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Escola em que ocorreu massacre em Suzano se prepara para retomar as aulas

Professores e alunos tentam superar trauma causado pelos 10 assassinatos para voltar à rotina a partir desta segunda-feira

15 MAR 2019
Da redação/Zero Hora
16h16min
Foto: Reprodução/Zero Hora

Alvo do massacre que abalou o país, a Escola Estadual Professor Raul Brasil, em Suzano (SP), limpa as feridas e se prepara para reabrir as portas. Antes da retomada das atividades, prevista para esta segunda-feira (18), a instituição recebe pintura, corte de grama, podas e lavagem na tentativa de apagar as marcas da tragédia que resultou na morte de 10 pessoas. Em choque, a comunidade busca forças para recomeçar.

Nesta sexta-feira (15), dia marcado por manifestações em homenagem às vítimas, professores e funcionários se reuniram com autoridades para tratar do retorno. A próxima semana será dedicada apenas a ações de acolhimento (como rodas de conversa e oficinas), com o suporte de diversas entidades, entre elas o Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). 

Na segunda-feira (18), a escola será aberta somente ao corpo docente. A partir de terça-feira (19), passará a receber estudantes e familiares. Ainda não há previsão de retomada das aulas.

Em meio às incertezas, auxiliares de limpeza deram início ao trabalho de faxina nas dependências do estabelecimento, esfregando piso e paredes com desinfetante. Não escondiam o medo de novos atentados. A identificação de um terceiro suspeito de envolvimento na matança — além dos dois assassinos que acabaram mortos, na última quarta-feira — amplificou a sensação de insegurança. 

— Minha irmã me falou: você é louca de ir à escola. Só que eu tenho três bocas em casa para alimentar e alguém precisa fazer o serviço — diz Ana Lúcia Dias, 46 anos, uma das integrantes da equipe. Na vizinhança, as medidas adotadas foram bem recebidas, mas é consenso, entre os moradores, que a Raul Brasil jamais será a mesma.

— Essa cicatriz nunca vai fechar. É uma lacuna que fica — opina o comerciante Eudes da Silva Vilas Boas, 31 anos. Preocupados com o que vem pela frente, pais e avós que passaram pelo local nos últimos dias relataram um problema em comum: os garotos se recusam a voltar para o colégio. 

— Meu neto está  muito abalado. Não quer saber da escola. E a gente não sabe o que fazer — angustia-se a dona de casa Dalva Azevedo, 67 anos. Na passeata que terminou em frente ao portão do colégio, ao meio-dia desta sexta-feira, adolescentes rezaram pelos colegas que se foram e choraram abraçados, sentados na calçada. Mais tarde, outros garotos depositaram velas junto ao portão. O ataque, na prática, deixou mais do que 10 mortos e uma dezena de feridos. Mesmo sem ter sofrido nenhum arranhão, uma legião de jovens foi afetada. 

Aluna do 2º ano do Ensino Médio, Gesielly Tavares Silva, 16 anos, faz parte do grupo que afirma não ter condições psicológicas de pisar mais uma vez na sala de aula:

— Perdi amigos lá. Vi tudo. Como vou voltar?

Embora a dor seja unânime, nem tudo está perdido. Késia Avelino, 15 anos, garante que retornará às aulas.

— A gente sempre vai lembrar do que aconteceu, mas não dá para desistir — resume.

Recuperar a coragem, reconhece a docente Ana Cristina Oliveira Lima, 56 anos, 30 deles no magistério, não será fácil. Ela própria — que viveu o terror ao se trancar na sala dos professores enquanto ouvia disparos e gritos do lado de fora — não sabe se terá capacidade de reassumir o posto de imediato. Apesar disso, tem esperança no futuro de Suzano.

— A cidade vai se recuperar, só não vai esquecer. Aliás, a gente nem pode esquecer — conclui a professora.

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