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Campo Grande

há 8 minutos

Enquanto a rede de esgoto avança, a vida de famílias se transforma em Campo Grande (vídeo)

Expansão do saneamento acompanha queda de 53% na taxa de internações por diarreia e leva melhorias à rotina de moradores da Capital

A transformação de uma cidade nem sempre acontece à vista de todos. Algumas das mudanças mais importantes começam debaixo da terra, percorrem quilômetros de ruas e chegam às casas sem ocupar fachadas ou alterar imediatamente a paisagem. São obras que, embora muitas vezes invisíveis, podem modificar a maneira como uma população vive e se relaciona com a própria saúde.

No Jardim Serra Azul, em Campo Grande, Rosa Maria Assis acompanha essa transformação de perto. Moradora da região há 21 anos, ela já tem a rede pública de esgoto disponível em sua rua, mas ainda depende de uma fossa para destinar os resíduos domésticos.

Para conseguir utilizar o novo serviço, Rosa precisa realizar adaptações na tubulação interna da residência. O trabalho é de responsabilidade particular do morador e, por enquanto, não há previsão para que a ligação seja concluída.

Enquanto isso, a manutenção da fossa continua fazendo parte da rotina da família.

“A fossa pra gente é um transtorno, né? Porque a gente tem que estar limpando, higienizando, para não dar mau cheiro e para ela não transbordar. Se transbordar, vai para a rua. A minha fica na frente da casa, então vai direto para a rua. Isso não é bom para os vizinhos também”, relata.

A preocupação ultrapassa os limites da residência. Rosa cultiva plantas, mantém animais e se preocupa com as condições do solo e com a qualidade da água.

“Eu me preocupo, sim. Porque não são só as plantas, né? Eu também tenho bichinhos. A água tem que ser limpa, tem que ser de qualidade para a gente, para as plantas e também para os animais”, afirma.

Na região urbana do Lagoa, onde está localizado o Jardim Serra Azul, a expansão da infraestrutura representa a possibilidade de que mais famílias deixem de depender de sistemas individuais e passem a contar com a coleta e o tratamento públicos de esgoto.

Para Rosa, essa transformação já chegou à rua. Falta, agora, atravessar a porta de casa.

Com a chegada do saneamento básico fica bem mais acessível e melhor, faremos manutenção só nas nossas caixinhas de esgoto mesmo. Melhora a qualidade de vida, da água. Um saneamento básico que acarreta na chegada da água fluvial e chegada fo asfalto é maravilhoso, um benefício puxando o outro", comenta.

Saneamento e saúde: o que revelam os números

Em Campo Grande, a infância e a vida das famílias estão no centro de uma transformação urbana que envolve saneamento, saúde e qualidade de vida

Entre 2011 e 2024, a taxa de internações por diarreia caiu aproximadamente 53% em Campo Grande. Outro levantamento aponta redução de 91% no número absoluto de internações entre 2003 e 2022

A ampliação do esgotamento sanitário está associada a benefícios que ultrapassam o conforto doméstico. A coleta e o tratamento adequados reduzem a exposição da população a ambientes potencialmente contaminados e integram as medidas de proteção da saúde pública.

Em Campo Grande, dados da Sesau (Secretaria Municipal de Saúde) mostram que a proporção da população atendida com coleta de esgoto passou de 61,3%, em 2011, para 91,1%, em 2024. No mesmo período, a taxa de internações por diarreia caiu de 2,90 para 1,36 por 10 mil habitantes, uma redução de aproximadamente 53%.

A evolução dos indicadores foi acompanhada pelo professor Ariel Ortiz, da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), que participou de uma pesquisa sobre a relação entre a expansão da rede coletora e as internações por doenças diarreicas agudas na Capital.

“À medida que avança a rede coletora de esgoto, o acesso à rede, há uma redução significativa da quantidade de internações por doenças diarreicas”, afirma.

O professor explica que fossas sépticas podem desempenhar adequadamente sua função quando são dimensionadas, construídas e mantidas de maneira correta. Entretanto, instalações inadequadas e o lançamento irregular de esgoto podem representar riscos ao solo, à água e à saúde.

“Em vez do esgoto ficar correndo a céu aberto ou em valas, ou no que a gente chama de fossa séptica, que é um sistema de tratamento do esgoto que sai das casas, que muitas vezes, se não bem dimensionado, se não bem construído, ele pode afetar tanto a qualidade do solo quanto a da água”, explica.

Segundo Ariel, os efeitos das doenças relacionadas às condições sanitárias podem ser especialmente graves para crianças pequenas e idosos.

