O Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) denunciou o cardiologista João Jazbik Neto, de 78 anos, pelo feminicídio da fisioterapeuta Fabíola Marcotti, de 51, morta em maio deste ano em uma chácara na região da Chácara dos Poderes, em Campo Grande. A denúncia foi protocolada nesta segunda-feira (24), na 2ª Vara do Tribunal do Júri da Capital.
Segundo o MP, Fabíola e João mantinham um relacionamento amoroso havia mais de dez anos e moravam juntos. Familiares relataram à investigação que a relação era marcada por controle e violência psicológica.
A morte, inicialmente registrada como suicídio, passou a ser investigada como feminicídio após exames periciais. Conforme a denúncia, a fisioterapeuta sofreu agressões na cabeça com um objeto cortocontundente antes de ser morta com um tiro.
De acordo com o Ministério Público, Fabíola teria sido atingida primeiro e caído de joelhos. Depois, sofreu uma nova agressão e caiu no chão. Já com a capacidade de defesa reduzida, segundo a acusação, ela teve a cabeça levantada antes de receber o disparo fatal.
Para o MP, o crime foi cometido com meio cruel e mediante recurso que dificultou a defesa da vítima. A acusação também aponta o uso de arma de fogo de uso restrito.
Violência psicológica
Além do feminicídio, João foi denunciado por violência psicológica contra a mulher. Um dos elementos utilizados pelo Ministério Público é um diário mantido por Fabíola. Segundo a denúncia, o médico controlava ações, comportamentos e decisões da companheira.
Durante os conflitos, ainda conforme o MP, João utilizava o chamado “tratamento de silêncio” como forma de punição e controle emocional, o que teria provocado sofrimento psicológico na vítima.
João também foi denunciado por fraude processual, junto com Elodir Hofmann e Geovane Garcia Abbegg. Segundo o MP, os três teriam alterado a cena do crime antes da chegada da polícia.
A denúncia aponta que João orientou Elodir e Geovane a retirar do cômodo uma estante onde havia diversas armas e também uma arma de cano longo. A suspeita é de que a mudança tenha sido feita para esconder o armamento, induzir a perícia ao erro e dificultar a investigação.
A estante foi encontrada posteriormente em outra casa da propriedade, ainda com armas no interior. Já a arma de cano longo foi localizada sobre uma cama.
Os três foram presos em flagrante durante a ocorrência.
Ainda conforme o Ministério Público, João mantinha armas sem autorização legal. Entre os itens apreendidos estavam revólver, fuzil, carabinas, rifles e espingardas, incluindo armamentos de uso permitido e restrito.
Uma das armas tinha numeração aparentemente suprimida. Também foram apreendidas uma luneta de pontaria, 438 munições intactas de diferentes calibres e nove munições deflagradas.
João foi denunciado por feminicídio em contexto de violência doméstica, com as qualificadoras de meio cruel e recurso que dificultou a defesa da vítima, além de violência psicológica contra a mulher, posse ilegal de arma de fogo e fraude processual.
Elodir e Geovane respondem por fraude processual.
O Ministério Público pediu que a denúncia seja recebida pela Justiça e que os acusados sejam citados para responder à ação. A Promotoria também pediu que João seja condenado ao pagamento de indenização mínima equivalente a 100 salários-mínimos pelos danos causados.
Cardiologista foi solto após habeas corpus
João Jazbik Neto foi preso preventivamente em 14 de agosto, depois que a Polícia Civil concluiu que Fabíola havia sido vítima de feminicídio.
O cardiologista chegou a ficar preso no Centro de Triagem da Capital, mas foi solto após o Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS) conceder habeas corpus.
Antes disso, ele havia sido preso por porte ilegal de arma de fogo após a morte de Fabíola. Na ocasião, policiais encontraram diversas armas na propriedade.
A Justiça concedeu liberdade provisória mediante medidas cautelares, incluindo o uso de tornozeleira eletrônica e a proibição de contato com testemunhas.
A defesa do médico, feita pelo advogado José Belga Trad, afirmou que a prisão preventiva era “descabida”. Segundo o defensor, quando a prisão foi decretada, o inquérito ainda não havia sido concluído e não existia denúncia formal contra João.
A denúncia do MP representa a acusação formal contra os investigados. O caso ainda será analisado pela Justiça e os acusados terão direito à defesa.










