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Feridas que não cicatrizam: abuso infantil vira fardo ao longo da vida

As autoridades fazem um alerta, pois a maioria dos crimes sexuais contra crianças e adolescentes acontece dentro de casa

30 julho 2018 - 08h04Por Anna Gomes

“Tudo começou em uma noite. Estava no meu quarto dormindo quando eu acordei com ele passando a mão pelo meu corpo. Fiquei com medo e por ter nove anos não sabia direito o que era aquilo, ainda não sabia o terror que minha vida ainda iria se transformar. Depois os abusos foram só aumentando, chegava da escola e minha mãe ainda estava trabalhando, ele era quem cuidava de mim e do meu irmão caçula (filho dele) que tinha uns dois anos na época.  Pouco tempo depois ele passou a me estuprar, bastava minha mãe sair de casa para ele cometer os abusos. 

Eu sentia tanto medo, pois ele dizia que se contasse algo para alguém, mataria o meu irmãozinho. Ele abraçava meu irmão e olhava para mim, me lembro daquele olhar e era assustador, ameaçador.  Todas as vezes que ele dizia ‘psiu’, eu tinha que ir onde ele estava. Era tipo um ‘código’ dele. Quando eu ouvia isso, meu corpo todo tremia de medo e os abusos foram acontecendo ao longo dos anos.

Quando eu cresci um pouco, resolvi enfrentar o medo e dizer tudo, chamei a minha mãe e contei. Para piorar, ela não acreditou a princípio, mas acabou se separando dele. Hoje em dia tenho problemas com relacionamentos, tudo pelo que sofri. Faço terapias semanalmente e até hoje minha mãe me culpa por sua separação. Nas nossas discussões ela dizia que eu era a safada, que os estupros aconteciam porque eu gostava. Precisei me mudar de residência e hoje moro sozinha”.

Essa é a história de Gabriela, nome fictício, que a reportagem escolheu para contar a história de uma jovem que passou a infância e boa parte da adolescência sofrendo abusos sexuais do padrasto. Segundo ela, o estuprador estava acima de qualquer suspeita, trabalhador, fingia ser um bom marido e simulava ser um bom ‘pai’.

Os estupros abalam a vida de uma pessoa. A DEPCA (Delegacia Especializada em Proteção à Criança e ao Adolescente) tem, hoje, cerca de 800 casos de estupro de vulnerável registrados, que são investigados por dois delegados. As autoridades fazem um alerta e destacam que os responsáveis pelas crianças precisam ter atenção redobrada já que a maioria dos crimes acontece dentro de casa ou por conhecidos das vítimas.

Segundo a delegada Marília de Brito, os responsáveis pelos menores precisam ter muita atenção no comportamento dos filhos. “A maioria desses crimes acontecem dentro do meio familiar, pois os estupradores são pessoas próximas das crianças”, destacou.

Índices que assustam

Conforme o Atlas da Violência 2018, estudo produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgado no mês passado, metade dos casos de estupro registrados no País em 2016 foram cometidos contra crianças de até 13 anos. Se forem levadas em consideração as vítimas de até 17 anos, a porcentagem sobe para 67,9%.

Em MS, só a DEPCA investiga 800 casos relacionados a este tipo de crime, isto é, os que foram registrados, mas é claro que muitas crianças ainda estão sofrendo, ou nunca falaram sobre seus abusos, já que os estupradores conseguem entrar no psicológico de suas vítimas, fazendo ameaças. Grande parte dos menores abusados acaba ficando calada e sofrendo as consequências desses crimes traumatizantes ao longo da vida.

No Estado, uma menina de nove anos, foi abusada por sete homens, todos vizinhos da vítima, no ano de 2014, em uma aldeia indígena do Estado.

No ano seguinte, um homem foi preso após estuprar a enteada de 12 anos e a própria filha, uma criança de dez. O abusador, além de fazer ameaças dizendo que mataria a mãe das garotas se acaso elas contassem algo, passava açúcar em seu pênis e obrigava as vítimas a fazerem sexo oral nele. Neste caso, uma das crianças chegou a contar para a mãe, que não acreditou nas filhas. As menores só foram salvas pelo avô paterno que denunciou o criminoso.

Em outro caso, ocorrido em 2018, um homem de 36 anos foi preso por estuprar a neta de sua esposa, uma criança de seis anos. Flagrado abusando da menina, quando foi parar na cadeia, o estuprador assumiu o crime: ‘sei que é errado, mas gosto de fazer’.