“A população em que isso tem maior efeito, quer dizer, traz maior benefício ainda, é a população de zero a cinco anos, que são as crianças, e também os idosos, porque são dois grupos mais vulneráveis”, destaca.

Outro levantamento, divulgado pela Águas Guariroba e atribuído a um estudo desenvolvido com participação da UFMS, aponta uma redução de 91% no número de internações por doenças diarreicas em Campo Grande entre 2003 e 2022. Os registros passaram de 1.111 para 101.

Entre crianças menores de quatro anos, a redução informada foi de 97,4%, passando de 842 para 22 internações. No mesmo período, a população atendida pela rede de esgoto aumentou de aproximadamente 137 mil para mais de 774 mil pessoas, segundo os dados apresentados pela concessionária.

Os levantamentos utilizam períodos e indicadores diferentes. A série da Sesau apresenta taxas de internação por 10 mil habitantes, enquanto a pesquisa citada pela Águas informa números absolutos de internações.

A Secretaria Municipal de Saúde ressalta que a redução das doenças não pode ser atribuída exclusivamente à expansão da rede de esgoto, uma vez que outros fatores epidemiológicos, ambientais e comportamentais também influenciam os resultados.

Ainda assim, a evolução dos indicadores ajuda a compreender a importância do saneamento dentro de um conjunto de medidas voltadas à proteção da saúde.

Quando a infraestrutura passa a fazer parte da rotina

Em outra região de Campo Grande, a experiência de Liliani Melo Lucena Sanches, de 43 anos, mostra uma etapa diferente desse processo.

Moradora do Nova Lima, na região norte da Capital, há quase 22 anos, ela acompanhou mudanças importantes na infraestrutura do bairro. Segundo seu relato, a rede de esgoto chegou à região há aproximadamente seis anos, enquanto a pavimentação asfáltica foi implantada cerca de um ano depois.

Com a residência conectada ao sistema público de esgotamento sanitário, Liliani considera que as melhorias urbanas contribuíram para transformar a qualidade de vida da família, especialmente dos filhos.

“Aqui no bairro, que vai fazer 22 anos que eu moro aqui, a melhora foi de 100% pra mim, né? Principalmente até por causa dos meus filhos, que eu tenho três pequenos ainda. Os três pequenos são os que mais vivem na rua, então melhorou bastante pra eles por causa do futebol, bicicleta, né, que eles gostam bastante”, conta.

A percepção da moradora envolve diferentes serviços que chegaram ao bairro ao longo dos anos.

Liliani também relembra problemas de saúde e atendimentos na Unidade de Pronto Atendimento (UPA). Ao falar sobre a melhora desses episódios, porém, relaciona a mudança especificamente à chegada do asfalto.

“Eu vivia no serviço de saúde, na UPA. Eu cheguei a ficar internada um dia por causa da minha sinusite. Então, depois que veio o asfalto, melhorou bastante, melhorou muito”, relata.

A distinção é importante porque a evolução da qualidade de vida em uma comunidade pode resultar de diferentes intervenções realizadas no mesmo período.

O professor Ariel Ortiz ressalta que os efeitos do saneamento devem ser analisados em conjunto com outras melhorias urbanas, como pavimentação, drenagem, coleta de lixo e calçadas.

“Se eu avaliar só a rede de esgoto, é difícil isolar os outros benefícios, os outros efeitos, que vêm junto com pavimentação asfáltica, com calçada, com coleta de lixo”, explica.

Para Liliani, a adesão ao serviço de esgoto também representa um investimento no bem-estar da família. Ela conta que providenciou a documentação necessária, passou a utilizar a rede e começou a pagar pelo serviço.

Mesmo reconhecendo o custo, considera que o benefício não se limita ao presente.

“É um benefício pra gente, entendeu? É um benefício pra gente. E na questão de vai ficar muito caro, vai caro, sim, mas isso é pra gente, é pros nossos filhos, é pro futuro dos nossos filhos”, afirma.

As histórias de Liliani e Rosa revelam momentos diferentes da expansão do saneamento em Campo Grande. Enquanto uma já utiliza a infraestrutura, a outra aguarda a adaptação da residência para finalmente se conectar à rede disponível em sua rua.

