mortos em um acidente de avião na Colômbia, Raphaella se emociona e diz que pensou nos familiares, que aguardavam ansiosos o retorno daqueles que partiram e destaca que não tem medo de uma possível queda de avião.

"Eu não tenho medo do avião cair, eu confio nos meus colegas de trabalho. Eu fiquei triste porque eu saio de casa pensando na minha volta, pensando em chegar e fazer as coisas com a minha filha. Me coloco no lugar dos familiares, que estavam esperando eles mais felizes do que foram, com a vitória e acabou. Tinham jornalistas que iam fazer matérias incríveis, que esperavam por isso. Medo eu não tenho, somos preparados para um pouco de tudo, desde simples dor de cabeça até um sequestro de avião, o básico de tudo. Tem gente que vê comissária como garçonete, atendente do ar, e não é isso, sabemos de tudo um pouco e queremos sempre ajudar", diz a aeromoça.

Ao relembrar do caso de Chapecó, Raphaella conta que apenas uma vez viveu situação de desespero, no momento de um pouso com tempo chuvoso em Porto Alegre. "Teve um dia, por estresse e momento de bastante trabalho, logo em Chapecó. O tempo estava bem ruim, ventando muito, fiquei com medo, foi época de chuvas de Porto Alegre, estava inundando tudo e o pouso foi complicado. Liguei para o Wesley, deixei o profissional para o lado. Ele ficou desesperado, mas foi único dia que isso aconteceu, teve dificuldade no pouso, vento muito forte, arremetemos uma vez, estava complicado, mas foi só ali. Hoje em dia eu sou comissária, eu amo o que faço, é impossível estar nessa profissão sem amar. Eu não sei o que seria de mim sem ela, faço meu trabalho com bastante responsabilidade".

Ao falar de passageiros em crise nos voos, a aeromoça diz que já chegou a passar o voo ao lado de uma senhora, que estava em pânico. "Passageiros em pânico tem bastante, já tive que pousar do lado de uma senhora que tremia, fiquei o voo inteiro com ela. Tem gente que pode pensar que é frescura, mas não era não, a mão dela tremia, ela suava, daí tentamos acalmá-la. Muitas vezes ouvimos as pessoas, tentamos acalmar, estamos sempre ali, conversando com as pessoas. A passageira disse que ia visitar o filho que era um sobrevivente de acidente com mortos. Tem gente desde casamento, para velório, temos que ser maleáveis. Tem dias que dá vontade de chorar ouvindo histórias, mas temos que entender um pouco de tudo, se colocar no lugar da pessoa. Tem gente que chega nervosa, tem que saber lidar, nosso trabalho tem que ter cabeça boa, com foco, são muitas informações durante o dia, estamos com 400 pessoas por dia".

Para Raphaella, não existe um momento especial de voo, mas momentos especiais de trabalho. "Não tem voo mais especial ou uma cidade para citar mais especial. Eu aproveito ao máximo tudo, fazemos de quatro a cinco etapas por dia. Eu entro no voo, acabou um, apago tudo e começo de novo, as vezes criamos expectativas para uma coisa. Alta Floresta é um local pequeno, mas fazemos se tornar especial. Lugar que eu amo, totalmente calmo, fora do movimento. Tem piscina à tarde, nos reunimos, encomendamos peixe, jantamos. Tem cidades maravilhosas que não temos tanta oportunidades de fazer porque o tempo é muito curto".

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