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Lava-Jato e Lama Asfáltica: aparições de heróis atrapalham investigação

Lava-Jato criou Moro, tido como o ‘ herói nacional’; na Lama Asfáltica, investigadores agiram discretamente

13 JUN 2019
Celso Bejarano, de Brasília
07h00min
Foto: Wesley Ortiz

A Lama Asfáltica, operação da Polícia Federal, foi deflagrada em Mato Grosso do Sul, em julho de 2015, quase cinco anos atrás. A Lava-Jato, também da Polícia Federal, em março de 2014, há cinco anos. Ambas fizeram história ao atacar ciclópicos esquemas de lavagem de dinheiro e corrupção com a participação de políticos graúdos – de presidente da República, senadores, deputados federais, estaduais, governadores a ex-governadores. Embora a semelhança e diferença proporcional, a Lama Asfáltica, em algumas ocasiões fora tratada pela imprensa estadual e nacional como a Lava-Jato Pantaneira.

Diante das recentes publicações das notícias, uma delas a do vazamento de diálogos envolvendo procuradores do MPF (Ministério Público Federal) com o ex-juiz federal Sérgio Moro, hoje ministro da Justiça, nota-se a grande distinção entre as duas operações. Pela reportagem, havia um conluio entre os acusadores, procuradores do MPF, por exemplo e o julgador, Moro, no caso.

Na Lava-Jato, severamente questionada pelos envolvidos, desde o início até hoje, criou-se uma figura arriscada a qualquer investigação: a de heróis.

Moro, por exemplo, virou ministro graças às exaustivas aparições na mídia. A cada operação, ele e os procuradores do MPF convocavam as conhecidas coletivas de imprensa e exibiam os inquéritos que narravam os históricos dos investigados.

O ministro, que agora questiona o vazamento de seus diálogos, publicado no fim de semana pelo site noticioso Intercept Brasil, foi quem autorizou a publicação da conversa telefônica entre Dilma e o ex-presidente Lula, episódio mostrado à época em primeira mão no Jornal Nacional.

Por regra nacional, a conversa da presidenta (não de Dilma, mas qualquer outro mandatário) jamais deveria ser espionada do modo como foi. O áudio tornou-se público em março de 2016.

Ou seja, a notoriedade de Moro fora construída assim, durante sua ação na mais poderosa investigação contra esquemas de corrupção no país. O ministro virou herói aqui e lá fora do país. Hoje, contudo, nota-se que algumas condutas suas eram suspeitas.

Ao menos nas conversas vazadas, percebe-se que Moro orientava procuradores nas investigações, atitude reprovada por lei, um pecado jurídico. Por conta disso, hoje, em Brasília, falam-se em criação de CPI para investigar as atitudes do ministro no período dele na magistratura. E isso põe em risco inclusive seus despachos, sentenças, por exemplo.

NO QUIETO

A Lama Asfáltica, que pôs o ex-governador André Puccinelli (MDB) e colegas na prisão, envolveu policiais federais, servidores da Receita Federal, Controladoria Geral da União e procuradores do MPF (Ministério Público Federal).

Ou seja, havia investigadores da trama corrupta no prédio da Polícia Federal, na Vila Sobrinho, em Campo Grande, da CGU, cuja sede fica na rua Joaquim Murtinho, perto da Rui Barbosa e da Receita Federal, no Parque dos Poderes.

Nenhum desses servidores nem de longe conquistou fama heróica. Bom para a investigação, inconteste, ao menos até agora.

 

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