A expansão da rede em Campo Grande

Em Campo Grande, a infância e a vida das famílias estão no centro de uma transformação urbana que envolve saneamento, saúde e qualidade de vida

Equipes trabalham na implantação da rede de esgotamento sanitário em Campo Grande, ampliando a infraestrutura de coleta de esgoto na Capital

Segundo a Águas Guariroba, aproximadamente 95% da população de Campo Grande tem acesso à rede de esgoto em 2026. A estrutura conta com cerca de 3,5 mil quilômetros de extensão e integra o sistema responsável pela coleta e pelo tratamento dos efluentes domésticos.

Nos últimos cinco anos, a concessionária informa ter implantado mais de 800 quilômetros de novas redes coletoras. Para 2026, a empresa apresentou um volume superior a 200 quilômetros de expansão, associado ao atendimento de 20 mil famílias e quase 60 mil pessoas.

O sistema de Campo Grande trata aproximadamente 105 milhões de litros de esgoto diariamente, conforme os números divulgados pela concessionária.

As intervenções alcançam diferentes pontos da cidade, incluindo Coophavila II, Jardim Batistão, Jardim Columbia, Nova Lima, Jardim Tarumã e Estrela Dalva.

Na região urbana do Lagoa, onde fica o Serra Azul, as obras de expansão começaram em 2013, segundo a empresa. No Coophavila II, mais de 2.340 imóveis são apontados como beneficiados pela rede de esgoto.

A concessionária também informou intervenções recentes no Jardim Batistão, incluindo as ruas Dinamarca, Rio Brilhante, Fátima do Sul, General Carneiro e Lagoa Nova, além de trechos da Avenida Nasri Siufi.

Para os próximos anos, o planejamento prevê aproximadamente 600 quilômetros adicionais de rede até 2028, com a meta de alcançar 98% de cobertura.

Em Campo Grande, a infância e a vida das famílias estão no centro de uma transformação urbana que envolve saneamento, saúde e qualidade de vida

Campo Grande possui cerca de 3,5 mil quilômetros de rede de esgoto, com cobertura de 95% em 2026. A meta é chegar a 98% até 2028

A ampliação da infraestrutura, entretanto, envolve etapas distintas. Primeiro, é necessário disponibilizar a rede pública. Depois, os imóveis precisam realizar suas ligações para que o esgoto produzido dentro das residências seja encaminhado ao sistema de coleta e tratamento.

É justamente nessa última etapa que se encontra Rosa, no Serra Azul.

O trabalho que continua depois da obra

A expansão da rede representa apenas uma parte do funcionamento do esgotamento sanitário. Depois que a infraestrutura entra em operação, o sistema precisa ser acompanhado continuamente para garantir o transporte do esgoto até as unidades de tratamento.

No CCO (Centro de Controle de Operações) da Águas Guariroba, o supervisor Guilherme da Silva Pereira explica que o monitoramento permite acompanhar o funcionamento das estruturas e identificar possíveis alterações no sistema.

Por meio do sistema ELIPS, a equipe acompanha informações operacionais, como níveis de unidades elevatórias, funcionamento de bombas, pressão e vazão.

Segundo Guilherme, o monitoramento permite identificar alterações e emitir alertas, orientando o encaminhamento de equipes de campo quando há necessidade de manutenção ou vistoria.

As solicitações dos consumidores também são acompanhadas pelo centro de controle, que auxilia na organização das ordens de serviço e no direcionamento dos atendimentos.

Essa operação permanente é parte da infraestrutura que o morador não vê. Enquanto as tubulações permanecem enterradas, equipamentos, equipes e sistemas de monitoramento precisam funcionar para que a coleta e o encaminhamento do esgoto ao tratamento continuem acontecendo.

O futuro que começa em casa

A expansão do esgotamento sanitário em Campo Grande pode ser medida em quilômetros de tubulações, percentuais de cobertura e volumes de esgoto tratado. Também aparece nos indicadores de saúde pública, que acompanham mudanças ao longo dos anos.

Mas, para as famílias, seu significado está nas experiências do dia a dia.

No Serra Azul, Rosa Maria Assis ainda convive com os cuidados necessários para manter a fossa. Depois de mais de duas décadas na comunidade, ela vê a rede de esgoto disponível em sua rua, mas ainda precisa adaptar o encanamento da residência para utilizar o serviço.

No Nova Lima, Liliani Melo Lucena Sanches já está conectada ao sistema e acompanha as mudanças ocorridas no bairro onde criou os filhos.

A experiência de cada uma mostra que os quilômetros de rede ganham significado quando a infraestrutura chega aos imóveis e passa a fazer parte da vida dos moradores.

Para Liliani, esse significado está principalmente nas próximas gerações.

“É pros nossos filhos. É pro futuro dos nossos filhos”.

 

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